A frase era sugerida por dona Mariola, nossa professora de Português naquelas manhãs luminosas de Juiz de Fora dos anos 1950. “A saudade vence o tempo”, repetia, olhando nossos olhos arregalados. “Ah... a saudade”, reiterava nostálgica, em voz alta, esgarçando cada sílaba, imitando a extraordinária máquina verbal que anunciava.
A saudade traz o tempo de volta e, com ele, comidas, lugares e, sobretudo, nossos seres amados que se foram ou estão longe de nós. Alguém perguntou: “Mas é possível sentir saudade da saudade?”.
D. Mariola disse que sim. Vocês, um dia, vão sentir o poder dessa palavra que só existe na língua portuguesa.
Precisei de uma especialização em Etnologia Indígena no Museu Nacional, um doutorado em Harvard, muito estudo sobre a cosmologia brasileira, e uma saudável velhice para entender que a nossa professora revelava as propriedades de uma palavra que o filósofo de Oxford, John Austin, classificou como performativa. Uma palavra capaz de fazer ou produzir coisas, tal como um xingamento, um grito de socorro, um juramento, um perdão, uma bênção ou uma declaração de amor, expressões que produzem, provam e estabelecem papéis e estados sociais críticos e irreversíveis.
Fui um jovem ambicioso que buscava uma carreira como pesquisador em Etnologia Indígena, profissão que me levou a viver com indígenas, correndo riscos caso sofresse um acidente. Mas os jovens não morrem e possuem a mais absoluta certeza de que nada vai lhes acontecer. Não têm saudade, porque estão repletos de um futuro inibidor dos seus micropassados.
Mas, quando me ausentava da família, sentia saudade e, por meio da saudade, consolava a minha solidão e a das pessoas amadas. A saudade dos jovens é quase mortal quando se apaixonam. A dos velhos, que sabem que vão morrer e não têm futuro porque, paradoxalmente, estão nos seus futuros, é aquilo que Joaquim Nabuco chamou de solidão, essa dimensão capital da saudade.
O encanto da palavra confirma as ausências, as distâncias e as frustrações, permitindo preencher e, ao mesmo tempo, confirmar essa imensa falta, porque, quando falamos “estou sentindo saudade”, comprovamos o nosso profundo amor por alguma coisa ou alguém.
E, se falamos em saudade para outro falante de português, imediatamente o fazemos reflexivos e solidários, pois não há quem não tenha saudade dos pais, irmãos, mulher, filhos, amigos, lugares, comidas, gostos e de tudo o que faz com que a vida e o viver tenham o cerco amoroso da saudade…
PS: Escrevi um ensaio acadêmico sobre a saudade no livro Conta de Mentiroso: Sete Ensaios de Antropologia Brasileira, publicado pela Rocco, em 1993.