Preço emperra acerto entre Caixa e Panamericano

Risco de crédito e contingências trabalhistas e cíveis do banco do Grupo Silvio Santos dificultam avaliação

Ana Paula Ribeiro, O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2009 | 00h00

A negociação da Caixa Econômica Federal para a compra de parte do banco Panamericano (que pertence ao Grupo Silvio Santos) ainda não foi concluída por falta de um acordo quanto ao preço. O risco de crédito e contingências cíveis e trabalhistas dificultam essa definição, segundo fonte próxima aos assessores da operação.

"Esses contenciosos podem atrapalhar porque o comprador tende a elevar as estimativas de perdas dos processos judiciais para reduzir o preço a ser pago", explicou a fonte. Procuradas pela reportagem, as duas instituições não se manifestaram sobre o assunto.

Um profissional próximo à Caixa, que falou sob a condição de não ter seu nome revelado, confirmou que essa é a maior preocupação no momento e, por essa razão, dificilmente o negócio será anunciado nesta semana. "Ainda estamos avaliando todas as questões de passivos cíveis e, principalmente, trabalhistas."

O mais provável é que o anúncio da compra de pouco menos de 50% do Panamericano ocorra na próxima semana. A negociação de preço tem como ponto de partida uma faixa entre 1,6 vez e 1,8 vez o valor patrimonial do Panamericano, de R$ 1,553 bilhão no fim de setembro, segundo disse a fonte próxima aos assessores da operação.

Esse valor ainda sofrerá um ajuste levando em conta as provisões para créditos duvidosos (PDD), que em setembro eram de R$ 588,5 milhões, e o contencioso judicial, que no último balanço do banco estava avaliado em R$ 4,5 milhões. Esse é o ponto de discordância.

Se for mesmo efetivada, a compra será feita por meio da recém-criada CaixaPar. O objetivo dessa nova empresa é comprar negócios que permitam ao banco público crescer em nichos pouco explorados pela instituição. Para o analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu, faz sentido. "É um ótimo negócio para a Caixa, que deixaria de ser um banco monoproduto", afirmou, referindo-se ao crédito imobiliário.

O Panamericano atende esse perfil, já que seu foco de atuação é o financiamento de veículos e de consumo por meio de parcerias com redes varejistas. Na avaliação de Santacreu, por atuar principalmente nas classes C, D e E, o Panamericano também tem muito a ganhar com uma eventual parceria com a Caixa. "O banco vai poder vender seus produtos na rede da Caixa, que inclui as casas lotéricas", observou.

No mercado, analistas acreditam que a venda de uma parcela do Panamericano se encaixaria nos interesses do Grupo Silvio Santos, que busca levantar recursos para ampliar outras áreas de negócios, como a expansão das lojas de varejo.

Por causa dos rumores sobre a venda de participação para a Caixa, as ações preferenciais do Panamericano acumulam em novembro alta de 42% (o Ibovespa, no período, tem valorização de 10,35%). Ontem, os papéis do banco subiram 1,09%.

Segundo a empresa de informações financeiras Economática, a média diária de negócios em novembro é de 684,8 operações, acima dos 303,8 de setembro e 409 de outubro.

Assim como a maioria dos bancos de pequeno e médio porte, o Panamericano sofreu com a crise de liquidez que se seguiu à quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Segundo uma fonte de mercado, no auge dos problemas, a instituição chegou a atrasar o pagamento de CDBs a clientes.

Em janeiro, o banco demitiu 10% dos quase 3.800 funcionários, em plano de reestruturação. Hoje, a situação, segundo analistas, é normal. No terceiro trimestre, lucrou R$ 47,6 milhões.

COLABORARAM FERNANDO NAKAGAWA E LEANDRO MODÉ

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