‘Não acredito que o próximo papa seja de linha oposta às realizações de Francisco’, diz especialista


Pontífice argentino, de 88 anos, morreu nesta segunda-feira e deixa legado de mudanças na Igreja Católica

Por Paula Ferreira
Foto: Acervo Pessoal
Entrevista comMonsenhor André Sampaiodoutor em Direito Canônico

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Dos 133 votantes, 108 foram escolhidos durante o papado de Francisco. Veja como é o processo da eleição.

BRASÍLIA - O pontificado do papa Francisco, que morreu aos 88 anos nesta segunda-feira, 21, ficou marcado por reformas, que abriram o caminho para participação mais ampla da sociedade, atenção para os pobres, maior protagonismo das mulheres na Igreja Católica, punição a clérigos acusados de abusos e preocupação ambiental.

Diante dessa ruptura com a postura tradicional do Vaticano, Francisco é visto como um pontífice progressista, para os padrões da Igreja Católica, o que desperta dúvidas sobre qual será o perfil de seu sucessor.

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Em entrevista ao Estadão, o monsenhor André Sampaio, doutor em Direito Canônico, diz que, dificilmente, as reformas promovidas pelo pontífice argentino serão revogadas. “O diálogo foi aberto e continua”, diz, citando o exemplo das mensagens de acolhimento para a população LGBT+.

Apesar disso, o especialista aposta em um perfil moderado para suceder Francisco e diz que a missão para o próximo líder da Santa Sé será promover a paz, em um mundo marcado por conflitos e pela pressão das mudanças climáticas.

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Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Como o papa Francisco deixa a Igreja? Qual seu legado?

O papa Francisco deixou grande legado, uma grande mudança na estrutura eclesial foi promovida por ele no sentido de maior transparência, de compliance, seja na administração dos bens, (seja na condução dos processos). Antigamente, havia a administração feita por vários setores. Agora não: é um setor único que administra economicamente todos os gastos, todos os escritórios dentro do Vaticano. Tem uma mudança administrativa, e essa mudança providencial com relação aos processos, seja a facilitação dos processos matrimoniais ou a clareza nos processos dos abusos (cometidos por religiosos).

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Ele faz essa grande reforma dentro da área jurídica e promove exatamente o que precisávamos muito, que é exatamente a punição daqueles que cometem delitos graves. E aí a gente estaria falando do abuso de menores, das vítimas. Muitas vezes, havia duas posturas. Havia os bispos que realmente não sabiam o que fazer e acabavam só transferindo o problema. E também, lamentavelmente, aqueles que encobriam os fatos, o que é gravíssimo.

Francisco foi o primeiro papa latino-americano. Foto: Andrew Medichini/AP - 17/09/2014

Quais reformas ficaram pendentes?

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Todo processo tem o seu início. Se olharmos a questão do papel da mulher dentro da Igreja e a questão dos abusos, isso já vem sendo discutido com o João Paulo II, em um segundo momento com o Bento XVI e agora com posicionamento mais forte com o Papa Francisco.

O papa Francisco dá início a um processo. Você fazia a curva com bicicleta é fácil, com o carro já é diferente, com caminhão é outra coisa. Agora, com uma locomotiva de 200 vagões, ela já fez a curva, mas ainda tem muito vagão para fazer. Ele inicia um processo que deve ser continuado.

Francisco vai resgatar a possibilidade dos leigos e das mulheres, que não são clérigos, de ter função na Igreja que são funções delegadas. Ou seja, aquela pessoa está realizando em nome do papa.

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Além dessa questão, há tema iniciado por Francisco que agora teremos de esperar para ver os próximos passos?

Ele assume essa espiritualidade franciscana, até pelo próprio nome Francisco. Dentro disso, olha a realidade (da Igreja) como irmãos e irmãs, a grande fraternidade. O Sínodo é um dos processos que precisarão ser levados adiante. O que é o Sínodo? É onde todos devem ser escutados. O papa inaugura uma forma de escuta de toda a Igreja, que é maravilhosa e algo que precisa continuar.

Vai ter padres, professores, especialistas, representantes de comunidades, de comunidade indígena, presença da dimensão ecumênica, a dimensão inter-religiosa, onde todos estão juntos discutindo temas da igreja. Ele inicia essa nova dinâmica.

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Essas mudanças são irreversíveis, ou dependendo do perfil do novo papa, podem ser modificadas?

De forma geral, não seriam modificadas novamente. Poderiam ser readequadas ou repensadas, mas não mais do que isso. Depois que se inicia a caminhada, é difícil voltar.

Não acredito que o próximo papa seja de linha totalmente oposta às realizações do papa Francisco. No máximo, poderíamos ter uma linha mais moderada, no sentido de um momento de reflexão e colocação em ação daquilo que o Francisco nos deixa. Como houve com o papa João XXIII, depois Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

Há uma interpretação de que o papa Francisco liderou uma Igreja dividida - parte enxergava em Bento XVI seu verdadeiro líder. É possível unificar essa Igreja?

Se você está sob a égide do papa, faz parte de uma Igreja una. Agora, nessa Igreja una, ela terá sempre os grupos internos.

Vai ter sempre os mais progressistas, os mais tradicionalistas, os mais moderados, isso faz parte da história da Igreja. O importante é não deixar esse pêndulo cair nem para um lado, e nem para o outro. O caminho do equilíbrio, caminho mediano, esse, sim, pode conciliar todas as duas partes.

O problema é que transformaram isso numa bandeira ideológica contra o papa Francisco. Foge da perspectiva inicial e, digamos assim, daquilo que deveria ser, que é a liturgia.

A Igreja Católica não é uma igreja, ela é 24 igrejas. A igreja latina e mais 23 igrejas orientais. Já na sua composição, a igreja católica é diversidade. E a grande beleza é a diversidade não é a unicidade.

Há ambiente para prosseguir com o diálogo aberto pelo papa Francisco com a comunidade LGBTQIA+?

O diálogo foi aberto, continua. A relação com a comunidade é a relação com o cristão. Todos são bem-vindos. Não é a orientação sexual um impedimento. Quando a Igreja pede algumas coisas, está pedindo não só aos homossexuais, mas também aos heterossexuais. A dimensão da vivência da castidade, dessa entrega a Deus. Ou seja, não é uma norma específica imposta a um grupo X ou Z. É uma solicitação da Igreja a todos. Mas o diálogo continua, sem sombra de dúvidas.

Qual seria o perfil necessário para liderar a Igreja nesse momento?

O novo pontífice deve ser uma pessoa mais moderada, no sentido de acalmar as partes mais exaltadas, seja ela mais progressista, seja mais tradicionalista. Nesse momento, um papa mais moderado, mas que dê continuidade ao legado que Francisco nos deixa, é importante. Alguém que saiba costurar essa grande colcha de retalhos que forma a Igreja.

Francisco conseguiu, de certa forma, aproximar a Igreja Católica da sociedade. Essa característica é fundamental para o próximo papa?

É difícil, porque uma coisa é o ideal e outra é o real. João Paulo II tinha essa postura da proximidade. Depois, temos o papa Bento XVI, que é uma outra característica, era mais tímido, embora cordial do mesmo jeito. Francisco era essa pessoa carismática, que cativava as pessoas. Tantos católicos tinham deixado sua fé e Francisco cativa essas pessoas novamente. É o ideal. Mas também vai depender do próprio caráter daquele que vai assumir essa grande responsabilidade que é governar a Igreja.

Qual será a principal missão do próximo papa em seu pontificado?

Ser instrumento de paz, porque vivemos um mundo com guerras, com conflitos. Um mundo que sofre com as intempéries do clima, com esse desrespeito ao mundo criado.

O papa terá um desafio grande de criar a consciência que precisamos viver em paz e cuidar deste planeta, se não será insuportável a própria vida na face da Terra. Precisamos de paz. Precisamos entender que devemos aprender a viver como irmãos.

O papa fez alterações no Colégio Cardinalício e deu maior representatividade a países que não tinham inserção. De que forma isso pode refletir na escolha do próximo papa e nos rumos da Igreja?

A Igreja Católica é uma igreja universal e abrange todo o planeta. O papa queria que o seu Colégio Cardinalício refletisse isso.

Isso deve ser continuado para que o próprio Colégio Cardinalício possa ajudar o papa a governar a Igreja na sua universalidade. Isso traz a pluralidade das culturas, dos pensamentos, para o debate dentro da própria Igreja. É extremamente importante.

Quem o senhor acha que é o favorito para suceder o papa Francisco?

Todos aqueles que entram papáveis saem cardeais. É até melhor que o nome nem apareça muito. Aí esse sim, provavelmente, é o melhor candidato.

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BRASÍLIA - O pontificado do papa Francisco, que morreu aos 88 anos nesta segunda-feira, 21, ficou marcado por reformas, que abriram o caminho para participação mais ampla da sociedade, atenção para os pobres, maior protagonismo das mulheres na Igreja Católica, punição a clérigos acusados de abusos e preocupação ambiental.

Diante dessa ruptura com a postura tradicional do Vaticano, Francisco é visto como um pontífice progressista, para os padrões da Igreja Católica, o que desperta dúvidas sobre qual será o perfil de seu sucessor.

Em entrevista ao Estadão, o monsenhor André Sampaio, doutor em Direito Canônico, diz que, dificilmente, as reformas promovidas pelo pontífice argentino serão revogadas. “O diálogo foi aberto e continua”, diz, citando o exemplo das mensagens de acolhimento para a população LGBT+.

Apesar disso, o especialista aposta em um perfil moderado para suceder Francisco e diz que a missão para o próximo líder da Santa Sé será promover a paz, em um mundo marcado por conflitos e pela pressão das mudanças climáticas.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Como o papa Francisco deixa a Igreja? Qual seu legado?

O papa Francisco deixou grande legado, uma grande mudança na estrutura eclesial foi promovida por ele no sentido de maior transparência, de compliance, seja na administração dos bens, (seja na condução dos processos). Antigamente, havia a administração feita por vários setores. Agora não: é um setor único que administra economicamente todos os gastos, todos os escritórios dentro do Vaticano. Tem uma mudança administrativa, e essa mudança providencial com relação aos processos, seja a facilitação dos processos matrimoniais ou a clareza nos processos dos abusos (cometidos por religiosos).

Ele faz essa grande reforma dentro da área jurídica e promove exatamente o que precisávamos muito, que é exatamente a punição daqueles que cometem delitos graves. E aí a gente estaria falando do abuso de menores, das vítimas. Muitas vezes, havia duas posturas. Havia os bispos que realmente não sabiam o que fazer e acabavam só transferindo o problema. E também, lamentavelmente, aqueles que encobriam os fatos, o que é gravíssimo.

Francisco foi o primeiro papa latino-americano. Foto: Andrew Medichini/AP - 17/09/2014

Quais reformas ficaram pendentes?

Todo processo tem o seu início. Se olharmos a questão do papel da mulher dentro da Igreja e a questão dos abusos, isso já vem sendo discutido com o João Paulo II, em um segundo momento com o Bento XVI e agora com posicionamento mais forte com o Papa Francisco.

O papa Francisco dá início a um processo. Você fazia a curva com bicicleta é fácil, com o carro já é diferente, com caminhão é outra coisa. Agora, com uma locomotiva de 200 vagões, ela já fez a curva, mas ainda tem muito vagão para fazer. Ele inicia um processo que deve ser continuado.

Francisco vai resgatar a possibilidade dos leigos e das mulheres, que não são clérigos, de ter função na Igreja que são funções delegadas. Ou seja, aquela pessoa está realizando em nome do papa.

Além dessa questão, há tema iniciado por Francisco que agora teremos de esperar para ver os próximos passos?

Ele assume essa espiritualidade franciscana, até pelo próprio nome Francisco. Dentro disso, olha a realidade (da Igreja) como irmãos e irmãs, a grande fraternidade. O Sínodo é um dos processos que precisarão ser levados adiante. O que é o Sínodo? É onde todos devem ser escutados. O papa inaugura uma forma de escuta de toda a Igreja, que é maravilhosa e algo que precisa continuar.

Vai ter padres, professores, especialistas, representantes de comunidades, de comunidade indígena, presença da dimensão ecumênica, a dimensão inter-religiosa, onde todos estão juntos discutindo temas da igreja. Ele inicia essa nova dinâmica.

Essas mudanças são irreversíveis, ou dependendo do perfil do novo papa, podem ser modificadas?

De forma geral, não seriam modificadas novamente. Poderiam ser readequadas ou repensadas, mas não mais do que isso. Depois que se inicia a caminhada, é difícil voltar.

Não acredito que o próximo papa seja de linha totalmente oposta às realizações do papa Francisco. No máximo, poderíamos ter uma linha mais moderada, no sentido de um momento de reflexão e colocação em ação daquilo que o Francisco nos deixa. Como houve com o papa João XXIII, depois Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

Há uma interpretação de que o papa Francisco liderou uma Igreja dividida - parte enxergava em Bento XVI seu verdadeiro líder. É possível unificar essa Igreja?

Se você está sob a égide do papa, faz parte de uma Igreja una. Agora, nessa Igreja una, ela terá sempre os grupos internos.

Vai ter sempre os mais progressistas, os mais tradicionalistas, os mais moderados, isso faz parte da história da Igreja. O importante é não deixar esse pêndulo cair nem para um lado, e nem para o outro. O caminho do equilíbrio, caminho mediano, esse, sim, pode conciliar todas as duas partes.

O problema é que transformaram isso numa bandeira ideológica contra o papa Francisco. Foge da perspectiva inicial e, digamos assim, daquilo que deveria ser, que é a liturgia.

A Igreja Católica não é uma igreja, ela é 24 igrejas. A igreja latina e mais 23 igrejas orientais. Já na sua composição, a igreja católica é diversidade. E a grande beleza é a diversidade não é a unicidade.

Há ambiente para prosseguir com o diálogo aberto pelo papa Francisco com a comunidade LGBTQIA+?

O diálogo foi aberto, continua. A relação com a comunidade é a relação com o cristão. Todos são bem-vindos. Não é a orientação sexual um impedimento. Quando a Igreja pede algumas coisas, está pedindo não só aos homossexuais, mas também aos heterossexuais. A dimensão da vivência da castidade, dessa entrega a Deus. Ou seja, não é uma norma específica imposta a um grupo X ou Z. É uma solicitação da Igreja a todos. Mas o diálogo continua, sem sombra de dúvidas.

Qual seria o perfil necessário para liderar a Igreja nesse momento?

O novo pontífice deve ser uma pessoa mais moderada, no sentido de acalmar as partes mais exaltadas, seja ela mais progressista, seja mais tradicionalista. Nesse momento, um papa mais moderado, mas que dê continuidade ao legado que Francisco nos deixa, é importante. Alguém que saiba costurar essa grande colcha de retalhos que forma a Igreja.

Francisco conseguiu, de certa forma, aproximar a Igreja Católica da sociedade. Essa característica é fundamental para o próximo papa?

É difícil, porque uma coisa é o ideal e outra é o real. João Paulo II tinha essa postura da proximidade. Depois, temos o papa Bento XVI, que é uma outra característica, era mais tímido, embora cordial do mesmo jeito. Francisco era essa pessoa carismática, que cativava as pessoas. Tantos católicos tinham deixado sua fé e Francisco cativa essas pessoas novamente. É o ideal. Mas também vai depender do próprio caráter daquele que vai assumir essa grande responsabilidade que é governar a Igreja.

Qual será a principal missão do próximo papa em seu pontificado?

Ser instrumento de paz, porque vivemos um mundo com guerras, com conflitos. Um mundo que sofre com as intempéries do clima, com esse desrespeito ao mundo criado.

O papa terá um desafio grande de criar a consciência que precisamos viver em paz e cuidar deste planeta, se não será insuportável a própria vida na face da Terra. Precisamos de paz. Precisamos entender que devemos aprender a viver como irmãos.

O papa fez alterações no Colégio Cardinalício e deu maior representatividade a países que não tinham inserção. De que forma isso pode refletir na escolha do próximo papa e nos rumos da Igreja?

A Igreja Católica é uma igreja universal e abrange todo o planeta. O papa queria que o seu Colégio Cardinalício refletisse isso.

Isso deve ser continuado para que o próprio Colégio Cardinalício possa ajudar o papa a governar a Igreja na sua universalidade. Isso traz a pluralidade das culturas, dos pensamentos, para o debate dentro da própria Igreja. É extremamente importante.

Quem o senhor acha que é o favorito para suceder o papa Francisco?

Todos aqueles que entram papáveis saem cardeais. É até melhor que o nome nem apareça muito. Aí esse sim, provavelmente, é o melhor candidato.

Seu navegador não suporta esse video.

Dos 133 votantes, 108 foram escolhidos durante o papado de Francisco. Veja como é o processo da eleição.

BRASÍLIA - O pontificado do papa Francisco, que morreu aos 88 anos nesta segunda-feira, 21, ficou marcado por reformas, que abriram o caminho para participação mais ampla da sociedade, atenção para os pobres, maior protagonismo das mulheres na Igreja Católica, punição a clérigos acusados de abusos e preocupação ambiental.

Diante dessa ruptura com a postura tradicional do Vaticano, Francisco é visto como um pontífice progressista, para os padrões da Igreja Católica, o que desperta dúvidas sobre qual será o perfil de seu sucessor.

Em entrevista ao Estadão, o monsenhor André Sampaio, doutor em Direito Canônico, diz que, dificilmente, as reformas promovidas pelo pontífice argentino serão revogadas. “O diálogo foi aberto e continua”, diz, citando o exemplo das mensagens de acolhimento para a população LGBT+.

Apesar disso, o especialista aposta em um perfil moderado para suceder Francisco e diz que a missão para o próximo líder da Santa Sé será promover a paz, em um mundo marcado por conflitos e pela pressão das mudanças climáticas.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Como o papa Francisco deixa a Igreja? Qual seu legado?

O papa Francisco deixou grande legado, uma grande mudança na estrutura eclesial foi promovida por ele no sentido de maior transparência, de compliance, seja na administração dos bens, (seja na condução dos processos). Antigamente, havia a administração feita por vários setores. Agora não: é um setor único que administra economicamente todos os gastos, todos os escritórios dentro do Vaticano. Tem uma mudança administrativa, e essa mudança providencial com relação aos processos, seja a facilitação dos processos matrimoniais ou a clareza nos processos dos abusos (cometidos por religiosos).

Ele faz essa grande reforma dentro da área jurídica e promove exatamente o que precisávamos muito, que é exatamente a punição daqueles que cometem delitos graves. E aí a gente estaria falando do abuso de menores, das vítimas. Muitas vezes, havia duas posturas. Havia os bispos que realmente não sabiam o que fazer e acabavam só transferindo o problema. E também, lamentavelmente, aqueles que encobriam os fatos, o que é gravíssimo.

Francisco foi o primeiro papa latino-americano. Foto: Andrew Medichini/AP - 17/09/2014

Quais reformas ficaram pendentes?

Todo processo tem o seu início. Se olharmos a questão do papel da mulher dentro da Igreja e a questão dos abusos, isso já vem sendo discutido com o João Paulo II, em um segundo momento com o Bento XVI e agora com posicionamento mais forte com o Papa Francisco.

O papa Francisco dá início a um processo. Você fazia a curva com bicicleta é fácil, com o carro já é diferente, com caminhão é outra coisa. Agora, com uma locomotiva de 200 vagões, ela já fez a curva, mas ainda tem muito vagão para fazer. Ele inicia um processo que deve ser continuado.

Francisco vai resgatar a possibilidade dos leigos e das mulheres, que não são clérigos, de ter função na Igreja que são funções delegadas. Ou seja, aquela pessoa está realizando em nome do papa.

Além dessa questão, há tema iniciado por Francisco que agora teremos de esperar para ver os próximos passos?

Ele assume essa espiritualidade franciscana, até pelo próprio nome Francisco. Dentro disso, olha a realidade (da Igreja) como irmãos e irmãs, a grande fraternidade. O Sínodo é um dos processos que precisarão ser levados adiante. O que é o Sínodo? É onde todos devem ser escutados. O papa inaugura uma forma de escuta de toda a Igreja, que é maravilhosa e algo que precisa continuar.

Vai ter padres, professores, especialistas, representantes de comunidades, de comunidade indígena, presença da dimensão ecumênica, a dimensão inter-religiosa, onde todos estão juntos discutindo temas da igreja. Ele inicia essa nova dinâmica.

Essas mudanças são irreversíveis, ou dependendo do perfil do novo papa, podem ser modificadas?

De forma geral, não seriam modificadas novamente. Poderiam ser readequadas ou repensadas, mas não mais do que isso. Depois que se inicia a caminhada, é difícil voltar.

Não acredito que o próximo papa seja de linha totalmente oposta às realizações do papa Francisco. No máximo, poderíamos ter uma linha mais moderada, no sentido de um momento de reflexão e colocação em ação daquilo que o Francisco nos deixa. Como houve com o papa João XXIII, depois Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI.

Há uma interpretação de que o papa Francisco liderou uma Igreja dividida - parte enxergava em Bento XVI seu verdadeiro líder. É possível unificar essa Igreja?

Se você está sob a égide do papa, faz parte de uma Igreja una. Agora, nessa Igreja una, ela terá sempre os grupos internos.

Vai ter sempre os mais progressistas, os mais tradicionalistas, os mais moderados, isso faz parte da história da Igreja. O importante é não deixar esse pêndulo cair nem para um lado, e nem para o outro. O caminho do equilíbrio, caminho mediano, esse, sim, pode conciliar todas as duas partes.

O problema é que transformaram isso numa bandeira ideológica contra o papa Francisco. Foge da perspectiva inicial e, digamos assim, daquilo que deveria ser, que é a liturgia.

A Igreja Católica não é uma igreja, ela é 24 igrejas. A igreja latina e mais 23 igrejas orientais. Já na sua composição, a igreja católica é diversidade. E a grande beleza é a diversidade não é a unicidade.

Há ambiente para prosseguir com o diálogo aberto pelo papa Francisco com a comunidade LGBTQIA+?

O diálogo foi aberto, continua. A relação com a comunidade é a relação com o cristão. Todos são bem-vindos. Não é a orientação sexual um impedimento. Quando a Igreja pede algumas coisas, está pedindo não só aos homossexuais, mas também aos heterossexuais. A dimensão da vivência da castidade, dessa entrega a Deus. Ou seja, não é uma norma específica imposta a um grupo X ou Z. É uma solicitação da Igreja a todos. Mas o diálogo continua, sem sombra de dúvidas.

Qual seria o perfil necessário para liderar a Igreja nesse momento?

O novo pontífice deve ser uma pessoa mais moderada, no sentido de acalmar as partes mais exaltadas, seja ela mais progressista, seja mais tradicionalista. Nesse momento, um papa mais moderado, mas que dê continuidade ao legado que Francisco nos deixa, é importante. Alguém que saiba costurar essa grande colcha de retalhos que forma a Igreja.

Francisco conseguiu, de certa forma, aproximar a Igreja Católica da sociedade. Essa característica é fundamental para o próximo papa?

É difícil, porque uma coisa é o ideal e outra é o real. João Paulo II tinha essa postura da proximidade. Depois, temos o papa Bento XVI, que é uma outra característica, era mais tímido, embora cordial do mesmo jeito. Francisco era essa pessoa carismática, que cativava as pessoas. Tantos católicos tinham deixado sua fé e Francisco cativa essas pessoas novamente. É o ideal. Mas também vai depender do próprio caráter daquele que vai assumir essa grande responsabilidade que é governar a Igreja.

Qual será a principal missão do próximo papa em seu pontificado?

Ser instrumento de paz, porque vivemos um mundo com guerras, com conflitos. Um mundo que sofre com as intempéries do clima, com esse desrespeito ao mundo criado.

O papa terá um desafio grande de criar a consciência que precisamos viver em paz e cuidar deste planeta, se não será insuportável a própria vida na face da Terra. Precisamos de paz. Precisamos entender que devemos aprender a viver como irmãos.

O papa fez alterações no Colégio Cardinalício e deu maior representatividade a países que não tinham inserção. De que forma isso pode refletir na escolha do próximo papa e nos rumos da Igreja?

A Igreja Católica é uma igreja universal e abrange todo o planeta. O papa queria que o seu Colégio Cardinalício refletisse isso.

Isso deve ser continuado para que o próprio Colégio Cardinalício possa ajudar o papa a governar a Igreja na sua universalidade. Isso traz a pluralidade das culturas, dos pensamentos, para o debate dentro da própria Igreja. É extremamente importante.

Quem o senhor acha que é o favorito para suceder o papa Francisco?

Todos aqueles que entram papáveis saem cardeais. É até melhor que o nome nem apareça muito. Aí esse sim, provavelmente, é o melhor candidato.

Entrevista por Paula Ferreira

Repórter de políticas públicas em Brasília, atua na cobertura de temas relacionados a Educação, Meio Ambiente, Saúde e Segurança. Graduada em jornalismo e mestre em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi vencedora do Prêmio Esso 2015 na categoria "Educação". Trabalhou no jornal O Globo, SBT e Band.

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