Ramiro teve um grave AVC. Seu corpo, que operava elástico e fagueiro como a economia mundial, sofreu de repente um Trump! Um tranco causado por uma arrogante, mas mandatória, isquemia num circuito cerebral. Era, como bem disse com sobriedade um amigo comum, a tarifa cobrada pelo seu estilo de vida perdulário, adúltero e beberrão.
Estamos todos solidários com o isquêmico Ramiro que, com o lado esquerdo do corpo paralisado, depende do direito – cuja direção mais burra é o golpismo em nome da ordem –, que o obriga a dele servir-se para realizar as mais ordinárias tarefas da vida. Foi quando, humilde, verificou que os dois lados tinham de se entender.
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Hoje, encontrei Ramiro na desprezada academia que passou a ser parte de sua vida, especialmente depois que trocou Lucinha, mãe sessentona dos seus quatro filhos, pela sua magnífica terapeuta, Barbarela, com seus esplendorosos e sarados 20 e poucos anos.
Na mesma academia, verifiquei que ali havia uma multidão de “Ramiros”. Todos ricos, barriga-barril, bufando obedientes sob os comandos implacáveis dos seus fisioterapeutas. Todos estavam acompanhados de suas jovens esposas que eu, invejoso, olhava testemunhando a dificuldade que temos quando enfrentamos inimigos poderosos como a preguiça, o gosto pelo vinho, a boa comida, o sexo que demanda exatidão e, no lamentável contexto político atual, o quinta-colunismo bolsonarista, que convenceu Trump a intervir abusadamente no nosso Judiciário, e, nele, absurdamente atingir um ministro cuja coragem se compara – e digo isso sem medo de ser ofensivo – à do Ramiro e de quantos têm o destemor de enfrentar as sequelas de um irado acidente vascular trumpista.
Aqueles gordinhos estavam ajustando suas tarifas a um imaginário Donald Trump. Foi pelo menos isso que me apontou o dr. Preguinho, especialista em falar da vida alheia, que frequenta a mesma academia. Entre o espaldar e a esteira, fiz religiosamente flexões e uma dolorosa escalada aeróbica tão abusivas quanto o momento em que vivemos.
Avaliei uns três barrigudos penando para pagar tarifaços às suas jovens e trumpemente impassíveis esposas, as quais evitavam olhar seus consortes sem nenhum poder de barganha diante dos descuidos, protelações, populismos e malfeitos a que haviam submetido seus corpos. Bufavam e, quase sempre, matavam os exercícios com o acordo tácito dos seus fisioterapeutas que, conforme observou o dr. Preguinho, lembravam a escravidão.
Fiz o que pude. Paguei minhas tarifas e entendi como é abusivo e intolerável viver num universo dominado pelo trumpismo – esse AVC político-patológico que acomete o globo por intercessão do poderio obsceno dos Estados Unidos da América.