Violência contra mineiros atinge poder político sul-africano

A sangrenta repressão de protesto de mineiros sul-africanos, que contou com tiros da força policial e deixou 34 mortos nesta semana, pode também ferir o governista Congresso Nacional Africano (CNA) e seu principal aliado trabalhista, aumentando a insatisfação dos trabalhadores sobre as persistentes desigualdades na maior economia africana.

Reuters

18 de agosto de 2012 | 13h11

O tiroteio de quinta-feira, que traz de volta memórias da época da violência do apartheid, destacou que, após 18 anos no poder, o governo do CNA com seus parceiros nos sindicatos não foi capaz de fechar as fissuras causadas pela desigualdade salarial, pobreza e desemprego que persistem no país.

O incidente mais mortífero de segurança desde o fim do apartheid expôs o profundo descontentamento dentre as bases da União Nacional dos Mineiros (UNM), maior sindicato do país, que tem sido um "campo de treinamento" da liderança do CNA e um firme apoiador do presidente Jacob Zuma.

"O UNM é totalmente voltado para a política. Eles se esqueceram dos homens dentro das minas", disse Lazarus Letsoele, um dos mineiros em greve na mina de Lonmin Marikana, cerca de 100 quilômetros a noroeste de Johanesburgo.

Ele escapou na quinta-feira quando a polícia abriu fogo contra os grevistas no que foi chamado de "massacre de Marikana", que gerou uma investigação do governo, e uma onda de questionamentos internos na África do Sul pós-apartheid.

Apesar dos bilhões de dólares de investimento do CNA em redução de pobreza e aprovação de leis simpáticas aos sindicatos para proteger trabalhadores que no passado eram explorados pelo regime de minoria branca, a distância entre ricos e não-ricos e ainda uma das maiores do mundo.

O Produto Interno Bruto per capita é de mais de 8 mil dólares por ano, mas quase 40 por cento da população vive com menos de 3 dólares por dias.

"Queremos mais dinheiro e queremos alguém que possa conseguir isso para nós", disse um mineiro que pediu para ser chamado apenas por seu primeiro nome Paulo e que vive em uma favela diante do campo em que os trabalhadores foram mortos a tiros.

A platina produzida pelos trabalhadores da mina de Lonmin é vendida por cerca de 1.440 dólares a onça, mas um trabalhador que extrai toneladas de rochas do subsolo recebe menos que 500 dólares por mês.

"Esta greve é contra o Estado e os ricos, não apenas uma questão sindical", disse Justice Malala, analista político do jornal britânico Guardian

(Por Jon Herskovitz)

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