Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE

Disputado Essenfelder

Por que Mário Pinheiro, do brasiliense Piantella, vez ou outra cede lugar a políticos em seu piano

Flávia Tavares, de O Estado de S.Paulo,

11 de agosto de 2012 | 21h09

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu

Serão bonitas, não importa

São bonitas as canções

(Choro Bandido, Edu Lobo

e Chico Buarque)

 

Ele nem devia estar ali naquela noite. Era sua folga. Mas havia marcado um encontro com um amigo e, bom, já que ali estava, decidiu tocar. Postou-se ao piano Essenfelder ¼ de cauda e dedilhou as músicas típicas de um bar de estilo inglês, suaves e com um quê de melancolia. Em uma das mesas, um ex-senador confraternizava com advogados e amigos quando lá pelas 22h30 pediu o microfone. Ainda sentado à mesa, o magro e abatido Demóstenes Torres cantou baixinho Minha Namorada, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra. Depois, tablet com a letra da música em mãos, solicitou ao pianista que executasse Let me Try Again, balada entoada ad nauseam por Frank Sinatra. Como a voz de Demóstenes é meio hesitante, o músico acionou o pedal abafador e deu uma forcinha, fazendo o backing vocal.

 

Mário Pinheiro é o pianista oficial do bar do Piantella, um dos mais disputados pontos de encontro da capital federal há quase 20 anos. É no salão iluminado do restaurante, com cadeiras almofadadas vermelhas e decoração sóbria, em que pratos da culinária francesa e vinhos caríssimos desfilam nas bandejas, que as conversas que definem os bastidores políticos do Brasil se dão. Fundado em 1976, inicialmente com o nome Tarantella, o restaurante foi cenário de algumas das mais relevantes negociações políticas de Brasília. Foi no salão principal que a oposição se uniu em torno de um projeto de redemocratização do País, durante a ditadura militar, e que Ulysses Guimarães costurou a Lei de Anistia e a campanha pelas Diretas Já. De tão assíduo que era ali, Ulysses dá nome a um canto do restaurante. Foi também no Piantella que Luís Eduardo Magalhães negociou, em 1996, para que Michel Temer fosse seu sucessor no comando da Câmara dos Deputados. O filho de ACM ganhou uma placa em sua homenagem no estabelecimento.

 

O piano bar é um anexo. Foi aberto há 20 anos. A decoração destoa do resplendor do restaurante. Suas paredes de madeira escura, as cadeiras de couro verde-musgo e a penumbra tornam o ambiente mais propício para o entretenimento que para os negócios. “Quando se podia fumar, então, era ainda melhor. Os cigarros e os charutos davam um tom mais boêmio”, diz Marco Aurélio Costa, sócio fundador e chef do Piantella. Enquanto o restaurante funciona como uma espécie de sala de reuniões, o bar é um espaço de libertação, quase um confessionário da noite - e Mário Pinheiro, com seus 71 anos, cabelos brancos e casaco escuro, um tipo de padre da boemia. Inclusive com a discrição que o sacerdócio lhe impõe. “Vocês, jornalistas, acham que todo dia acontece algo como o que aconteceu segunda-feira, com o Demóstenes, mas não é bem assim”, tergiversa Mário. “Quando estou tocando, só penso em mim e na música, não presto atenção em quem está conversando com quem no bar.”

 

A concentração e a memória de Mário, ou do Marinho, como é chamado pelos colegas, são marcantes. Autodidata que é - teve apenas uma professora de piano na infância -, tira as músicas de ouvido, não usa partituras e já há algum tempo dispensou até a lista de 50 canções que carregava no bolso para o guiar. “Vou tocando, emendo uma na outra sem pensar”, diz. Seu repertório passeia por Eu Sei que Vou te Amar, She, Let it Be, My Way (sua preferida), As Time Goes by, Corcovado, Imagine... Quando avista o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, sócio do restaurante e defensor de Duda Mendonça no mensalão, já dispara Outra Vez, de Roberto Carlos, ou Todo Sentimento, de Chico Buarque. Se é o deputado Miro Teixeira quem chega, o som no piano é de Bilhete, de Ivan Lins. “O Mário tem a maior sensibilidade auditiva que eu já vi. Não só sabe as músicas de ouvido como, pelo bom relacionamento com os clientes, decora suas canções preferidas”, conta Marco Aurélio. Entre seus fãs estão ainda o presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, e o ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota.

 

Patriota, diga-se, vez ou outra assume os teclados. Mas é discreto e só o faz se está sozinho no bar, quando toca um blues. “O bar é onde as pessoas vão para se distrair, é só o que posso dizer”, explica Marcinho Silva, o pianista que reveza com Mário nas noites do piano-bar. “E, claro, a gente acaba se tornando uma espécie de confidente. Por isso, sou como o Mário nesse aspecto, prefiro a discrição.” Por ser mais antigo, Mário fica com as noites de terça e quarta-feira, as mais nobres de Brasília, quando os políticos ainda estão por lá. Marcinho, na casa há sete anos, fica com as quintas, sextas e sábados.

 

Mário nasceu em João Pessoa, filho de um comerciante de tecidos com uma dona de casa. Sua mãe era filha de uma paraibana com um dinamarquês e, assim, Mário se orgulha do sobrenome Svendsen que antecede o Pinheiro. “Não é chique?”, diz, mostrando o RG. Ainda na Paraíba, com 5 ou 6 anos, ele se encantou com o som do piano de uma vizinha que tocava todas as tardes. Em Campina Grande, para onde a família se mudou por conta da profissão do pai, Mário começou a tomar aulas, com 9 anos de idade. “Nunca gostei das lições. Eu só gostava de tirar melodia de ouvido”, lembra. Já no Recife, passou a tocar com mais assiduidade, mas sempre “música caseira”, para amigos e parentes. Formou-se advogado, nunca exerceu e passou a trabalhar na loja de tecidos do pai. Ficou em Pernambuco por 31 anos, onde se casou duas vezes. Com a segunda mulher, Rosalba, teve quatro filhos: Mário Filho, Cacai Nunes, Maria Claudia e Anna Paula. “Brinco com o Kakay que meu filho, Cacai, é de pobre, porque é com C e I”, diverte-se.

 

A família se mudou para Brasília em 1984, a pedido da mulher, funcionária do Banco do Brasil, que quis ser transferida para lá. Com a ajuda de amigos de seu pai, Mário conseguiu um emprego como “assessor de um grupo têxtil/cimenteiro junto a órgãos governamentais”, o popular lobista. Apesar de reservado, ele sempre teve facilidade para se relacionar. O irmão de um colega de trabalho abriu, em 1986, um restaurante, chamado Forty-Five, que concorria com o Piantella no quesito almoços e jantares de negociações e negociatas. Mário Pinheiro começava ali sua carreira profissional de músico.

 

“Tocava às noites e trabalhava de dia para o grupo têxtil”, conta. “Como frequentava órgãos públicos, já estava habituado ao círculo do poder, não me deslumbrei.” Ali fez amigos, como os advogados Laicer Barbosa e Luiz Gonzaga Quintanilha de Oliveira, hoje seus clientes no Piantella e ambos com dotes musicais que compartilham com Mário nas noites do piano bar. “O Laicer canta muito bem boleros, Roberto Carlos, Cartola. Já o Quintanilha gosta de tocar e eu sempre o convido ao piano.” Receber elogio do exigente Mário é bom sinal. Até do patrão ele reclama. Em tom de brincadeira, diz que Kakay só canta quando já está meio embriagado, e desafina. Diz ainda que nenhuma das mulheres que se aventuram no microfone tem talento. “Lamentavelmente, todas cantam mal.”

 

Mobília melodiosa. Quando o Forty-Five fechou, em 1990, o pianista seguiu fazendo shows particulares e avulsos em outros bares, até que, em 1992, ficou sabendo da inauguração do bar do Piantella. Ofereceu-se para Marco Aurélio, que demorou um ano para o contratar. Ficou titular de terça a sábado até sete anos atrás. “Toda noite me marca. É sempre especial.” Nessas quase duas décadas, tornou-se “parte do mobiliário da empresa”, como define Marco Aurélio, que pretende incluir Piantella em seu sobrenome.

 

Mário Pinheiro quase não bebe, a não ser pela ocasional Stella Artois ou uma dosezinha de uísque. Tem lá suas idiossincrasias, como ler o Diário Oficial como se deve, diariamente. “Um belo dia ele chegou para o ex-porta-voz do Itamar Franco, Lúcio Neves, e disse: ‘Parabéns pela sua prima’. A mulher tinha passado num concurso público e nem sabia ainda, mas o seu Mário já tinha lido no Diário Oficial”, conta Marcinho Silva.

 

O prestígio de tocar no restaurante mais famoso da cidade já lhe rendeu convites para se apresentar em embaixadas, como as do Líbano e da França. Ele só recusa mesmo convocações para viajar. “Odeio a ideia de arrumar malas e carregá-las para lá e para cá.” Parece que não pretende mesmo ir a lugar algum. Divorciado há dez anos, vive sozinho em um hotel e, quando não está no bar, gosta de ler e de assistir ao seu Vasco e a outros eventos - no momento, está viciado na transmissão da Olimpíada. Antes de ir em plena quinta-feira, sua folga, visitar os amigos no bar, agora esvaziado porque os advogados dos principais réus do mensalão já apresentaram suas defesas, Mário decreta: “Quero tocar no Piantella até quando conseguir”. Com sua elegante discrição e os dedos longos e leves acionando as teclas, tem vaga garantida pelo tempo que quiser no confessionário da alta roda de Brasília.

 

Em tempo: a palavra Piantella foi inventada pelo fundador do restaurante, Marco Aurélio Costa, quando ele perdeu o direito de usar Tarantella, processado por uma casa de mesmo nome no Rio. Um amigo da embaixada da Itália lhe sugeriu o nome Pianella, ou “piano pequeno” em italiano. Marco Aurélio dormiu e sonhou com Piantella. 

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