Para conter coronavírus, isolamento social precisa durar ao menos dois meses

Medida é necessária para tentar evitar quebra do sistema de saúde, defendem especialistas; fim da pandemia só deve ocorrer quando 70% da população tiver sido infectada e curada - ou quando tivermos uma vacina

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Foto do author Roberta Jansen

SÃO PAULO E RIO - Pelo menos 70% dos brasileiros precisam estar imunizados para que possamos começar a falar em fim da epidemia de covid-19 no País. Chegar a esse porcentual só será possível depois que a maioria da população tiver sido infectada pelo novo coronavírus e curada. A alternativa é ter uma vacina pronta – trabalho que exige uma série de testes e o imunizante dificilmente chegará ao mercado antes do fim do ano.

Laboratorista mostra kit de teste para o coronavírus na Europa Foto: Robin Van Lonkhuijsen/ EFE

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Tentar prever como ou quando atingiremos esse patamar é um exercício de futurologia. Não há precedentes na história recente da humanidade para a crise atual. Por isso, não se pode mirar eventos passados em busca de respostas. Alguns estudos, porém, tentam olhar para o futuro e apontar caminhos possíveis. Uma unanimidade entre os especialistas é a adoção do distanciamento social de forma prolongada para retardar o aumento explosivo no número de casos.

“Não existem ainda meios de avaliar se as medidas que estão sendo implementadas, sobretudo pelos governos estaduais e municipais, surtirão os efeitos necessários”, afirma o especialista em modelagem epidemiológica da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Roberto Kraenkel.“Mas projeções feitas para outros países indicam a necessidade de um lockdown (isolamento total das cidades, com manutenção apenas dos serviços essenciais) por, ao menos, dois meses.”

Estimativas feitas por especialistas da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e da Fiocruz apontam que, até30 de março, o País deve contabilizar oficialmente 6.375 casos de covid-19 – número que pode variar entre 3.555 (cenário otimista) e 11.548 (cenário pessimista). A expectativa é de que, na próxima semana, o total de casos no Brasil comece a aumentar exponencialmente até que os efeitos das atuais medidas de distanciamento social e isolamento comecem a ser sentidos.

“A perspectiva é atingir o pico da epidemia em abril, mas não sabemos ainda aonde esse pico vai chegar”, explica o infectologista Antonio Flores, da organização Médicos Sem Fronteiras. “Dependendo das medidas de distanciamento físico implementadas e da adesão da população, teremos uma curva mais alta ou menos alta.”

Caso essas medidas mais drásticas não sejam cumpridas pela população - ou sejam suspensas, como sugeriu o presidente Jair Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV -, a epidemia no Brasil pode seguir o mesmo caminho trilhado pela infecção na Itália e na Espanha, que já somam 12,6 mil mortes. Nesses países, o número de casos cresceu mais rápido do que a capacidade de o sistema de saúde de absorver pacientes. Os médicos estão sendo forçados a decidir quem pode ser levado para a UTI (e ter chance de ser curado) e quem é deixado de lado para morrer.

A ideia de reduzir o brutal impacto econômico das estratégias de mitigação e isolar só os mais vulneráveis à doença (idosos e doentes crônicos, por exemplo), como propôs Bolsonaro, foi aventada por outros líderes mundiais nas últimas semanas. A própria Itália contemplou a estratégia no início da epidemia. Rapidamente, diante da explosão de casos e de mortes, mudou de ideia. O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, também. O que fez o líder britânco (que teve diagnóstico confirmado para coronavírus confirmado nesta sexta, 27) recuar foi um estudo do Imperial College de Londres, divulgado em 16 de março. O trabalho projetou 250 mil mortes no país se apenas medidas de isolamento mais brandas fossem adotadas.

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Os pesquisadores, liderados por Neil Ferguson, simularam como poderia se desenrolar a epidemia nos Estados Unidos e no Reino Unido, com base na observação das medidas tomadas na China, na Coreia e na Itália.

Eles modelaram duas estratégias: uma de mitigação, que se concentra em desacelerar, mas não necessariamente em impedir a propagação do vírus, o que reduz o pico de demanda de cuidados de saúde e protege aqueles com maior risco doença grave por infecção; e a segunda, de supressão, que visa a reverter o crescimento epidêmico, reduzindo o número de casos a níveis baixos.

No cenário de mitigação (que combina estratégias de isolamento em casa dos pacientes com suspeita de infecção, quarentena para quem mora com pessoas suspeitas e distanciamento social para os mais velhos e aqueles em maior risco de doença severa), o pico de demanda por atendimento cairia em 2/3 e as mortes, pela metade. Mas, ainda assim, resultaria em muitas mortes, como as 250 mil citadas acima. Nos EUA, pelas contas, cerca de 1 milhão morreriam.

O estudo concluiu que a única estratégia capaz de evitar muitos óbitos e a sobrecarga do sistema de saúde é impor regras de distanciamento social para toda a população; isolar casos confirmados e seus contatos; e fechar escolas, universidades e grande parte do comércio.

 

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“Se as medidas de isolamento e contenção propostas pelos Estados forem respeitadas, podemos considerar um crescimento da epidemia similar ao da França (o país europeu confirmou o 1º caso em janeiro. Hoje, tem cerca de 29,5 mil pacientes e 1,7 mil mortes)”, afirmou Silvio Hamacher, da PUC-RJ, integrante do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (Nois), grupo faz modelagens de cenários futuros no País. “Contudo, se a população seguir o que foi preconizado por Bolsonaro, ou seja, reabertura do comércio e das escolas, a trajetória da epidemia pode seguir a de países como Espanha, onde as medidas de isolamento foram tardias.”

Segundo os pesquisadores do Imperial College, porém, para surtir efeito sustentável, a estratégia teria de continuar por muitos meses. Idealmente, deveria ir até o desenvolvimento de uma vacina ou a chamada imunização de rebanho, quando a maioria da população já foi contaminada e não corre mais o risco de ficar doente. Pelos cálculos do grupo, até seria possível suspender o isolamento de tempos em tempos, mas muito brevemente, para não abrir caminho para novos surtos.

Necessidade pode ser de isolamento de ao menos dois meses

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Com a pandemia ainda em curso, e em franco crescimento em muitos países, quem já passou pela fase aguda traz mais ensinamentos. Após cerca de três meses do início oficial da epidemia, só agora a China começa a reabrir a província de Hubei, onde fica Wuhan, depois de ter zerado a transmissão local, mas a cidade epicentro inicial do novo coronavírus ainda deve ficar fechada por mais duas semanas. Os primeiros registros da doença foram feitos nessa região, em dezembro. 

O país, porém, começou a registrar casos importados de covid-19, e nesta quinta, 26, anunciou que fechará temporariamente suas fronteiras para a maioria dos estrangeiros a fim de evitar a retomada da transmissão, visto que só uma parcela muito pequena da população está imunizada.

Conforme os pesquisadores, a reabertura, para dar certo, demanda vigilância permanente e a continuação dos testes em massa, a fim de detectar rapidamente inícios de novos surtos e, de novo, estabelecer medidas mais restritivas. Isso até se conseguir uma vacina ou a chamada imunização de rebanho, quando grande parcela da população foi contaminada e já não corre mais o risco de ficar doente.

O biólogo Fernando Reinach, colunista do Estado, afirma que acompanhar os desdobramentos da reabertura de Wuhan será fundamental para entender como a epidemia vai se comportar. “O vírus continuará presente, por exemplo, com pessoas que estarão chegando contaminadas do exterior, e vai ser importante ver como vão evitar novos surtos."

Para ele, por enquanto, o único caminho que parece seguro para evitar muitas mortes é mesmo conter a população. O outro caminho, diz, seria fazer como a Coreia, que está testando em massa a população e agindo rapidamente para conter quando há infectados e rastrear seus contatos, a fim de evitar a dispersão. O país tem um número grande de casos, cerca de 9 mil, mas já fez mais de 300 mil testes e teve cerca de 120 mortes, 1,3% dos casos.

Mas enquanto o país soma 51 milhões de habitantes, o Brasil tem 210 milhões. O governo Bolsonaro prometeu esta semana 22,9 milhões de testes, mas esbarra em desafios logísticos, como a capacidade de produção da Fiocruz, laboratório público responsável por fabricar grande parte dos exames, e a disputa pelo produto no mercado internacional.

“Neste momento, não parece que o Brasil conseguirá fazer essa testagem em massa, mas o país poderia se preparar para alcançar esse cenário em três meses e, então, começar a liberar as pessoas aos poucos, mantendo uma vigilância constante e tomando providências rapidamente diante do surgimento de novos casos”, defende Reinach.

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Mas mesmo uma resposta perfeita do governo e da população não vai acabar de vez com a pandemia. Enquanto o vírus existir em algum lugar, ele sempre poderá retornar e dar início a uma nova epidemia.

O infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz e do Instituto D’Or, lembra que a gripe espanhola (que começou em 1918 e se estendeu até 1920), por exemplo, teve três grandes ondas. Por outro lado, a epidemia da Sindrome Respiratória Aguda Grave (a SARS, que começou na China em 2002 e durou até 2003), teve apenas uma onda e depois, simplesmente, desapareceu. “A essa altura, só dá pra fazer previsão de curto prazo; todo o resto é especulação”, diz ele, que também integra o grupo Nois de modelagem de cenários.

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