Smart Sampa espalha câmeras para combater crimes em SP
Programa da Prefeitura usa monitoramento com inteligência artificial para flagrar crimes e foragidos. Crédito: Ítalo Lo Re e Bruno Nogueirão/Estadão
No canto esquerdo do telão, pisca o aviso de identificação: o rosto de um foragido foi capturado pelas câmeras do Smart Sampa. Uma equipe faz a triagem do caso e repassa para os guardas-civis nas ruas. Quem estiver mais próximo corre para fazer a prisão.
Até agora, mais de 1,6 mil foragidos foram detidos com a ajuda do “Big Brother” anticrime da Prefeitura de São Paulo. Em um prédio na Rua Quinze de Novembro, no centro, fica o comando da patrulha virtual com cerca de 31 mil câmeras. O Estadão foi conhecer esse sistema por dentro.
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“Pela média das prisões, entre o momento em que passa o procurado pela câmera e o que ele é abordado, são menos de 10 minutos”, diz Orlando Morando, secretário municipal da Segurança Urbana. “Em uma cidade grande como essa, se não for rápido, ele (o foragido) entra em uma estação de metrô, um trem, pega um ônibus."
Cerca de 20 mil equipamentos são do consórcio firmado pela Prefeitura; o resto é de parceiros privados. A meta é atingir 40 mil este ano. “Não tem bairro sem câmera hoje”, afirma Morando.
Oito meses após o início da operação, o Smart Sampa é uma das principais bandeiras do prefeito Ricardo Nunes (MDB) – o investimento mensal gira em torno de R$ 10 milhões.

Brás e Bom Retiro, no centro expandido, estão entre os líderes de prisões. A gestão colocou um painel em frente ao prédio da central, o “Prisômetro”, para atualizar o balanço na cidade. Houve ainda mais de 3 mil presos em flagrante e 79 desaparecidos localizados.
Assim que flagra o suspeito ou o crime, a inteligência artificial (IA), com base no georreferenciamento de viaturas, indica a equipe mais próxima. A imagem é enviada para quem está na rua. Uma camisa ou bolsa do suspeito, por exemplo, ajuda a identificar o alvo.
Predominam prisões por roubo e tráfico de drogas, mas há acusados de diferentes crimes. No dia 17, por exemplo, um condenado por estupro, foragido desde 2018, foi preso na Lapa, zona oeste, após passar por uma câmera.
Em janeiro, foi preso um motoqueiro, identificado ao tirar o capacete durante entrega em Pirituba, zona norte. Era foragido por tentativa de homicídio, após atirar contra a casa do marido da ex-mulher no litoral norte.

Câmeras e inteligência artificial ganham cada vez mais força
Câmeras e IA ganham papel cada vez maior na segurança pública, tanto no patrulhamento quanto na inteligência investigativa. Mais do que flagrar foragidos e crimes, a vantagem está em rastrear áreas críticas e dinâmicas de gangues, por exemplo.
Monitoramento do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) aponta pelo menos 421 projetos que utilizam técnicas de reconhecimento facial no País.
Um estudo de julho conduzido por esse grupo acadêmico, porém, aponta que não houve redução significativa de homicídios, roubos e furtos em São Paulo após a instalação do Smart Sampa. A Prefeitura contesta a metodologia usada pelo CESeC e diz que as câmeras ajudam nas investigações.

Entre outras críticas ao modelo, estão identificações imprecisas, abordagens indevidas e risco de violação à privacidade – a falta de dados brutos sobre as abordagens para análise também é um ponto de queixa. Algumas cidades americanas, como Baltimore e San Francisco, até aboliram o uso de reconhecimento facial por órgãos públicos.
“E, na União Europeia, há uma legislação (IA Act) que tenta proteger imagens de dados biométricos e colocar barreiras no uso dessas tecnologias na segurança pública”, diz Thallita Lima, coordenadora de pesquisa do CESeC.
Pesquisadores apontam uma espécie de “limbo jurídico” que ainda precisa ser resolvido no Brasil, uma vez que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) não regula o uso de informações para a segurança pública.
É preciso ter foco em investigação
O Smart Sampa levou dois anos para ser implementado após questionamentos, por parte de órgãos como o Ministério Público Estadual e mais entidades, sobre o suposto viés racial no edital de implementação do sistema. Por isso, pesquisadores defendem regras e transparência na adoção das câmeras inteligentes.
Morando diz que os protocolos foram discutidos a fundo. “Se especialista de segurança servisse de alguma coisa, estaria no poder público. Só fazem críticas vazias”, rebate.
A secretaria afirma que os suspeitos são abordados se há ao menos 92% de acurácia no “match” com o banco de imagens – no começo, a régua mínima era de 90%.

Até agora, 23 pessoas foram levadas a delegacias após erro de reconhecimento facial e 53, conduzidas e liberadas após a confirmação de que ainda não havia sido dada a baixa do mandado de prisão no sistema, segundo balanço dos seis primeiros meses.
Em um dos casos, um homem que fazia trabalho voluntário como jardineiro em uma unidade básica de saúde foi detido no fim de 2024 após ser falsamente apontado como um estuprador. Ele foi liberado após ser levado à delegacia.
Em três casos de erro, os abordados eram gêmeos dos foragidos. O protocolo é pedir documentos na hora da abordagem e fazer mais checagens.
Por dia, os avisos de reconhecimento facial podem passar de 100, embora alguns sejam de um mesmo foragido que passou por várias câmeras. Há ainda a identificação de placas de carros roubados, entre outros alertas.

Segundo Daniel Edler, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, os investimentos em segurança que dão mais resultado estão ligados à investigação. “Tem impacto grande, por exemplo, identificar grupos criminosos, pegar na raiz da dinâmica criminal que afeta um bairro.”
Além disso, há crescente migração dos bandidos dos roubos nas ruas para os golpes digitais (que têm dado mais lucro e oferecido menos risco às quadrilhas). Isso exigirá, segundo Edler, diversificar as ferramentas de combate ao crime nos próximos anos, com foco em estratégias de inteligência.
Câmeras em motos estão entre os próximos passos
Com o avanço do programa, vereadores, associações de bairro e comerciantes pedem câmeras nas suas vizinhanças. Os equipamentos também foram instalados dentro dos ônibus e em cerca de 400 escolas municipais.
Para ter câmeras voltadas a vias públicas incluídas no programa, condomínios ou empresas devem ter equipamentos com resolução mínima e capacidade de armazenamento em nuvem. A Prefeitura diz que só ela tem acesso ao reconhecimento facial. O benefício para as empresas é ter a área coberta pelos “olhos” do programa.
Cerca de 400 agentes – da Guarda Civil Metropolitana, SPTrans e Defesa Civil – atuam na sede do Smart Sampa. A central deve ser transferida para o Palácio dos Correios, prédio histórico no centro, mas ainda não há data. A rede de câmeras também é usada para monitorar quando há chuvas intensas ou grandes eventos (como carnaval e Virada Cultural).

O próximo passo previsto pelo sistema é colocar câmeras em motos da GCM - os veículos da PM também ganharão o equipamento. Conforme a Secretaria da Segurança Pública do Estado, há uma integração do Smart Sampa com o Muralha Paulista, programa de câmeras da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos).
“Alertas são emitidos em tempo real sobre veículos produtos de crime e pessoas procuradas pela Justiça”, informa a secretaria. “A ampliação desse monitoramento faz parte do diálogo contínuo entre a pasta e o Município.”





