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Saúde e preconceito

Estudo divulgado na semana passada mostra que, nos países europeus em que a homofobia está mais presente, homens e mulheres gays e bissexuais usam de forma mais precária os serviços de saúde e de prevenção à aids, fazem menos testes de detecção do HIV e falam pouco sobre sexualidade com médicos e profissionais da área.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2015 | 03h00

O preconceito e a discriminação funcionam como barreiras importantes para a disseminação da ideia e da prática de uma vida sexual mais saudável e segura. O trabalho foi realizado pela Escola de Saúde Pública de Yale, nos Estados Unidos, e publicado na revista especializada Aids.

Os pesquisadores usaram um levantamento feito pela internet com quase 175 mil homens, em 35 países europeus, que trazia informações sobre comportamento e uso dos serviços de saúde. Os resultados foram cruzados com dados como políticas, leis e atitudes da população em relação à homossexualidade. Quanto maior a homofobia no país, menor era o nível de informação sobre HIV e menos consistente o uso de preservativo. Segundo os especialistas, a chegada dos aplicativos de encontro nos celulares tem aumentado de forma mais aguda o sexo de risco justamente nos locais em que há maior discriminação. 

O resultado chega em um momento importante em relação à divulgação de novos dados brasileiros sobre comportamento e sexualidade. Na semana passada, uma pesquisa da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo mostrou um aumento da ordem de 600% no número de casos de sífilis no intervalo de 2007 a 2013. A faixa dos homens de 40 a 49 anos é uma das mais afetadas. Dentro do grupo de homens que fazem sexo com outros homens, o número pode ser ainda mais importante.

Apesar de muito mais flexível em questões de orientação sexual, o Brasil ainda enfrenta manifestações importantes de preconceito e violência em relação aos gays e bissexuais. Se o mesmo que acontece na Europa vale por aqui, o que é muito provável, a homofobia pode estar deixando parte da população mais longe do acesso aos serviços de prevenção e de saúde sexual. 

A questão do gênero. Para combater o preconceito, além de leis mais rígidas – tanto no combate à homofobia como na garantia de direitos –, seria importante que a discussão de orientação sexual, sexualidade e gênero fosse institucionalizada nas escolas. 

Não faz mal à sociedade nem à família, e muito menos aos jovens, que se quebrem tabus e preconceitos e que se garanta justiça e igualdade a todos. Aliás, ao contrário, só faz bem! Ninguém vira “gay” porque se discute gênero na sala de aula. Meninos e meninas não vão confundir seus papéis sociais porque se trata do assunto na escola. Mas a vida de quem sofre discriminação e bullying pode melhorar muito! Além disso, discutir gênero vai muito além da orientação sexual. Um País que ainda registra recordes de violência contra as mulheres não pode fugir da questão. 

Na contramão de toda a lógica, a Câmara Municipal de São Paulo, na semana passada, discutindo o novo Plano Municipal de Educação (PME), pressionada por setores mais conservadores, resolveu retirar do projeto todas as menções que havia sobre gênero.

O texto original trazia propostas pedagógicas com conteúdos sobre sexualidade, diversidade, relações de gênero e identidade de gênero. Ele também previa formas de evitar evasão escolar por essas questões e recomendava registro e encaminhamento de denúncias de violência e discriminação motivadas por gênero e identidade. Na versão aprovada, a palavra gênero desapareceu. O PME está perdendo uma oportunidade de recomendar uma orientação que poderia auxiliar as escolas nessa importante discussão, e os mais jovens serão os mais penalizados. Vai ficar assim?

É PSIQUIATRA

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