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São Paulo mapeia raios ascendentes na Av. Paulista

Objetivo é descobrir detalhes da formação dos raios que sobem até as nuvens em vez de descer até o chão; eventos desse tipo são raros

RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2013 | 02h06

 Uma câmera no topo de um prédio no Sumarezinho, na zona oeste de São Paulo, está ligada 24 horas por dia desde meados de dezembro. Ao contrário da maioria das suas similares em bairros nobres de São Paulo, ela não busca identificar possíveis criminosos ou anotar placas de carro que estão furando o rodízio de veículos. Voltada para um espigão que fica a sudeste dali, seu objetivo é um pouco mais inusitado que isso - registrar raios que sobem das torres de rádio e celular que ficam na Avenida Paulista.

Sim, é isso mesmo: há raios que sobem até as nuvens em vez de descer. Chamados de raios ascendentes, eles são raros, e apenas uns poucos países como Estados Unidos, Canadá, Japão e Áustria já registraram em filme esse fenômeno atmosférico. O Brasil entrou nesse seleto grupo no verão passado, quando pesquisadores do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) capturou pela primeira vez imagens de raios ascendentes no Pico do Jaraguá, zona norte de São Paulo - outras 40 foram registradas ao longo do ano passado. O desafio agora era identificá-los em uma área extremamente urbanizada da cidade.

O objetivo foi concretizado no dia 29 de dezembro de 2012, quando raios desse tipo iniciaram-se a partir de quatro torres situadas na região da Paulista e foram filmados pela câmera do Inpe. Uma das torres, que fica iluminada à noite e tem 220 metros de altura, foi identificada pelos pesquisadores como a da TV Bandeirantes. A equipe ainda investiga para saber quais são as outras torres que originaram os outros raios ascendentes.

Mas porque um raio resolve subir de uma torre para as nuvens, em vez de fazer o contrário? "Sabemos que para um raio ascendente iniciar, é necessário um campo elétrico intenso na ponta de uma estrutura alta. Este campo é gerado por uma tempestade acima. No entanto isto não basta. Algo mais tem de acontecer para que o raio aconteça, mas não sabemos ainda com certeza como esse processo funciona", afirma Marcelo Saba, pesquisador do Elat.

 

Saba garante que uma das diferenças desses raios em relação aos que descem é que eles precisam de estruturas altas para surgirem. "Já os raios descendentes sempre acontecem, com ou sem estruturas altas no solo", diz.

A pesquisa tem objetivos práticos. O principal é descobrir os detalhes da formação dos raios ascendentes para, depois, formular mecanismos de proteção contra esse tipo de raio, que atualmente é excluído das normas de proteção. Estudos já feitos no Japão comprovaram que os raios ascendentes podem trazer grandes prejuízos quando atingem turbinas de geração eólica, um tipo de energia que está sendo cada vez mais usado no Brasil e no mundo. "Como ocorrem a partir de estruturas feitas pelo homem, é importante entender qual o impacto desta ação antropogênica no aumento da incidência deste tipo de raio", diz Saba.

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