Foto: Divulgação/Faculdade de Direito de YaleO mundo está prestes a viver uma estagflação (combinação de inflação alta e estagnação na atividade econômica) decorrente da política de taxação de importados adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Essa é a visão da economista-chefe do Banco Mundial entre 2020 e 2022 e professora de Harvard, Carmen Reinhart.
A economista destaca que a taxação vai elevar a inflação americana e, consequentemente, frear o consumo. Como 70% da economia dos EUA está ligada ao consumo, o risco de uma recessão é considerável. Países asiáticos que dependem de exportações e que foram os mais afetados pelas medidas trumpistas também devem enfrentar dificuldades importantes em suas economias.
“Quero fazer uma avaliação muito sólida de que a economia global já estava em uma situação precária e os riscos aumentaram. A possibilidade de queda no crescimento global é muito significativa”, disse Reinhart ao Estadão.
Apesar de ter sido menos afetado pelas taxações que os asiáticos, o Brasil não sairá imune. Em meio à guerra comercial, investidores fugirão de ativos de risco, o que inclui ativos brasileiros. Dado que o País já enfrentava um cenário de instabilidade, com economia em desaceleração e inflação em alta, a situação brasileira é “delicada”, de acordo com a economista.
Para Reinhart, é essencial que o Brasil faça um ajuste fiscal para reduzir sua vulnerabilidade a choques internos e externos e para permitir que a política monetária seja menos restritiva. Esse ajuste, porém, precisa mitigar os impactos sociais.
Confira, a seguir, trechos da entrevista:
Como avalia as medidas econômicas adotadas por Trump até agora?
Causaram riscos enormes na situação global. São riscos diferentes dos da crise de 2008, mas são equivalentes — senão maiores. A incerteza e a aversão ao risco já vinham dominando os mercados financeiros mesmo antes do anúncio das tarifas, porque, ex-ante, todos estavam muito otimistas. Depois, esse otimismo começou a desaparecer, e passou a se impor a realidade de que tarifas mais altas significam, pelo menos no curto prazo, uma maior probabilidade de recessão nos EUA e, com certeza, uma inflação mais alta. Mesmo em um cenário benigno, onde os parceiros comerciais não escalam o conflito comercial, você já piorou os resultados econômicos, piorou o índice de miséria, que é a soma da inflação e do desemprego.

Quais são as implicações globais disso?
Bastante negativas. A região mais impactada é a Ásia. As tarifas são muito altas. É preciso voltar ao início do século 19 para encontrar algo parecido. Sem dramatizar, as consequências negativas não podem ser subestimadas: para o crescimento dos EUA e para o crescimento global. É um momento em que os riscos para a economia global e para a arquitetura financeira global como conhecemos há décadas são extremamente significativos.
Há alguma chance de Trump ter sucesso, conseguir levar indústrias para o país e aumentar o nível de emprego? Ou isso nunca vai acontecer?
Nunca é uma palavra forte, mas isso levará muito tempo. Você não recria uma indústria que perdeu há 50 anos em um curto período. A ideia de que veremos efeitos estimulantes a partir das medidas de Trump está mal colocada. A pessoa comum está tendo grandes perdas de patrimônio. Seremos atingidos por preços mais altos em tudo que comprarmos. Nos EUA, os índices de confiança do consumidor já começaram a cair. A economia dos EUA depende 70% do consumo. O Brasil teve uma tumultuada história com políticas de substituição de importações. Isso não funcionou bem no País. Na prática, essas políticas — que são o que os EUA estão fazendo agora — foram abandonadas há muito tempo justamente por terem sido um fracasso. Sinto muito, mas não tenho muitas coisas positivas a dizer sobre isso com base no histórico das políticas.
Quais serão os impactos em países como o Brasil?
O Brasil não está na faixa de tarifas em que estão os países asiáticos. Portanto, comparativamente, é menos afetado. No entanto, as consequências para o crescimento global são muito significativas. Na crise financeira de 2008, os EUA e a Europa entraram em recessão. Mas a China crescia a dois dígitos. Ela foi um grande motor de crescimento para os mercados emergentes, incluindo o Brasil. Agora não temos isso. A China, mesmo antes desses acontecimentos, já vinha enfrentando problemas significativos. O modelo de crescimento dela era orientado para exportações. Agora, tem a tarifa americana sobre suas exportações. Como isso pode resultar em algo que não seja mais impacto negativo no crescimento, num momento em que já vínhamos observando, ano após ano, problemas se acumulando? Diferentemente de 2008, hoje é difícil enxergar quem será o motor do crescimento global. Isso não pode ser bom para o Brasil. Agora estamos num ambiente em que os mercados financeiros estão evitando ativos de risco. Ativos de risco são os mercados emergentes. O Brasil já estava em situação precária. A confiança do investidor já era instável. O País já vinha enfrentando fraquezas no real, uma economia em desaceleração e, ao mesmo tempo, o Banco Central elevando as taxas de juros — por razões compreensíveis. Então, é um choque negativo que chega em condições iniciais já problemáticas. O Brasil está em uma posição delicada.
A sra. mencionou a crise de 2008 e destacou que não temos a China para compensar um crescimento fraco na Europa e nos EUA. Podemos ver, então, um impacto maior do que da crise financeira?
Estamos lidando com o governo Trump. Não sabemos o que esperar de uma hora para a outra. Até agora, ele fez o que disse que faria e até pior. O que estou apontando é o quão arriscada é a situação global. Mas como as negociações vão se desenrolar está além do meu alcance. Quero fazer uma avaliação muito sólida de que a economia global já estava em uma situação precária e os riscos aumentaram. A possibilidade de queda no crescimento global é muito significativa.
Desde a pandemia, a inflação está em níveis mais altos. A nova realidade da economia global é de uma inflação elevada?
No tempo em que estive no Banco Mundial, no auge da pandemia, muitas vezes afirmavam que a inflação era temporária e causada por fatores como a guerra na Ucrânia. Mas a inflação já estava subindo antes da invasão russa. A inflação atingiu quase 9% nos EUA e foi global, com exceção de poucos países, como a China. Olhe o estímulo monetário que vimos nas economias avançadas. O da crise financeira global nunca foi revertido. Depois veio o da covid. Esses estímulos prepararam o terreno para o aumento da inflação. Isso foi exacerbado pelas interrupções das cadeias produtivas causadas pela pandemia. Agora, para os EUA, a ideia de que importadores vão absorver as tarifas e não repassar ao consumidor é um conto de fadas. Não estamos começando do nível baixo que estávamos antes da covid. O nível de partida da inflação agora é mais alto. Os EUA, ao contrário de países europeus, não conseguiram reduzir a inflação de volta para perto da meta. Globalmente, estamos nos aproximando mais do modelo de estagflação do que estávamos antes.
O Brasil teve uma economia estagnada por anos. Em 2023 e 2024, cresceu um pouco mais. Mas, agora, está desacelerando. O que o País precisa fazer para que o PIB cresça de forma contínua?
O Brasil está em uma situação muito difícil. Tem um nível de endividamento alto para os padrões dos mercados emergentes, certamente não para os padrões das economias avançadas. Essa dívida é cara, porque as taxas de juros são altas. O Brasil, pelo menos, tem a vantagem de que é uma dívida sobretudo interna. Mas você tem uma combinação de dívida alta, crescimento lento e inflação, que voltou a subir. É uma combinação precária. Você me pergunta o que o país pode fazer. Se apertar as contas fiscais, os efeitos de curto prazo são contracionistas. Mas, se não fizer isso, o prêmio de risco, a moeda, tudo vai refletir a queda da confiança dos investidores no País. Você está pedindo uma bala de prata.
Então qual seria o pacote de medidas para tirar o País dessa situação?
Procurar qualquer tipo de economia fiscal que mitigue os impactos sociais é crucial. Mas a situação em que o Brasil se encontra também é difícil, porque uma boa parte dos gastos não é discricionária. O serviço da dívida consome uma parte, e os programas sociais também. Se não estabilizar a dívida, acho que as apreensões vão continuar. A necessidade de uma política monetária restritiva vai continuar, e isso pode se tornar um ciclo vicioso.
A Argentina fez um ajuste fiscal importante no ano passado. Como avalia o resultado argentino? O Brasil deveria fazer algo semelhante?
Houve muitos cortes, uma redução do tamanho do Estado, sem realmente perder tanto apoio público, o que é bastante único – embora as taxas de pobreza tenham subido inicialmente. Em termos fiscais, o presidente Javier Milei fez o que era preciso, porque a Argentina vinha aumentando constantemente o tamanho do setor público. O país não tinha capacidade de sustentar isso. Mas não acredito na ideia de que a Argentina está salva. A Argentina precisava enfrentar de forma séria os excessos fiscais e as ineficiências que foram incorporados após o fracasso do plano de convertibilidade. Outro enorme problema para a Argentina neste momento é a significativa valorização da moeda.
O Brasil deveria fazer um ajuste semelhante ao argentino?
São situações muito diferentes. O Brasil realmente precisa estabilizar sua dívida. Não há dúvida em relação a isso. Quanto mais a dívida cresce, mais o País será afetado por choques domésticos e internacionais, e mais apreensão haverá, o que acaba impactando o real. Mas eu não faria essa comparação.





