Compreensão da metástase desafia ciência do câncer

Pesquisador americano cobra mais atenção para o estudo de mecanismos que regulam a dispersão de tumores no organismo

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Imagine uma faculdade de agronomia onde só fossem estudadas as características das sementes e ignoradas completamente as propriedades do solo no qual elas devem ser semeadas. Seria um fracasso para a agricultura. Mas é justamente isso que a ciência tem feito com relação ao câncer: olhar apenas para as células tumorais, sem se preocupar com as "condições ambientais" do organismo onde proliferam.

A analogia foi feita em 1889 pelo cirurgião britânico Stephen Paget, em um artigo publicado na revista Lancet - uma das mais importantes na área das ciências médicas.

"Ainda assim, passados 120 anos, 99,9% dos laboratórios continuam a pesquisar apenas as sementes", alerta o pesquisador David Lyden, do Weill Cornell Medical College, em Nova York, que esteve em São Paulo anteontem para dar aula em um curso de pós-graduação no Hospital A. C. Camargo.

Segundo ele, o conhecimento do "solo" é imprescindível para a compreensão da metástase, processo pelo qual tumores malignos se espalham por diferentes tecidos do organismo.

"Entre 80% e 90% das mortes por câncer ocorrem em função da metástase e não do tumor primário", destacou Lyden, cujo laboratório dedica-se, justamente, a entender os mecanismos biológicos e moleculares que regem essa dispersão da doença. "Todo mundo foca no tumor, mas a verdade é que o câncer é uma doença sistêmica."

Assim como um agrônomo precisa de parâmetros para escolher o melhor solo e o melhor clima para uma determinada cultura, médicos precisam de parâmetros mínimos para tentar prever como, quando e para onde um determinado câncer vai se espalhar pelo organismo. Os resultados de Lyden mostram que não há nada de aleatório nesse processo. E que as células tumorais são mais ardilosas ainda do que se imaginava.

Recrutamento. Médicos e pesquisadores já perceberam faz tempo que determinados tipos de câncer tendem a se espalhar para órgãos específicos. Tumores de mama, por exemplo, costumam produzir metástase no pulmão ou no cérebro. Mas como? E por quê?

"Deve haver uma combinação de fatores que favorece a proliferação do tumor para tecidos específicos", especula Lyden.

Estudos feitos em seu laboratório revelam uma estratégia refinada usada pelas células tumorais para "fertilizar" os tecidos nos quais elas preferem germinar. Segundo Lyden, o tumor primário secreta na corrente sanguínea uma série de fatores (moléculas) que penetram na medula óssea e recrutam células-tronco para trabalhar como "jardineiras", secretando nutrientes e favorecendo a formação de vasos sanguíneos que servirão para alimentar a metástase.

As células-tronco são ideais para o serviço, pois criam nichos "embrionários" dentro do organismo, bastante propícios à proliferação celular - que é o que os tumores gostam de fazer.

"Vemos que as células tumorais e as da medula óssea conversam entre si. É uma via de duas mãos", explica Lyden. Se os cientistas conseguirem interromper essa linha de comunicação, diz ele, talvez seja possível impedir a metástase. Para isso é preciso decifrar a linguagem bioquímica que as células usam para conversar - e os argumentos que as células tumorais utilizam para convencer as células da medula óssea a trabalhar a seu favor.

Em experimentos com camundongos, animais doentes injetados com anticorpos selecionados para bloquear a mobilização das células da medula não desenvolveram metástase. "Será que podemos fazer o mesmo em seres humanos?", questiona o pesquisador.

"É uma hipótese muito atraente", avalia Emmanuel Dias-Neto, pesquisador do A. C. Camargo e coordenador da Escola São Paulo de Ciência Translacional. Cerca de 200 alunos do Brasil e do exterior participam do curso, de duas semanas, oferecido pelo hospital e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. "A gente sempre simplifica muito as coisas. O que ele (Lyden) propõe é uma forma mais completa de olhar o problema."

Imagens apresentadas pelo americano mostram células-tronco cooptadas da medula óssea fixando-se aos tecidos-alvo antes mesmo da chegada das primeiras células tumorais, como se preparassem o ambiente para a metástase. "Isso é surpreendente", avalia Dias-Neto. "Muda muito a maneira como vamos encarar o câncer e a metástase daqui para frente."

PARA ENTENDER

1.

O que causa o câncer?

Mutações genéticas (naturais ou induzidas) em uma célula, que fazem com que essa célula se multiplique descontroladamente.

2.

Como o câncer mata?

O maior problema é a metástase, quando células do tumor primário migram para outros órgãos, formando mais tumores. Além do dano físico aos tecidos, os tumores secretam moléculas nocivas ao organismo.

3.

Por que é tão difícil achar uma cura?

Há muitos tipos de câncer e cada um é diferente do outro. Por isso não há uma terapia que funcione para tudo.

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