Odebrecht diz que 80% das doações eram via caixa 2

Empreiteiro depôs nesta quarta ao TSE, na ação que investiga supostas irregularidades na chapa Dilma-Temer

Erich Decat e Beatriz Bulla, O Estado de S. Paulo

01 Março 2017 | 22h45


Brasília - Em depoimento à Justiça Eleitoral realizado nesta quarta-feira, 1, o executivo Marcelo Odebrecht, herdeiro e ex-presidente do grupo que leva seu sobrenome, afirmou que 4/5 das doações para a campanha presidencial de Dilma Rousseff tiveram como origem caixa 2, de acordo com relatos colhidos pelo Estado.

A audiência comandada pelo ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Herman Benjamin, ocorreu na sede do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), em Curitiba.

Segundo relatos, Marcelo afirmou no depoimento que a petista tinha dimensão da contribuição e dos pagamentos, também feitos por meio de caixa 2, ao então marqueteiro do PT João Santana. A maior parte dos recursos destinados ao marqueteiro, segundo o empreiteiro, era feita em espécie.

As negociações eram feitas diretamente entre Marcelo, Santana e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Na audiência, Marcelo cita um encontro que teria tido com Dilma no México, ocasião em que lembrou a ela que os pagamentos feitos a Santana estavam “contaminados”, uma vez que as offshores utilizadas por empresários do grupo serviam para pagamento de propina.


Marcelo teria dito que lembrou que o valor acertado para a campanha presidencial do PT de 2014 foi de R$ 150 milhões. E que deste total, R$ 50 milhões era uma contrapartida à votação da Medida Provisória do Refis, encaminhada ao Congresso em 2009, e que beneficiou a Braskem, empresa controlada pela Odebrecht e que atua na área de química e petroquímica.


Ao detalhar a distribuição de recursos, Marcelo teria afirmado ainda que R$ 10 milhões foram diretamente para Dilma, oficialmente. Outros R$ 5 milhões via PT. Também teriam ocorridos pagamentos de “dezena de milhões” para partidos aliados. Todos o recurso encaminhado à campanha de Dilma constava em uma conta-corrente de Marcelo, segundo ele.


No depoimento, Marcelo foi questionado sobre o início da relação com o governo do PT e ressaltou que as primeiras conversas ocorreram em 2008 quando ex-ministro Antônio Palocci o procurou para pedir doações para as eleições municipais daquele ano, especificamente para as que João Santana estava trabalhando.


O empresário afirmou ter dito a Palocci, na ocasião, que não lidava com campanha municipal, mas apenas com as presidenciais. Considerou, contudo, que podia ser acertado um valor para 2010 e que quando chegasse o período da campanha presidencial, a quantia entregue para a campanha municipal seria descontada. Quando Palocci deixou a Casa Civil, afirmou Odebrecht, Dilma teria definido que o novo interlocutor seria Guido Mantega, dessa forma estava encerrada a conta “italiano” e esta sendo aberta a “pós-italia”.


O ex-presidente da empreiteira foi ouvido pelo ministro Herman Benjamin, relator da ação que tramita no Tribunal Superior Eleitoral e investiga a chapa formada por Dilma e Michel Temer na campanha eleitoral de 2014. Ele foi preso em junho de 2015, no âmbito da Lava Jato, e pelo seu acordo de colaboração premiada deve permanecer na carceragem da Polícia Federal em Curitiba até o final deste ano.

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