Rage: Energia e Raiva

Grade de proteção e cabo de som se rompem. Mas grupo segura o rojão

Jotabê Medeiros,

11 Outubro 2010 | 04h29

Havia uma excitação incomum antes de o show começar. "Rage, Rage, Rage", gritava o público, que se espremia nas grades, um uníssono que lembrava aqueles comícios da revolução russa. Mal o Mars Volta saiu do palco, eles já chegavam ao Palco Terra, fazendo mosh, jogando-se no ar e uns contra os outros. Muitos passavam mal antes mesmo do espetáculo começar, e eram levados pelos bombeiros. O grupo mostrou, já na primeira música, Testify, que é um dos maiores atos do rock da atualidade: a guitarra de Tom Morello impulsiona um espetáculo de energia extraordinário.

Mas a plateia também esbanja energia, pulando freneticamente do começo ao fim do show. Após a quarta música da noite inaugural do Rage Against the Machine no Brasil, a grade de proteção da Pista Premium cedeu, e os fãs se jogaram no fosso entre o palco e a audiência. A segurança corria feito barata tonta, e a situação ficou difícil. O vocalista Zach de La Rocha teve de intervir: "Eu não falo muito bem o português, mas vou pedir algo a vocês", disse, pedindo que os ânimos serenassem. "Basta um pequeno passo para trás". Mas não adiantou. "Quando nós tivermos certeza de que vocês estão seguros, nós recomeçaremos o show", disse. "Esperamos um longo tempo para vir tocar no Brasil".

Em seguida, no meio da música Township Rebellion, o som sumiu. A banda continuou tocando, para a coisa não ficar mais feia ainda - o retorno, para eles, não dava pistas de que o som falhara, mas devem ter notado que o mosh estancou na plateia. Não deu um minuto e o público começou a vaiar. Alguns atiravam coisas nas pessoas que estavam na área Premium. "Hey, SWU, vai tomar no c..", gritava a ensandecida plateia. O organizador do festival, Eduardo Fischer, assistia aos shows no palco, ao lado das caixas de som, com um grupo de amigos, e pareceu ter ficado estarrecido com os deslizes. Mas o grupo não teve um acesso de estrelismo e segurou a onda com elegância, esperando tudo se normalizar e causando um abalo sísmico no interior de São Paulo. Nunca mais as vaquinhas da região vão se esquecer dessa noite.

O problema técnico que causou o "apagão" no som do Rage Against the Machine, segundo a reportagem do Estado apurou, foi causado pelo rompimento de um cabo de alimentação do som do grupo - um cabo no-brake do p.a. (public address), responsável por manter o equilíbrio da amplificação do som. Os cabos foram instalados pelo próprio grupo, que não previu um incidente do tipo.

O incidente foi confirmado por Milkon ‘Mac’ Chriesler, um dos organizadores do festival ao lado do publicitário Eduardo Fischer. Ele disse que a organização não pode fazer nada no momento, porque era um equipamento da própria banda. "O bom é que tudo acabou bem, o público terminou feliz e satisfeito com o show que o Rage apresentou. Eu estive com o Zach (de la Rocha, cantor) depois do concerto e ele me disse que tinha sido um dos melhores shows da vida dele, e que a reação do público foi extraordinária", comentou. Segundo Mac, o comportamento mais duro e agressivo da plateia também é compreensível. "Eu disse ao Zach que o som deles também desperta emoções mais vigorosas, mas é isso mesmo, é parte da ação deles", considerou.

Houve um momento no show em que Zach de La Rocha fez elogios ao Movimento dos Sem Terra brasileiro, coincidentemente suprimidos da transmissão que o canal Multishow fazia. O vocalista Zach vestiu o boné do MST durante a execução da música Wake Up e dedicou People of the Sun ao movimento. No Twitter, houve quem acusasse o Multishow de censura, de segregação política, mas essa informação não pode ser confirmada.

Ao final, depois do bis matador com Freedom e Killing in the Name, e ao som da Internacional Comunista, o Rage Against se despediu de um show que, finalmente, sacudiu o marasmo dos megashows de entretenimento no Brasil. Eles podem ser acusados de tudo, menos de divertimento anódino.

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