Family offices se expandem no Brasil, sob a mira de reguladores

Nos últimos anos, a multiplicação de novos ricos e o aumento de profissionais de investimentos órfãos da consolidação bancária fez florescer no Brasil as family offices, casas especializadas em administração de fortunas.

ALUÍSIO ALVES, REUTERS

17 Outubro 2011 | 18h56

Agora, preocupados em evitar uma proliferação desordenada dessa atividade, órgãos reguladores estão apertando o cerco sobre os chamados gestores de patrimônio financeiro.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) informou que estuda a reforma da Instrução 306, que trata dos administradores de carteiras, para incluir atividades específicas da gestão de recursos de terceiros.

E a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), que lançou no começo do ano um código de autorregulação, busca elevar o número de associados, antes de criar uma base de dados do setor.

"Existe muita gente na informalidade", resume o presidente do Comitê de Gestores de Patrimônio Financeiro da Anbima, George Wachsmann.

A preocupação tem motivo. O segmento, que surgiu no Brasil há cerca de uma década, tem atualmente em carteira calculada em mais de 100 bilhões de reais, segundo estimativas de especialistas.

No início, eram sobretudo casas criadas para gerir os investimentos de uma família numa empresa. São casos como a Península, da família Diniz no Grupo Pão de Açúcar, ou a Janos, formada para cuidar da fatia dos Seabra, Leal e Passos, sócios da Natura.

No entanto, essa atividade, hoje conhecida como single family office, se desenvolveu e ganhou ramificações. A própria Janos deu origem à Pragma, um dos ícones do mercado de multi family offices, escritórios que atendem a vários clientes.

Segundo estimativas da Anbima, existem no mercado mais de 100 dessas empresas, inclusive estrangeiras. Por enquanto, apenas 19 fazem parte do comitê de autorregulação do segmento na Anbima. Cerca de 30 aderiram ao código da entidade.

A preocupação dos reguladores tem a ver não apenas com o crescimento de instituições, mas também com a diversidade de atuação. Há oferta de serviços jurídicos, tributários e contábeis, todas atividades cujos profissionais são sujeitos a certificações específicas.

Para Wachsmann, no entanto, o objetivo dos reguladores não é restringir a atuação do setor. "Não estamos querendo tirar ninguém do mercado, mas apenas criar um padrão mínimo de conduta."

Essa realidade não é apenas local. Nos Estados Unidos, a Family Office Exchange estima que apenas um terço das cerca de 9 mil entidades do ramo no país sejam formais.

MAIS MILIONÁRIOS

No Brasil, o universo de clientes não para de crescer. Segundo um levantamento recente do Merrill Lynch com a Capgemini, o país fechou 2010 com 155,4 mil milionários --pessoas com mais de 1 milhão de dólares disponíveis para aplicação.

O Brasil aparece na décima primeira posição no ranking mundial do setor, entre as nações que mais criaram ricos nos últimos anos.

A maioria dos clientes das family offices são famílias que venderam parte ou todas as ações de uma empresa na bolsa de valores ou a investidores estratégicos, como fundos de private equity. Na última década, estrearam na Bovespa mais de 100 empresas, a maioria oriunda de controle familiar.

Com dinheiro na mão --as family offices em geral atendem clientes com pelo menos algumas dezenas de milhões de dólares-- e faminto de assessoria individualizada, muitos desses novos ricos vão eles mesmos atrás de sugestões de investimentos.

"Tem gente que nos procura para saber se há empresas disponíveis à venda", conta o sócio da Cypress, boutique especializada em fusões e aquisições e que tem as family offices como clientes, Dalton Shoji.

A maioria, porém, quer diversificar as aplicações, distribuindo os recursos em ativos dedicados aos chamados investidores qualificados, como cotas de fundos de recebíveis, debêntures e em fundos de private equity ou de imóveis.

"Além disso, tem recursos que vêm indiretamente de private banks", conta o sócio da Pátria Investimentos Nemer Rahal.

A Pátria criou uma área específica para atender family offices, que hoje representam diretamente por 25 por cento dos cerca de 10 bilhões de reais que a empresa tem sob gestão.

Grande parte das family offices são criadas por profissionais egressos de processos de fusões bancárias e que resolveram criar seus próprios escritórios de assessoria financeira.

"Os seus clientes são pessoas com dinheiro que estão sendo mal atendidas ou que não prestam serviço individualizado", diz Wachsmann, da Anbima, e também sócio da Bawm Investments.

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