Falta mão de obra qualificada

Mais de 15 milhões de trabalhadores terão de ser treinados, nos próximos cinco anos, para ingressar no mercado ou aproveitar as oportunidades de progresso em seus empregos, segundo o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Essa situação já é grave em setores como construção civil, alimentos e bebidas, vestuário, produtos de metal e máquinas e equipamentos, onde a demanda de empregados cresce rapidamente, mostrou reportagem de Raquel Landim, segunda-feira, no Estado. Mas também faltam empregados no agronegócio e em segmentos de serviços, como saúde e hotelaria.

, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Não se pode falar em escassez generalizada de mão de obra, pois, em 2009, foram contratados mais de 16 milhões de trabalhadores e despedidos 15 milhões, com saldo positivo de quase 1 milhão de empregos formais. Mas, no caso dos empregados especializados, a escassez foi constatada em 2008, saiu do rol das preocupações com a crise em 2009 e agora está de volta. "Toda vez que o Brasil cresce 4,5% ou mais, falta mão de obra qualificada", observou o professor José Pastore, da Universidade de São Paulo. Este ano, o crescimento previsto está entre 5% e 6%.

Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho, já indicam a falta de trabalhadores treinados. Na construção civil, por exemplo, o saldo líquido de contratações em 2009 - durante a crise, portanto - foi de 177 mil pessoas, pouco inferior ao de um ano de grande atividade no setor. Em São Paulo, no ano passado, as contratações na construção civil superaram as de 2008. Segundo a consultoria LCA, o número de empregados no setor já é maior do que o existente antes da crise.

Na indústria em geral, que criou pouco mais de 10 mil novas vagas com carteira assinada em 2009, a escassez de mão de obra qualificada ainda é pequena. Na região metropolitana de São Paulo, por exemplo, 26 mil vagas industriais foram suprimidas nos últimos 12 meses.

Mesmo assim a montadora Ford quer contratar 109 engenheiros e não consegue. "Realmente existe uma demanda maior do que a oferta de engenheiros no mercado", declarou o diretor de Relações Institucionais da montadora, Rogelio Goldfarb. A fábrica de aparelhos médicos Roche Diagnóstica não preenche, há cinco meses, uma vaga de vendedor de aparelhos de coagulação do sangue. "No nosso negócio, precisamos de alguém formado em biologia ou farmácia, mas que também entenda de vendas", disse o diretor de Recursos Humanos, Maurício Rossi. O caso da Google é ainda mais claro: ela anunciou a abertura de 50 vagas no início do ano, recebeu 3.500 currículos, mas, segundo a gerente de Recrutamento, Aline de Lucca, menos de 5% dos candidatos passaram para a fase seguinte de seleção. Motivo: não preencheram alguns dos requisitos básicos - bom desempenho acadêmico, fluência em inglês, experiência profissional e adequação à cultura.

A descentralização das atividades econômicas dissemina o problema. Com as obras de infraestrutura, as descobertas do pré-sal e a Copa do Mundo, mais empresas saem dos grandes centros e buscam o interior, o que eleva a demanda por profissionais naqueles locais, afirma a diretora do Senai Regina Torres.

Não há número suficiente de instituições de ensino para oferecer resposta adequada ao problema. O Senai diz que poderá atender a 70% da demanda. Para a necessidade de técnicos para a área do pré-sal, a Petrobrás financiará a formação de mão de obra dos fornecedores por intermédio do Programa Nacional de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás.

Para o economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, a falta de qualificação profissional é também um fator de aumento dos gastos das empresas com a formação do pessoal, podendo até pressionar a inflação deste ano.

A escassez de mão de obra, ao mesmo tempo que cria melhores condições para os empregados, abre espaço para novas pressões sindicais por remunerações mais elevadas para toda a força de trabalho, qualificada ou não.

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