Rio+15 começa sem grandes autoridades, mas com polêmica

Representante do governo discorda de organizador quanto à utilidade dos créditos de carbono

Felipe Werneck, Agência Estado

19 de setembro de 2007 | 19h33

Sem a presença de autoridades de destaque da área de meio ambiente, areunião da Iniciativa Rio+15, realizada para analisar as mudançasclimáticas nos 15 anos que se passaram desde a conferência ECO-92, ou Rio-92, foiaberta nesta quarta-feira no Hotel Copacabana Palace com uma polêmica.    Entenda o que foi a Rio-92   Pedro Moura Costa, presidente da EcoSecurities, empresa privada que organizou oencontro, defendeu que a Amazônia seja "protegida" por meio doMecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que utiliza créditos decarbono, comercializados pela própria companhia. A proposta, porém, é rejeitada pelo governo brasileiro, cujo  representante na reunião, o secretário-executivo da comissão interministerial de MudançasClimáticas, José Domingos Miguez, a criticou duramente.   A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, cuja presença fora anunciada, não foi.   "Se o desmatamento evitado tivesse sido incluído no MDL, e espero queseja, teria capacidade de mobilizar capital privado (de paísesindustrializados) para proteger um bem público que é a Amazônia. Nãoqueremos vender a Amazônia, transferir a posse para outros países, issoé balela", declarou Moura Costa.   Segundo ele, não é necessário "abdicardo controle (da floresta), mas simplesmente utilizar capitais privadosinternacionais para ajudar no controle de um bem ambiental tãoimportante para o Brasil e para o mundo".   Miguez - único representante de governo no encontro, ligado aoMinistério da Ciência e Tecnologia - manifestou a oposição oficial àproposta.   "Não estamos preocupados com a questão de soberania, eu não discutoisso. A gente está preocupado com os objetivos da Convenção (de Clima):estabilizar a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera",comentou.   "Esse tipo de projeto, no âmbito do MDL, é o contrário,aumenta a concentração na atmosfera. Porque você mantém o estoque aquino Brasil e autoriza a emissão (fora), então aumenta a concentração.Por isso a gente é contra. Temos que manter os estoques, mas achamosque (o MDL, neste caso) não é um mecanismo que ajude a combater amudança do clima."    Para Miguez, sob o ponto de vista econômico, os defensores daproposta querem gerar renda para uma área que está "imobilizada" (afloresta intacta). Mas, do ponto de vista do governo, disse, sob oaspecto do efeito estufa, dar renda para uma pessoa manter uma florestaseria como pagar a alguém para cumprir a lei, já que é ilegaldesmatar.   A EcoSecurities atua na geração, no desenvolvimento e nacomercialização de créditos de carbono a partir de projetos de reduçãodas emissões de gases do efeito estufa. Criado pelo Protocolo de Kyoto,o MDL permite que nações industrializadas poluentes comprem os créditosde carbono para cumprir metas de corte de emissão. Assim, os países ricos, enquanto emitem carbono em seus territórios,  investem em projetos ambientais em países emdesenvolvimento, com o objetivo de reduzir as emissões globais. Marina não foi à reunião, nem mandou representante. Os governosmunicipal e estadual também não enviaram secretários de Meio Ambiente.   A grande participação na reunião, que termina nesta quinta-feira, ocorreu adistância, por meio de videoconferência. O canadense Maurice Strong,mentor e secretário-geral da ECO-92, defendeu a necessidade de maior cooperação entre os países. Para ele, a discussão sobre restrição do crescimento de países em desenvolvimento é "hipócrita".   "Desde a ECO-92 sabemos como resolver o problema", disse. "Éhipocrisia países que criaram o problema sugerirem que agora o fardorecaia sobre China e Índia, por exemplo", afirmou Stong, que atualmentevive na China, onde atua como consultor oficial, referindo-se aosEstados Unidos. "Em vez de ficar dizendo aos brasileiros o que fazer,devemos nos unir para garantir a preservação da Amazônia."   Strong desligou-se da ONU em 2005, sob suspeita de envolvimento com oescândalo de corrupção Petróleo por Alimentos, em que pessoas ligadas àorganização, entre elas o filho do então secretário-geral, Kofi Annan,foram acusadas de aceitar propina e favorecer empresas num programahumanitário.

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