Fernando Nakagawa/AE
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Na Espanha, vilarejo sofre com a crise

Um dos principais produtores de pepinos do país, Villa del Prado perde 100 mil euros por dia

Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO VILLA DEL PRADO (ESPANHA)

Na pequena Villa del Prado, a uma hora a oeste de Madri, o clima é de desolação. Mesmo com o esclarecimento das autoridades alemãs de que os pepinos não são os culpados pelas mortes causadas pela bactéria E.coli, o município sofre com a desconfiança.

Villa del Prado é um dos principais produtores da hortaliça no país. Com a crise, estão sendo vendidas menos de 15% das mais de 100 toneladas produzidas diariamente.

"Achava que, com a crise econômica, já estávamos no fundo do poço", lamenta Isabel Muñoz, dona de uma pequena propriedade. Mesmo com a volta atrás do governo alemão, mais de 80% da produção da família teve de ir para o lixo na semana passada. "O medo entra na cabeça das pessoas em um minuto pela tevê, mas para sair são meses."

O resultado de tanto medo é visto no Mercamadrid, o maior entreposto europeu de frutas, verduras e peixes. O preço pago ao produtor caiu de 60 para 20 centavos de euro por quilo. Para Isabel não ter prejuízo, deveria receber 50 centavos de euro. "Recebo o equivalente a umas 30 pesetas por quilo. É quase o preço de 30 anos atrás, com a diferença de que agora pagamos impostos europeus", desabafa.

Segundo a Associação de Agricultores de Villa del Prado, a cidade de 6.460 habitantes perde 100 mil euros (R$ 230 mil) por dia. Na Espanha, a Associação de Exportadores de Frutas e Hortaliças estima prejuízo de 225 milhões euros (R$ 520 milhões) por semana.

Em um ato que misturou protesto e desespero, um dos maiores produtores da cidade doou 10 toneladas de pepino ao zoológico Safari Madrid, na semana passada. Os produtores acreditavam que o ato poderia chamar a atenção para o tema, mas o evento não passou de uma pequena nota nos jornais e alguns segundos na televisão.

Diante do prejuízo, começam a circular rumores de demissões. Grandes produtores estariam dispensando funcionários temporários. O tema gera pânico na cidade, pois o país amarga taxa recorde de mais de 20% de desemprego.

Em Villa del Prado, José Herrero, líder da associação de agricultores, sugeriu que o tenista espanhol Rafael Nadal comesse um pepino antes de erguer a taça de Roland Garros. Horas depois, no domingo, Nadal levou o título, mas o pepino não foi ao pódio.

Gaspacho. Um das principais atrações da gastronomia espanhola, o gaspacho também é vítima da crise. Conhecedores da receita, que leva tomate, pimentão, cebola, alho e pepino, muitos espanhóis têm ignorado a tradição de tomar a sopa fria para amenizar o calor nessas semanas que antecedem o verão. Para tentar convencer clientes de que não há problema, mais de cem bares e restaurantes de Sevilha ofereceram de graça o prato a clientes no domingo.

Nas lojas Corte Inglés, o maior varejista do país, começou a "semana da horta espanhola". Até domingo, quem comprar mais de 15 euros ganha uma bandeja de pepino grátis

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