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Roseann Kennedy traz os bastidores da política e da economia. Com Eduardo Barretto e Leticia Fernandes

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Hidrovias: setor espera salto nos 100 primeiros dias de novo governo, seja de Lula ou Flávio

Concessão de hidrovias estava na agenda do Executivo, mas foi adiada pela pressão de movimentos sociais, em especial dos povos indígenas

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Foto do autor João Caires
Foto do autor Roseann Kennedy
Atualização:

Depois de frustração na tentativa dos ministérios de Portos e Aeroportos de realizar as primeiras concessões hidroviárias do País em 2026, a área técnica do governo entende que o tema só voltará a avançar depois das eleições e aposta em destravar os projetos no setor nos primeiros 100 dias do próximo governo, independentemente do resultado do pleito, segundo apurou a Coluna do Estadão/Broadcast. A concessão de hidrovias como as dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins estava na agenda do Executivo para este ano, mas foi adiada pela pressão de movimentos sociais, em especial dos povos indígenas.

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Sob o entendimento de que a pauta não tem mais força para avançar, o corpo técnico do Executivo trabalha - com otimismo - e com a estratégia de finalizar todos os projetos do segmento ainda em 2026 para os apresentar à nova equipe de um quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou à equipe de transição de um eventual novo presidente eleito este ano.

O trabalho que tem sido realizado nos bastidores também é o de reunião com lideranças de movimentos sociais críticos à concessão do serviço de manutenção da navegabilidade das hidrovias para que a situação esteja menos tensionada em 2027. Lideranças de grupos indígenas ocuparam a sede da multinacional Cargill como forma de protesto contra a agenda, no início de 2026. A pressão resultou na derrubada do decreto que inseriu as hidrovias do Norte do País em estudos de viabilidade de concessão.

Mesmo com as conversas, a percepção é a de que o tema avance mesmo que seja necessário “comprar algumas brigas”.

Outro fator que reforça a percepção de que a pauta deve ganhar tração a partir de 2027 é o trabalho realizado pela recém-criada Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação. Embora ainda não tenha conseguido destravar as concessões neste ano, a área vem atuando para ampliar a discussão sobre o tema, inserindo-o na agenda de associações, federações e ministérios considerados estratégicos para o avanço do setor.

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Área técnica do governo entende que a concessão de hidrovias só voltará a avançar depois das eleições  Foto: Chico Siqueira

Cabo de guerra

A disputa em torno do avanço da concessão opõe, de um lado, os Ministérios de Portos e Aeroportos e dos Transportes, que articulam junto à Presidência da República em favor da pauta sob o argumento de que o projeto tem potencial para atrair investimentos e contribuir para a descarbonização do transporte de combustíveis e commodities destinados à região Norte do País. De outro, a Secretaria-Geral da Presidência da República, comandada pelo ministro Guilherme Boulos, e o Ministério dos Povos Indígenas, liderado por Sônia Guajajara, manifestam - oficialmente - resistência às concessões, alegando que a medida pode elevar custos para populações ribeirinhas, causar impactos à fauna e à flora locais e afetar a cultura dos povos indígenas da região.

Nos bastidores, a resistência à concessão não é uniforme e tem outras justificativas. O Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, por exemplo, não faria oposição ao projeto em si, mas adota uma postura mais cautelosa, cobrando estudos adicionais e evidências de que a iniciativa não provocará impactos ambientais relevantes antes de dar aval ao avanço da agenda.

Na Secretaria-Geral da Presidência, o principal fator seria mais político do que social. A leitura é que, diante da proximidade do calendário eleitoral, há pouca disposição para direcionar esforços para uma pauta capaz de gerar conflitos ou desgaste político para o governo e fazer Lula perder popularidade na região.

Já no Ministério dos Povos Indígenas, a principal preocupação estaria relacionada ao cumprimento dos procedimentos de consulta livre, prévia e informada às comunidades potencialmente afetadas. A área técnica favorável às concessões avalia que a abrangência do processo e a necessidade de ouvir diferentes grupos podem ampliar significativamente os prazos de análise e elevar os custos do projeto.

Na Casa Civil, prevaleceria uma visão mais pragmática sobre a concessão. Integrantes das tratativas afirmam que a pasta avalia os riscos políticos e ambientais, mas considera que eventuais impactos podem ser mitigados por condicionantes e medidas compensatórias. A expectativa entre defensores do projeto é que, superado o período eleitoral, o ambiente político se torne mais favorável para destravar a discussão e permitir o avanço da agenda.

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Efeito El Ñino

Sem o serviço de dragagem na hidrovia do Tapajós, por exemplo, a estimativa do setor é que as empresas que transportam cargas na região precisem reduzir os volumes carregados a partir da segunda quinzena de outubro ou início de novembro.

Por enquanto, a recomendação do Executivo é que se opte pelas rodovias BR-163 e a BR-230 para evitar prejuízo aos produtos transportados.

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