'VOU ESTUDAR A MEDICINA DA ALMA, MÃE'

Irmã lembra como Bergoglio avisou que seria padre

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL, BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h03

Uma noite, sentado à mesa da cozinha, Jorge Bergoglio confidenciou à mãe que queria ser médico. Ela então reservou-lhe o pequeno quarto dos fundos, separado da casa onde viviam por um jardim, onde poderia estudar em paz, longe do alarido constante de uma típica família italiana e da desordem dos três irmãos e uma irmã mais novos. Ali, o jovem Bergoglio passou a isolar-se do mundo.

"Um dia, a mamãe entrou no quarto e só havia livros de teologia e latim", contou ao Estado a irmã do agora papa, Maria Elena Bergoglio, em sua casa, em Ituzaingó, na região metropolitana de Buenos Aires. "Mamãe então perguntou a ele: 'Mas, meu filho, você não ia estudar medicina?' E dele ouviu: 'Sim, mãe, vou estudar medicina, mas a medicina da alma.'"

Bergoglio tinha 17 anos e acabara de terminar o ensino médio. A notícia de que entraria para o seminário de padres alegrou o pai, um imigrante italiano religioso, que reunia os filhos no casebre da Rua Membrillar para uma oração antes das refeições e nas tardes, quando ele chegava do trabalho, como contador. "Papai ficou muito feliz quando soube que Jorge seria padre, o mais feliz do mundo!" A família participava ativamente das atividades da igreja no bairro de Flores, onde o papa nasceu e viveu até a juventude. Um irmão mais novo de Bergoglio, já falecido, também ingressou no seminário, mas logo saiu.

A mãe não queria ver um filho sacerdote. "Ela sabia que o perderia. É preciso desapego para entregar um filho à Igreja. E ela era uma mãe italiana, queria todos por perto."

No conclave anterior, quando Bergoglio ficou em segundo lugar, Maria Elena rezava a Deus assim: "Seja feita a sua vontade. Mas que Jorge não seja papa!", ela conta, entre risos. "É muita responsabilidade e eu temia por ele. Mas a idade nos acalma, então, que seja feita a Sua vontade."

Conclave. Um dia antes de viajar a Roma para o conclave, o irmão lhe telefonou. "Ele pediu que eu rezasse por ele, para que o Espírito Santo o guiasse. Despediu-se e disse: 'Até a volta'". Maria Elena confiou que o irmão voltasse logo. Apostava no candidato brasileiro para papa. "Senti que não queria ir. Ele não queria ser papa", ela garante. "Quando o vi sair no terraço, pela TV, quase morri. Mas percebi que tinha um semblante sereno e acho que aceitou sua missão."

Maria Elena diz que "humanamente" sente "uma dor imensa" por saber que o irmão agora ficará longe. Os dois se falam toda semana e se viam quase com a mesma frequência. O filho mais velho dela, "um apaixonado pelo Brasil", se chama Jorge em homenagem ao tio. Maria Elena conta que o pai morreu quando ela tinha apenas 3 anos e Bergoglio, 13. Foi ele quem ajudou a mãe a criá-la. "Ele me tomava nos braços, gostava muito de brincar, mas, como irmão mais velho, também me dava conselhos e protegia. Desde menino, era muito austero", revela.

Os dois nasceram e cresceram no casebre térreo de número 1937 na Rua Membrillar, que ainda mantém original o quarto dos fundos onde Bergoglio descobriu sua vocação - uma construção simples, de madeira e pedra, com um janelão que dava para o jardim, onde às vezes caminhava descalço e todos sabiam que estava concentrado nos próprios pensamentos. Havia um corredor por onde podia seguir direto da entrada para o seu quarto, hoje transformado em uma garagem pela família que ali vive, mas Bergoglio nunca deixou de fazer as refeições com os pais e os irmãos.

Sua vida se deu naquela vizinhança - a primeira missa, na Igreja de San José de Flores, a primeira comunhão, com as irmãs do colégio das Filhas de Nossa Senhora de Misericórdia, a primeira confissão e a descoberta da vocação na Igreja São José de Flores, a primeira namorada a quatro casas da sua, a turma de amigos reunida na Praça Herminia, os jogos do San Lorenzo, seu time do coração. E é para lá que ele retorna, sempre que pode.

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