Filhos de Bolsonaro entram no alvo de Alexandre de Moraes e agravam situação do pai; entenda

Decisão que impôs prisão domiciliar ao ex-presidente cita atuação coordenada de Flávio, Carlos e Eduardo como parte de estratégia para burlar medidas cautelares e pressionar o Supremo; criminalistas veem risco de responsabilização penal do trio

PUBLICIDADE

Foto do autor Hugo Henud

A atuação de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro foi decisiva para o agravamento da situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro, que agora cumpre prisão domiciliar. Criminalistas ouvidos pelo Estadão avaliam que, ao incluir os filhos de forma expressa como parte de uma estratégia para burlar decisões judiciais, a nova decisão do ministro Alexandre de Moraes marca um ponto de inflexão no tratamento jurídico dado à família e abre caminho para que o trio passe a ser formalmente investigado e corra risco de responsabilização penal.

O estopim da nova decisão foi a participação de Bolsonaro, por telefone, na manifestação realizada no último domingo, 3, em Copacabana, contra o STF e em defesa da anistia. A ligação foi feita por seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, divulgada nas redes sociais e posteriormente apagada. Carlos Bolsonaro, por sua vez, veiculou uma imagem do pai e convocou seguidores a se mobilizarem contra o Supremo.

Jair Bolsonaro, ex-presidente da República, está em prisão domiciliar em razão de publicações dos filhos Foto: Wilton Júnior/Estadão

PUBLICIDADE

Mas, para Moraes, o episódio não foi isolado. Na avaliação do ministro, trata-se da continuidade de uma estratégia articulada dos três filhos do ex-presidente para influenciar o julgamento da ação penal sobre o golpe, previsto para setembro e no qual Bolsonaro é réu.

Para o criminalista e coordenador do curso de Direito da ESPM-SP, Marcelo Crespo, a medida de Moraes não se baseou em um único fato, mas foi o desfecho de uma escalada coordenada entre o ex-presidente e seus filhos. Ele destaca que, ao citar expressamente a atuação de Flávio e Carlos como parte do descumprimento das cautelares, Moraes deixa de tratá-los como coadjuvantes políticos e passa a enquadrá-los como participantes ativos de uma tentativa de obstrução da Justiça.

“Esse reposicionamento narrativo e jurídico prepara o terreno para eventual responsabilização penal dos três filhos, ocorre pela primeira vez. Isso começou lá atrás, com Eduardo Bolsonaro”, afirma.

O primeiro movimento citado por Crespo remonta à articulação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Em reuniões com autoridades americanas, o deputado defendeu sanções contra Moraes. A Corte interpretou a iniciativa como uma tentativa de interferência externa coordenada com o pai e, a partir dali, Moraes instaurou inquérito contra os dois e impôs as primeiras medidas cautelares a Jair Bolsonaro, como o uso de tornozeleira eletrônica, a proibição de uso de redes sociais e, agora, a prisão domiciliar.

Publicidade

Na sequência, os Estados Unidos revogaram o visto de Moraes e impuseram sanções contra o ministro com base na Lei Magnitsky.

Esse histórico é considerado essencial para entender como a atuação dos filhos de Bolsonaro passou a ter repercussão jurídica direta, avalia o criminalista Renato Vieira, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM). Para ele, o comportamento do trio contribuiu de forma decisiva para o agravamento da situação do ex-presidente. “Eles agiram para embaraçar as investigações — seja por meio das redes sociais, como Flávio e Carlos, seja por meio de articulação nos EUA, como Eduardo”, afirma.

Com a nova decisão, afirma, Flávio e Carlos também passam a correr o risco de serem responsabilizados pelos mesmos crimes que já levaram Eduardo à condição de investigado, como coação no curso do processo, obstrução de Justiça e tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito.

Publicidade

“Essa é a novidade para mim. Com essa decisão, Moraes sinaliza que já vê elementos para enquadrar os outros dois filhos nesses mesmos crimes, dentro do inquérito que antes mirava apenas o ex-presidente”, afirma Vieira. Ele acrescenta que a situação de Eduardo também se agrava, podendo levar à decretação de sua prisão preventiva, caso o STF entenda que há tentativa de coação ao curso do processo.

Na mesma linha, Crespo avalia que o reposicionamento adotado por Moraes abre caminho para responsabilização penal dos três filhos. Ele pontua que, se for demonstrado que as ações do grupo foram articuladas e com intenção deliberada de pressionar o Judiciário e interferir no andamento do processo do golpe, os filhos deixam de ser apenas apoiadores e passam a ser tratados como coautores.

“Se houver indícios de que os atos estavam inseridos em uma estratégia conjunta, voltada a desestabilizar o Supremo e manipular o processo penal, a responsabilização pode ocorrer com base na teoria do domínio do fato ou da coautoria funcional”, explica.

Publicidade

O criminalista Pierpaolo Bottini concorda e diz que, a partir de agora, o foco da investigação pode se ampliar. Ele pontua que a menção expressa à atuação dos filhos no descumprimento das cautelares sinaliza que Moraes não enxerga mais o núcleo familiar apenas como entorno político de Bolsonaro, mas como possível engrenagem ativa da tentativa de obstruir a Justiça.

“Se confirmada essa linha, Flávio, Carlos e Eduardo podem deixar de ser personagens periféricos e se tornar réus em ações penais ligadas ao golpe”, completa.

Vale ler também
Coluna do Estadão
Lula perde em ‘casa’ de Marília Campos, primeira senadora do PT eleita na história de Minas
Fernando Schüler
Tarcísio se afasta de Flávio e manda um recado à direita brasileira
Coluna do Estadão
Bastidores: Como Eduardo Bolsonaro atraiu Moraes com isca retórica e driblou a PF na fuga de Flávio