O terceiro debate entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo foi esvaziado. Na contenda da segunda-feira, estavam presentes apenas Tabata Amaral (PSB), Maria Helena (Novo) e Pablo Marçal (PRTB). Além de José Luiz Datena (PSDB), os líderes nas intenções de votos dos eleitores, Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL), decidiram privar os eleitores de suas propostas. O pretexto oficial foi “incompatibilidades de agendas”, mas nos bastidores os assessores de campanha se queixavam do “descontrole” de Marçal.
De fato, como quase todos sabem, o dublê de coach é um oportunista que fabricou com um partido de ocasião uma candidatura abastecida à base de afrontas performáticas, como quem caça engajamento nas redes. Já antes de oficializar a candidatura, ele deu um jeito de se intrometer numa sessão da Câmara dos Deputados para bater boca com Boulos. Marçal transformou os dois primeiros debates num circo de horrores, fazendo insinuações caluniosas contra Boulos sem provas e protagonizando um grotesco “exorcismo” com uma carteira de trabalho.
Se Macbeth fosse votar em São Paulo, diria que a atual campanha eleitoral paulistana se tornou “um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada”. No tal “debate”, Marçal, sem ter o que dizer, entregou sua fala de encerramento ao silêncio. Antes, negou-se a responder às perguntas, endereçando o eleitor às suas redes sociais.
Mas a vitimização dos ausentes não deixa de ser irônica. Datena fez fama em programas de TV sensacionalistas. A máquina por trás da candidatura de Boulos, a militância lulopetista, nunca se retratou por sua usina de desinformações – como a de que FHC teria uma mansão em Paris, que Marina Silva tiraria o arroz e o feijão da mesa dos pobres para enriquecer banqueiros ou que a facada em Jair Bolsonaro foi uma farsa –, como, aliás, nunca se retratou por nada. Como diz o provérbio, “cria cuervos y te sacarán los ojos”.
Nunes é político de outra cepa. O ex-vereador alçado a prefeito da maior metrópole da América Latina por uma fatalidade nunca foi dado às batalhas campais midiáticas. Ele se queixou expressamente de candidatos que “preferem fazer cortes para a internet” ao invés de discutir as questões da cidade. Mas seu curioso remédio para esse mal foi se negar ele mesmo a discutir as questões da cidade.
A suprema ironia é testemunhar o prefeito incumbente, apoiado por uma pletora de legendas, disputando com o franco-atirador Marçal os favores do pai de todos os “cortes para a internet”, Jair Bolsonaro. Enxotado do Exército em razão de um atentado terrorista malogrado, Bolsonaro fez carreira no baixo clero insultando adversários reais e, sobretudo, imaginários. Na Presidência da República, o empedernido negacionista e golpista usou e abusou da máquina estatal para infectar a opinião pública com desinformações que puseram em risco a vida de pessoas e o próprio Estado Democrático de Direito, a ponto de ser sentenciado com a inelegibilidade.
É no mínimo hipócrita que Nunes – que, como muitos políticos de direita, foi conivente com a naturalização da desinformação promovida por Bolsonaro – venha agora se queixar de um Bolsonaro com anabolizantes como Marçal. O Brasil ainda se lembra, aliás, de Bolsonaro nos debates delegando respostas sobre economia ao “posto Ipiranga”, tal como Marçal delega agora aos seus assessores no Instagram.
Na esfera dos princípios republicanos, entre a desonra e a guerra, Nunes escolheu a desonra, e agora colhe a guerra. O mercado foi aberto, e está sendo explorado. Que, por cálculo eleitoral, na falta de um currículo mais alentado à frente da administração de São Paulo, Nunes tenha de costurar soluções de compromisso com o bolsonarismo, vá lá – é do jogo político conspurcado pela polarização à qual a Nação foi arrastada desde que o “nós contra eles” fabricado pelo lulopetismo foi turbinado por Bolsonaro. Mas que não insulte a inteligência do distinto público afetando indignação com Marçal, dileto filhote bolsonarista, quando se desfaz em cortejos ao grande pai de todos.