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Escolas passam atividades até na hora do recreio

Colégios particulares ensinam brincadeiras em 'recreios dirigidos'; especialistas criticam o controle excessivo dos adultos

Luciana Alvarez, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Crianças que passam o dia sob controle de pais, babás e professores, com a agenda lotada de atividades, agora têm também suas brincadeiras da hora do recreio dirigidas por adultos. Cada vez mais colégios particulares adotam o chamado "recreio dirigido", na tentativa de resgatar formas saudáveis de brincar em grupo. Alguns educadores, porém, temem que a prática se torne mais uma maneira de controlar uma geração que já desfruta de pouca autonomia.

Escolas defendem que é seu papel oferecer um repertório de brincadeiras coletivas a estudantes normalmente confinados a espaços fechados e cercados de eletrônicos. "De 20 anos para cá acabou a brincadeira de rua. Um amigo mais velho me ensinou o pega-pega. Hoje eles aprendem onde?", questiona Cláudio Fernandes, coordenador de esportes do colégio bilíngue Stance Dual. Todos os dias são oferecidas três opções de atividades esportivas e culturais. Os alunos são livres para participar ou não.

Em alguns colégios, o recreio dirigido é considerado uma fase necessária para os pequenos, até que consigam brincar de formas variadas sem necessidade da interferência de um adulto. Na escola Pio XII, atividades educativas são sugeridas diariamente no recreio do 2.º ano. "O objetivo é melhorar a integração, desenvolver autonomia. A partir do 3.º ano, as crianças podem usar livremente o espaço do colégio, que é grande e cheio de verde", diz a orientadora Regina Toledo.

No colégio Humboldt, desde o semestre passado os estudantes do infantil e 1.º ano do fundamental têm um dia por semana o chamado "parque dirigido". "Temos um espaço grande, mas muitas crianças não têm repertório para usá-lo. Elas podem se apropriar das brincadeiras e depois brincar de maneira autônoma", explica a coordenadora Mariane Bischof.

Em geral, os pais se sentem confortáveis ao ver seus filhos brincando da mesma forma que eles faziam durante sua infância. "Lá ela pula corda, brinca de esconde-esconde e outras coisas. A Isabela adora - e eu gosto também, porque ela não fica só falando e aprendendo bobagem", diz Eliane Consorte, mãe de Isabela, de 6 anos, aluna do São Luís, onde uma vez por semana alunos de todas as séries têm atividades dirigidas durante os 45 minutos de intervalo.

Confiança. A antropóloga Adriana Friedmann, do movimento Aliança pela Infância, acredita que, apesar da boa intenção ao incentivar brincadeiras, os educadores deveriam confiar na capacidade dos alunos. "Elas criam, sim. Talvez não no primeiro dia, mas é só deixar a criança livre que vão surgir propostas. Falta um voto de confiança do adulto, ouvir e respeitar um pouco mais o que elas querem", diz.

Segundo Adriana, esse tipo de proposta acaba podando a iniciativa das crianças. "Elas estão sendo sempre direcionadas, ficam sempre esperando que alguém diga o que é melhor fazer, perdem autonomia."

A diretora pedagógica do colégio Sidarta, Claudia Cristina Silva, defende que as competências sociais surgem apenas com o convívio completamente livre durante o recreio. "Nas escolas, tudo já é tão dirigido. O intervalo é a única situação mais próxima da realidade, onde todos podem interagir livremente", explica. "O adulto tem de se colocar apenas como observador."

Social. Pois é em nome de um convívio mais harmonioso que algumas escolas promovem atividades no recreio. "É uma forma de mobilizar, integrar e diminuir os conflitos", afirma a orientadora Maria Isabel Camargo, do Móbile. Duas vezes por ano, professores dos 6.º e 7.º anos "estimulam" os alunos a organizar "recreios melhores". As turmas têm de eleger representantes, fazer um levantamento de jogos desejados e, por fim, organizar campeonatos.

Por uma insatisfação dos funcionários com as confusões na hora do lanche, há quatro anos o Santa Amália tem nos pátios mesas de jogos de tabuleiro e, uma vez por semana, um inspetor apita uma partida de futebol para cada ano. "Antes a gente tinha só muita correria", conta a coordenadora Isabel Cristina Castro.

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