Estudante é mão de obra barata, reclama presidente da Associação Nacional de Médicos Residentes

Entre as principais queixas dos residentes, segundo ele, estão a falta de qualidade dos cursos ou dos tutores, excesso de horas de atividades e tratamento desrespeitoso pelo orientador ou pelos colegas 

Lígia Formenti, O Estado de São Paulo

26 Março 2018 | 03h00

BRASÍLIA. “Residente é mão de obra barata. Em muitos programas, ele é chamado para trabalhar muito e aprender pouco”, resume Juracy Barbosa, presidente da Associação Nacional de Médicos Residentes. Entre as principais queixas dos residentes, segundo ele, estão a falta de qualidade dos cursos ou dos tutores, excesso de horas de atividades e tratamento desrespeitoso pelo orientador ou pelos colegas. 

“Depois da graduação, passei direto para a residência, mas muitas pessoas têm de recorrer a cursos preparatórios”, conta. Os cursinhos especializados em provas de residência têm aumentado. As classes são práticas e teóricas. 

“As pessoas investem cerca de R$ 1 mil mensais, durante um, dois anos, para passar na prova. Muitos se frustram quando têm de enfrentar o dia a dia”, afirma Barbosa. 

De acordo com ele, o “que mais mobiliza os médicos a abandonarem o curso é a falta de qualidade. Depois do investimento em horas de estudo, em pagar cursinhos, os profissionais querem ensino de boa qualidade. Muitas vezes eles desistem, voltam a estudar para procurar lugar melhor”.

Barbosa afirma que não é raro ouvir de residentes reclamações sobre o pouco comprometimento dos preceptores. “Esses professores muitas vezes não recebem nada por ensinar. Além da falta de incentivo financeiro, o residente pode representar um estorvo para o professor. Quando ele dedica um tempo para explicar o caso, tirar dúvidas, o atendimento ao paciente fica mais demorado. Em outras palavras, o trabalho dele poderá ficar atrasado”, afirma. Em vários casos, os residentes de cirurgia são impedidos de operar. “Eles querem usar o bisturi. E isso muitas vezes não ocorre.”

Mais Médicos. Para Barbosa, parte do fenômeno de não preenchimento de vagas se deve à expansão dos cursos de residência no Brasil. Um dos braços do programa Mais Médicos, criado pelo governo federal em 2013, foi a ampliação de escolas médicas e de residência, principalmente no interior do País. 

A ênfase foi dada para especialidades consideradas prioritárias. “Foi feito um esforço para se ampliar as vagas de Medicina de Família e Comunidade, além de Psiquiatria”, observa o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da pesquisa [ITALIC]Demografia Médica[/ITALIC], Mário Scheffer. Muitos dos cursos novos despertaram pouco interesse dos médicos que desejavam se candidatar à residência. 

A residência de Medicina de Família e Comunidade é responsável por quase 20% de todas as vagas ociosas do País.

Juracy Barbosa observa, no entanto, que parte das vagas foi criada em locais onde não havia uma boa condição de trabalho.

 

 

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