Países discutem comércio de espécies ameaçadas

Governos se reúnem para debater a relação entre comércio e preservação

Agencia Estado

12 de junho de 2007 | 05h22

O comércio de plantas, animais e árvores promete causar atritos diplomáticos nos próximos dias entre países. 171 governos estão reunidos desde domingo, 3, na Holanda para debater o futuro do comércio de espécies ameaçadas diante das preocupações com a preservação do meio ambiente e da fauna. Mas as propostas terão impactos econômicos. A União Européia (UE), por exemplo, quer dificultar o comércio de algumas espécies de madeira brasileira, como o cedro. O Brasil, por sua vez, quer restrições ao comércio de lagosta e a liberação do comércio do jacaré, hoje interditado. Há ainda propostas para limitar o comércio de corais para a fabricação de jóias e para banir o comércio de marfim, decisões que deverão criar fortes polêmicas. A reunião ocorre no marco da Convenção de Comércio Internacional sobre Espécies Ameaçadas, conhecida por sua sigla (CITES). Cerca de 40 propostas estão sendo debatidas para tratar do comércio de animais e plantas diante da aceleração da destruição do meio ambiente. Entre os governos, ninguém nega que o comércio dessas espécies é hoje um negócio lucrativo. Cerca de 350 milhões de espécies de plantas e animais são comercializados por ano e apenas a Europa importaria US$93 bilhões em 2005, segundo a entidade WWF. Mas sem um controle, os especialistas alertam que muitas dessas espécies podem simplesmente desaparecer nos próximos anos. "A diversidades biológica sofre muitas ameaças. Ao garantir que o comércio de vida selvagem é cuidadosamente administrada, podemos contribuir para a manutenção dessa diversidade", afirmou Achim Steiner, diretor do Programa da ONU para o Meio Ambiente. O problema é que os países não se entendem sobre o que deve e o que não deve ser limitado. Os europeus insistem que incluir novas madeiras entre itens protegidos. A FAO aponta que mundo perdeu 0,8% de suas florestas por ano entre 1980 e 1990. Entre 1990 e 2000, a perda anual de cobertura florestal passou em alguns casos a marca de 1%. No caso das madeiras brasileiras, o mogno já foi incluído na lista de bens protegidos há poucos anos. A Alemanha quer agora a inclusão de outras três espécies de madeira da América Latina que são usadas inclusive para a fabricação de instrumentos musicais. No caso do Brasil, o principal impacto será a restrição sobre o cedro, reconhecida no mercado como uma madeira preciosa e usada por sua resistência. Os europeus não querem o fim do comércio do cedro, mas incluí-lo em uma lista de produtos que são rigorosamente controlados, como crocodilos, papagaios e orquídias raras. Os alemães, autores da proposta, alegam que depois de 250 anos de exploração a madeira precisa ser melhor protegida. O Brasil também quer certas mudanças na lista de animais e plantas protegidas. O governo sugere que certos tipos de lagosta sejam incluídas na lista de produtos que precisarão ter maior controle para ser comercializados. O argumento do País é que, "depois de 50 anos de intensa exploração comercial, essas espécies sofrem com a pesca para a exportação aos mercados internacionais. O Brasil, porém, quer que a população de jacarés saia da lista de bens proibidos de ter qualquer comércio para uma lista na qual o comércio deva ser regulamentado, mas permitido. O jacaré-açú, conhecido ainda como jacaré negro, é considerado como um animal ameaçado. Mas sua cor escura garante alto valor ao couro e sua carne é considerada como nobre. O Brasil, portanto, quer voltar a comercializar o produto, mas para isso precisa tirar o animal da lista mais restrita. A pesca é, de fato, um ponto importante da conferência. A ONU afirma que o mundo retira dos mares, rios e lagos cerca de 93 milhões de toneladas de peixe por ano com um valor estimado em US$ 78 bilhões. O resultado é uma situação cada vez mais crítica nos estoques pelo mundo. Não por acaso, uma série de propostas estão sendo feitas para limitar o comércio, inclusive para a proteção de peixes que acabam em aquários de mansões. Já os Estados Unidos sugerem a restrição ao comércio de do coral rosa, o mais valiosos e usado para jóias. Segundo Washington, essa exploração já ocorra há 5 mil anos e precisa ser controlada. Marfim Para completar, a reunião terá de tratar com a polêmica proposta de revisão da restrição do comércio de marfim da África, medida em vigor desde 1989. Os países africanos não se entendem sobre o que deve ser feito e nem os ativistas conseguem chegar a uma posição comum. Enquanto isso, o governo do Japão conseguiu a liberação para a importação de 60 toneladas de marfim, o que permitirá que os estoques em alguns países africanos sejam comercializados.Apesar da restrição total existente, toneladas de marfim são apreendidas todos os anos pelo mundo. Segundo alguns países africanos, 19 mil elefantes foram mortos nos últimos anos para permitir que o comércio ilegal continue. Outro debate será sobre até que ponto a renda das pessoas que trabalham com essas espécies deve ser considerada ao impor uma restrição no comércio de animais e plantas. Entidades como a WWF defendem a criação de programas para ajudar as comunidades que vivem desse comércio.

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