Pacientes com HIV podem ter sido curados após transplante de medula

Saúde. Os dois homens tinham câncer e, além dos antirretrovirais, tomaram medicamentos quimioterápicos; os casos foram apresentados na Conferência Internacional sobre a Aids, em Washington, e levantam a discussão em torno da busca da cura da doença

FERNANDA BASSETTE, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2012 | 03h05

Dois homens parecem ter sido curados do HIV depois de serem submetidos a um transplante de medula óssea para tratamento de um câncer. Os casos foram apresentados na Conferência Internacional sobre a Aids, em Washington, e levantaram a discussão em torno da busca da cura da doença.

Os dois homens foram acompanhados pelo médico Daniel Kuritzkes, do Hospital de Mulheres de Brigham, em Boston. Um deles foi monitorado por quase dois anos após seu transplante, enquanto o outro foi testado durante três anos e meio. Segundo o estudo, não há mais rastro do vírus em nenhum dos casos.

Os dois pacientes tinham se submetido ao tratamento antirretroviral. A carga viral estava indetectável, mas o vírus ainda estava latente antes do transplante. Eles receberam uma forma mais leve de quimioterapia antes do transplante, e continuaram tomando seus remédios para HIV durante todo o processo.

O ineditismo desses casos é que os dois pacientes receberam células de doadores comuns, o que os torna diferentes do famoso caso do "paciente de Berlim" - o americano que se diz curado do HIV também depois de receber um transplante de medula. Ele recebeu as células de um doador raro que possuía uma resistência natural ao HIV (sem o receptor CCR5 que faz o vírus entrar na célula).

Os médicos detectaram o HIV imediatamente após o transplante nos dois pacientes, mas, com o tempo, as células transplantadas dos doadores substituíram os linfócitos dos pacientes e a quantidade de HIV no DNA diminuiu até ficar indetectável.

Apesar do conquistado, o autor do estudo não fala em cura da aids. Os pacientes continuaram tomando os antirretrovirais, que serão retirados aos poucos.

Cautela. Ésper Kallas, coordenador do Departamento de Retroviroses da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor da USP, diz que essa discussão tem "importância incalculável", mas que muitas perguntas precisam ser respondidas.

Ele ressalta que até hoje os pacientes com HIV que fizeram transplantes de medula tinham também câncer. "Ninguém fez o transplante em um paciente com HIV e sem câncer porque ninguém quer assumir esse risco", diz o professor.

Kallas diz que os pesquisadores precisam responder por que o transplante deu certo: será que foi a quimioterapia que desligou o sistema imune? Será que foi o quimioterápico? Ou as células dos doadores? "A partir do momento em que o mecanismo é identificado, você evita procedimentos desnecessários", avalia.

Outra ponderação de Kallas é que o paciente com HIV pode achar que vai fazer o transplante e se ver livre dos remédios. "O transplantado também toma muitos remédios e faz acompanhamento constante. Me pergunto se não é trocar seis por meia dúzia."

O hematologista Vanderson Rocha, do Sírio-Libanês, também vê os resultados com cautela. Segundo ele, entre 1983 e 2010, ao menos 60 pacientes com HIV e câncer foram transplantados - muitos morreram na época que não existia terapia com antirretrovirais.

"Hoje em dia, com os antirretrovirais, os pacientes vão para o transplante com a carga viral muito baixa, o que torna os resultados muito bons e muito próximos aos dos outros pacientes", diz Rocha, que afirma que ainda é muito cedo para falar em cura.

"O transplante mata o reservatório de células de HIV no sangue e substitui por células saudáveis do doador, mas ainda não sabemos se o HIV tem reservatórios em outras regiões do corpo, como em células do cérebro, por exemplo. A doença pode voltar."

Outro fator que limita falar em cura, diz Rocha, é que os transplantados continuam tomando os antirretrovirais. "Como atribuir a cura ao transplante se os pacientes ainda tomam os antirretrovirais? O transplante tem risco, tem efeitos colaterais. Ainda é preciso ter cautela."

A pesquisadora Valdilea Veloso, do Instituto de Pesquisas Clínicas Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz, diz que esse é o caminho para a busca da cura. "É muito experimental, mas são os primeiros passos. A tendência é estudar combinações imunológicas com antirretrovirais." /COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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