Rafael Cañas/EFE
Rafael Cañas/EFE

Na China, Temer defende desarmamento nuclear

Ainda sobre o cenário internacional, presidente também comentou a atuação da Rússia na Síria e a crise econômica da Venezuela; chanceler Aloysio Nunes disse que Brasil manterá comércio com Pyongyang, apesar das ameaças de Donald Trump

Cláudia Trevisan, enviada especial / Xiamen, China, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2017 | 06h06
Atualizado 04 Setembro 2017 | 13h10

XIAMEN, CHINA - O teste nuclear realizado pela Coreia do Norte no domingo 3 reacende temores que pareciam ter ficado nos livros de História, disse o presidente Michel Temer em discurso durante a 9.ª Cúpula dos Brics. Assim como os líderes das potências emergentes Rússia, Índia, China e África do Sul, o brasileiro defendeu uma solução negociada para o impasse.

A detonação ocorreu poucas horas antes do presidente chinês, Xi Jinping, receber os líderes do grupo para o encontro em uma ilha no sul da China, no domingo. Essa foi a segunda vez em que atividades nucleares norte-coreanas coincidiram com eventos diplomáticos importantes para Pequim neste ano.

A China é o principal aliado internacional de Pyongyang e sofre pressão crescente do presidente Donald Trump para conter as ambições bélicas de Kim Jon-un.

“Em perspectiva mais abrangente e de mais longo prazo, o desarmamento nuclear é a garantia mais eficaz contra a proliferação”, afirmou Temer no encontro que teve participação de três potências nucleares - China, Rússia e Índia.

O presidente lembrou que o Brasil esteve na origem da negociação do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, assinado em julho por 122 países no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). O documento não teve adesão de nenhuma das nações que possuem armas nucleares, incluindo os parceiros do Brasil no Brics.

“O mundo permanece sob o signo da incerteza”, declarou Temer. “Parece haver uma erosão do apego ao direito internacional; uma erosão da crença nos benefícios do livre comércio; uma erosão da convicção quanto ao imperativo de enfrentarmos, juntos, desafios que são compartilhados.”

Temer elogiou a atuação da Rússia na Síria e defendeu uma saída diplomática para a guerra. Também afirmou que o Brasil é favorável à criação de dois Estados para resolver o conflito entre israelenses e palestinos. “A Rússia, presidente Putin, tem feito um trabalho extraordinário para composição dos vários conflitos”, afirmou Temer em relação à atuação do país na Síria. Moscou é o principal aliado do presidente Bashar Assad e suas forças combatem não apenas o grupo jihadista Estado Islâmico, mas grupos rebeldes que se opõem ao regime de Damasco.

O brasileiro disse que a ameaça do terrorismo exige uma resposta cada vez mais coordenada entre as nações e propôs a criação de um Fórum de Inteligência dos Brics para troca de informações sobre o assunto.

A situação da Venezuela também foi mencionada no discurso de Temer, que ressaltou a escassez de alimentos, remédios e itens básicos, e o crescimento no fluxo de refugiados para o Brasil e outros países da região. “A situação é de instabilidade e de crise humanitária.” A China é o grande financiador externo de Caracas e concedeu linhas de crédito de US$ 62,2 bilhões ao país entre 2005 e 2016, quase metade dos créditos concedidos a toda a América Latina no período.

Na sexta-feira, o governo chinês afirmou que continuará a investir na Venezuela, a despeito da instabilidade na qual o país está mergulhado.

Comércio

O Brasil manterá seu comércio com a Coreia do Norte, apesar da ameaça de Trump de suspender o comércio dos EUA com todos os países que fazem negócios com Pyongyang, disse nesta segunda-feira, 4, o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.

“Em matéria de sanções internacionais, nós apoiamos apenas aquelas que são decididas no Conselho de Segurança das Nações Unidas”, afirmou ele, que acompanha Temer na reunião de cúpula dos Brics. O Brasil vende cerca de US$ 10 milhões ao ano em fertilizantes e produtos agrícolas ao país, em um total de quase US$ 200 bilhões de exportações.

Trump disse no domingo em sua conta no Twitter que os EUA “estão considerando” suspender “todo o comércio com qualquer país que faça negócios com a Coreia do Norte”. É altamente improvável que a ameaça seja cumprida. O comércio bilateral dos EUA com a China foi de US$ 648 bilhões em 2016 e qualquer interrupção afetaria em cheio a economia americana. “Qualquer outro tipo de atitude agressiva de um lado ou do outro só pode prejudicar a situação ainda mais”, declarou Aloysio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.