Um espectro ronda os líderes da alt-right ao redor do mundo - o espectro da corrupção. Absolutamente todos os chefes de governo identificados com a nova extrema direita estão envolvidos em acusações de corrupção. De Trump a Orbán, passando por Erdogan e Bolsonaro, todos tiveram seus nomes— ou de correligionários — ligados a escândalos. A maneira adotada por boa parte deles é intervir no Judiciário, livrando-se, assim, das atuais e possíveis futuras acusações.
Esta medida tem funcionado e tenta ser replicada em Israel. Mas o governo precisa ser veloz no desmonte da democracia, caso contrário, o Catargate, escândalo recente que abala o país, pode terminar por derrubá-lo.
O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu está sendo julgado em três processos, pelos quais interrompe suas tarefas como chefe de governo para depor três dias por semana. Nos três casos, a acusação é semelhante: Netanyahu teria oferecido (ou concedido) benefícios a magnatas dos meios de comunicação (ou de outras áreas) em troca de uma melhor exposição de sua imagem — ou de presentes.
Desde 2019, quando se tornou réu, Netanyahu se aproximou dos grupos mais abomináveis da extrema direita truculenta e racista em Israel, a fim de se agarrar ao poder, e, assim, garantir uma posição de destaque enquanto seu processo corre na Justiça. Está funcionando para ele, mas é um pesadelo para o país. Seu atual governo é um fracasso retumbante sob todos os aspectos: aumento incessante da criminalidade, disparo do custo de vida e da pobreza, sequestro do orçamento por extremistas religiosos. A guerra é outro desastre: 59 reféns ainda estão em Gaza. Apesar do massacre que vitimou dezenas de milhares de palestinos, o Hamas segue no poder e não há sequer um plano para instaurar uma alternativa de poder na Faixa de Gaza. O governo, entretanto, decidiu retornar à agenda pública o golpe judicial, projeto de reforma que retira poder do Judiciário e blinda a si próprio. Por que será?
O Catargate vem ocupando cada vez mais espaço nos noticiários e no debate público do país: assessores muito próximos a Netanyahu estão sendo investigados por trabalhar a serviço do Catar — um país com o qual Israel não tem relações diplomáticas, e que é tido por muitos como o principal aliado do Hamas na região. A acusação apresenta evidências bastante críveis de que, ao mesmo tempo em que tais assessores usufruíam do acesso a documentos confidenciais e reuniões ao gabinete de segurança, prestavam serviço para outro país, cujos interesses não são exatamente os mesmos que os de Israel. A monarquia do golfo os teria contratado para que trabalhassem em prol da melhoria da sua imagem perante a população israelense, e a acusação aponta para uma atuação variada. O porta-voz de Netanyahu, Eli Feldstein, repassava mensagens supostamente orientadas por Doha à mídia israelense, como se viessem do gabinete do primeiro-ministro.
Jonathan Urich, assessor de comunicação do primeiro-ministro, estaria atuando em duas frentes: criando sites e perfis para promover os interesses do Catar e assessorando a própria monarquia do país quanto à estratégia de relações públicas em Israel. Esses dois — somados a outros três — são acusados de contato com agentes estrangeiros, lavagem de dinheiro, recebimento de propina, fraude e abuso de poder.
Isso tudo acontece bem abaixo do nariz de Netanyahu, que os nomeou e os tinha muito próximos de si. O primeiro-ministro, tal qual um típico representante da alt-right, acusa o deep state de tentar derrubar o primeiro-ministro forte da direita.
Alega que tudo não passa de invenção, que se trata de uma ação política cujo objetivo é evitar a demissão do fracassado chefe do Shin Bet — que comanda a investigação. O fato, no entanto, é que ele mesmo passou por um interrogatório nesta semana. As autoridades não o consideram suspeito de nada, ao menos por enquanto.
O andamento do caso acelerou as tentativas do governo de demitir Ronen Bar, o chefe do Shin Bet. Netanyahu alega que não há confiança entre ambos, mas há fortes suspeitas de que a demissão tenha cunho político. No dia 8 de abril, a Suprema Corte decidirá se há ou não conflito de interesses. Aparentemente, Netanyahu tenta se esquivar de responder questões complicadas. Afinal, o primeiro-ministro sabia desse suposto vínculo de seus assessores com o Catar? Se não sabia, como aconteceu que tantos possíveis traidores da pátria estejam alocados em seu gabinete? E se sabia, a qual país serve Netanyahu: Israel ou o Catar? Há conexão entre a dupla filiação de membros do seu gabinete e o fato de o seu governo ter permitido o repasse de centenas de milhões de dólares do Catar para o Hamas? Num ambiente de normalidade, qualquer governo já teria sido derrubado por uma acusação tão séria. Em Israel de 2025, o governo formado por incompetentes, psicopatas e extremistas religiosos não se constrange em relevar acusações seríssimas de ameaça à segurança nacional — e, ao mesmo tempo, dizer-se nacionalista.

