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O cabelo e a quarentena

Confesso, a função tem sido uma tarefa inglória, que morre, diariamente, em sua boa intenção

Gilberto Amêndola, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2020 | 03h00

Sou tão desorganizado que se, por alguma ironia do destino, eu tivesse anotado a cura da covid-19 em um papelzinho, ele já estaria perdido. 

– Desculpe, humanidade, certeza que eu tinha colocado em cima da geladeira... Vou dar mais uma procurada. Foi mal, turma!

Sou um bagunçado de raiz. Por isso, coloquei como meta de quarentena usar um pouco do tempo livre para organizar meus livros, CDs e jornais antigos. 

Confesso, a função tem sido uma tarefa inglória, que morre, diariamente, em sua boa intenção. Mas teve um lado bom: reencontrei História do Cabelo, livro do argentino Alan Pauls. Em linhas gerais, a obra narra a história de um homem obcecado por cabelo.

Claro, o reencontro me fez pensar sobre minha própria juba – e como ela tem se comportado durante essa quarentena. Primeiro, penso ser necessário, fazer uma breve retrospectiva capilar da minha própria existência.

Segundo mamãe, nasci cabeludo – e as fotos de recém-nascido confirmam a informação. Era um cabelo naturalmente ajeitadinho e confiável. Um menino com um cabelo daquele tinha tudo para ter um futuro brilhante. 

Mas não foi o que se sucedeu. O carma capilar se fez presente logo no primeiro corte. Fui premiado com o chamado corte estilo cuia. Sim, era como se tivessem contornado com a tesoura uma cuia enterrada na minha cabeça. No final dos anos 70 e comecinho dos 80, o politicamente incorreto permitia que esse mesmo corte fosse chamado de Juruna.

A adolescência foi uma fase horrorosa. O cabelo crescia desordenado, como se lutasse, como se Picasso criasse sua Guernica no meu cocuruto (que palavra deliciosa, vou escrever mais cocurutos na minha vida).

Eis que tive a ideia de deixá-lo crescer. Queria ser uma estrela do rock, mas apenas desenvolvi um mullet. Era uma espécie de Chitãozinho & Xororó ambulante.

Com o tempo, fui arrumando para que ele crescesse por igual. Cheguei a receber o apelido de janelinha – já que minha franja descia pela minha testa tal qual uma cortina. 

Quando fiquei cabeludo, passei a usar elástico para criar um rabo de cavalo ou, eventualmente, uma tiara. Calhou de ser na mesma época em que usei aparelhos nos dentes. Ou seja, o conjunto não formava, de fato, um todo harmônico. E ato de claro desespero, passei a máquina e fiquei carequinha.

Felizmente, chegou a maturidade e os primeiros fios de cabelo branco. Deixei minhas aventuras capilares de lado e me mantive fiel a um corte médio, não muito curto, cheio, mas ponderado, relativamente domável, confiável, um cabelo de adulto.

Mas aí, né, vocês já sabem... Chegou o coronavírus e não consigo mais me olhar no espelho. Meu cabelo, rebelado, foi à revanche e está dando o troco. 

Agora, ele cresce selvagem, apontando para todos os lados, livre como nunca. A quarentena é o auge na vida de um cabelo rebelde. 

Não demora, ele vai cobrir todo meu rosto. Estou a mais uma postergação do isolamento social de me tornar um Floquinho (Turma da Mônica), um Chewbacca (Star Wars) ou Tony Ramos. Estou quase um Caetano Veloso no período do exílio em Londres, na capa daquele discão de 1971 que tem London, London e uma versão de Asa Branca.

Em breve, serei um cabelo que arrasta um homem pela casa. Ele está no comando agora e temo pelos próximos passos de sua vingança. 

A coisa está tão feia que me peguei aos prantos assistindo a cena em que Scarlett Johansson corta o cabelo de Adam Driver em História de um Casamento.

Como deve ser bom ter um amor que corte o seu cabelo.

Nessa pandemia era tudo o que queria, um amor, uma tesoura e fios pelo chão do banheiro. Não reclamaria nem com um cortezinho acidental na orelha. Ame alguém que corte seu cabelo. Se for a Scarlett Johansson, melhor. 

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