Sequestradores da Argélia fazem nova ameaça

Cerca de 60 estrangeiros continuavam desaparecidos na Argélia e os militantes ligados à Al Qaeda responsáveis por sua captura ameaçaram realizar mais ataques a instalações do setor de energia, depois que forças argelinas invadiram um complexo de gás no Saara e libertaram centenas de trabalhadores, numa ação que também causou a morte de dezenas de reféns.

LAMINE CHIKHI, Reuters

18 de janeiro de 2013 | 12h44

Enquanto líderes ocidentais clamam por detalhes da ação argelina de quinta-feira, sobre a qual dizem não ter sido consultados, uma fonte local disse que a planta de gás continua sitiada por militares, com alguns reféns no interior.

Trinta deles, incluindo alguns ocidentais, foram mortos durante o ataque de quinta-feira, junto com pelo menos 11 sequestradores, que disseram ter invadido o local numa retaliação pela intervenção militar francesa contra militantes islâmicos do vizinho Mali.

A crise representa uma séria escalada no conflito no noroeste da África, para onde tropas francesas foram enviadas na semana passada para combater a tomada da Timbuktu e outras cidades do Mali por grupos islamistas. Além disso, pode ser devastadora para a indústria petrolífera da Argélia, num momento em que se recupera de uma guerra civil nos anos 1990.

Uma fonte argelina disse à Reuters que cerca de 60 estrangeiros são mantidos reféns ou estão desaparecidos no complexo de gás invadido pelos militantes islâmicos. Não ficou claro quantos estariam sob domínio dos militantes ou escondidos dentro do complexo. Também não se sabe quantos podem estar mortos.

O primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, afirmou que o governo argelino lhe disse que a operação no complexo de extração de gás ainda prosseguia no meio da manhã desta sexta-feira. "A morte de vários reféns é terrível", declarou Ayrault a jornalistas.

Na manhã de sexta-feira, ainda havia dez trabalhadores japoneses e oito noruegueses desaparecidos, segundo suas respectivas empresas. Um engenheiro irlandês que sobreviveu à ação disse ter visto quatro jipes cheios de reféns serem explodidos pelos militares.

Comandantes argelinos afirmaram que decidiram agir, após cerca de 30 horas de cerco, porque os militantes exigiam levar os reféns para o exterior.

Alguns trabalhadores britânicos também pareciam estar desaparecidas, embora o primeiro-ministro David Cameron tenha afirmado que menos de 30 britânicos estavam em situação de risco enquanto a operação prosseguia.

O governo dos EUA informou apenas que alguns norte-americanos estavam entre os reféns, mas não deu detalhes, e uma fonte local disse que um avião do país aterrissou nas imediações do complexo nesta sexta-feira para remover norte-americanos.

Reforçando a tese de líderes africanos e ocidentais que veem uma insurgência islâmica multinacional no Saara, uma fonte oficial da Argélia disse que apenas 2 dos 11 militantes mortos eram argelinos, inclusive o líder do esquadrão.

Foram encontrados os corpos de três egípcios, dois tunisianos, dois líbios, um malinês e um francês -- todos apontados como sequestradores, segundo a fonte.

O grupo dizia ter dezenas de guerrilheiros no local, e não ficou claro se algum deles conseguiu escapar.

O complexo era fortemente protegido, com acesso controlado e um acampamento militar com centenas de homens armados entre a usina de processamento e as acomodações, afirmou Andy Coward Honeywell, que trabalhou lá em 2009, falando à BBC.

O secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta, disse que militantes que atacaram os Estados Unidos e seus cidadãos seriam perseguidos até serem capturados: "Os terroristas devem ser avisados de que não encontrarão santuário, nenhum refúgio, não na Argélia, não no Norte da África, não em qualquer lugar", disse ele em Londres. "Aqueles que irresponsavelmente atacarem o nosso país e nosso povo não terão nenhum lugar para se esconder."

AMEAÇA

A crise representa um sério dilema para a França, ex-potência colonial na Argélia, e seus aliados, num momento em que tropas francesas atacam os aliados dos sequestradores no Mali, uma outra ex-colônia francesa.

Os militantes que lutam no deserto mostraram estar mais bem treinados e equipados do que a França previa, disseram à Reuters diplomatas na ONU. A organização estima que 400 mil pessoas poderiam fugir do Mali para os países vizinhos nos próximos meses.

Na Argélia, os sequestradores alertaram a população para que fique longe de instalações de empresas estrangeiras no setor de óleo e gás, ameaçando desfechar mais ataques, segundo informou a agência de notícias ANI, da Mauritânia, citando um porta-voz do grupo.

O comandante do sequestro na Argélia é Mokhtar Belmokhtar, um veterano da Guerra do Afeganistão na década de 1980 e da sangrenta guerra civil da Argélia dos anos 1990, segundo autoridades argelinas. Aparentemente ele não esteve presente no ataque. Balmokhtar subiu de status entre os grupos islamistas no Saara, os quais se apoderaram de armas e ganharam novos adeptos em decorrência do caos na Líbia. As potências ocidentais temem que a violência se espalhe muito além do deserto.

O argelino Anis Rahmani, um especialista em segurança autor de vários livros sobre o terrorismo e editor do diário Ennahar, disse à Reuters que cerca de 70 militantes estavam envolvidos na operação na Argélia, o grupo de Belmokhtar, que partiu da Líbia, e o menos conhecido Movimento da Juventude Islâmica no Sul.

"Eles estavam portando armas pesadas, incluindo fuzis usados ??pelo Exército líbio durante o regime de (Muammar) Gaddafi", disse ele. "Eles também tinham lança-granadas e metralhadoras."

Trabalhadores argelinos formam a espinha dorsal de uma indústria de petróleo e gás, que tem atraído empresas internacionais nos últimos anos, em parte por causa da segurança no estilo militar.

(Reportagem adicional de Ali Abdelatti, no Cairo; Eamonn Mallie, em Belfast; Gwladys Fouche, em Oslo; Mohammed Abbas, em Londres; e Padraic Halpin e Conor Humprhies, em Dublin)

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