Não houve tiroteio antes de menino morrer, diz delegado no RJ

'Não houve impacto na parte dianteira', explicou; 150 pessoas fizeram protesto em frente ao prédio da Justiça

Clarissa Thomé e Fabiana Cimieri, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2008 | 19h30

O delegado Walter de Oliveira, titular da 19.ª Delegacia Policial, na Tijuca, zona norte do Rio, está convicto de que não houve tiroteio entre os policiais militares envolvidos na morte do menino João Roberto e os criminosos que haviam roubado um Fiat Stilo. Ele recebeu nesta quinta-feira, 10, o laudo do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) sobre o Palio Weekend de Alessandra Amorim Soares, mãe do menino.   Veja também: Mãe de garoto morto por PM desabafa: 'eu não desculpo' Governo não pode deixar que a PM vire a 'Geni', diz Beltrame Adolescente recebe 2ª córnea de garoto morto no Rio   O veículo foi atingido por 17 disparos. Seis na traseira e 11 na lateral. Três fragmentos acertaram o pára-brisa, mas só um perfurou o vidro. "Os fragmentos vieram do interior para o exterior. Só um teve força para ultrapassar o pára-brisa", disse o delegado.   "Quando o tiro atravessa, deixa um formato cônico. E pela posição desse cone os peritos sabem que o fragmento saiu de dentro para fora", afirmou Oliveira. "Não houve impacto na parte dianteira. Está confirmado que não houve troca de tiros." Segundo o delegado, o laudo confirma o que as imagens feitas por câmeras de segurança de prédios próximos ao local do crime já mostravam. "O Fiat Stilo passa em alta velocidade. Três outros veículos seguem atrás dele e só então o carro das vítimas encosta. Não houve troca de tiros".   O delegado informou que enviará os fragmentos para exame de balística, mas acha pouca provável que os peritos consigam determinar o calibre da arma. Os projéteis estão muito fragmentados. "O indiciamento é por homicídio doloso (intencional). Os bandidos atiraram, mas não houve troca de tiros no momento em que o carro da vítima foi atingido", completou Oliveira.   O diretor de Polícia Técnica do Rio, Walter Barros, confirmou nesta quinta que as provas periciais não conseguiram determinar o calibre das armas que dispararam contra o carro, nem a que atingiu a cabeça de João Roberto. Os dois PMs que atiraram contra o carro da família da advogada estão presos temporariamente, mas Oliveira admite que poderá pedir a prisão preventiva de ambos.   O secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, esteve nesta manhã na delegacia. Segundo ele, era uma visita de rotina. Na saída, afirmou que não minimizará a tragédia que foi a morte de João Roberto. "Essa tragédia não será minimizada por bala de fuzil ou pistola. Porque foram 17 disparos no carro e isso não muda nada, é irrelevante. A conseqüência foi muito mais desastrosa do que saber se a munição é de AK (AK-47, fuzil que não é utilizado pela polícia) ou outro calibre", afirmou.   Beltrame disse não poder garantir que não haverá outros casos parecidos "mediante o universo de atuação da PM". No entanto, advertiu que, em sua opinião, "não se pode ter uma leitura da realidade do Rio baseada em fragmentos trágicos". Ele comparou a morte do menino João Roberto com a do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em 2005, em Londres: "A polícia londrina tem um alto nível de capacitação e treinamento, mas porque tiveram duas semanas de estresse deram seis tiros no rosto de um brasileiro que pulou a roleta", disse o secretário.   Protesto   Cerca de 150 pessoas participaram de manifestação no fim desta tarde em repúdio à morte do menino. Colegas da mãe de João Roberto, que trabalham no Tribunal de Justiça Federal, taxistas, profissão do pai dele, e parentes de vítimas da violência se reuniram em frente ao prédio da Justiça Federal, na Rua do Acre. Muitos traziam cartazes em que recusavam "pedidos de desculpa e frases feitas" do governo do Rio.

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