Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Coluna semanal do antropólogo Roberto DaMatta com reflexões sobre o Brasil

Trumpismo associado ao bolsonarismo é a onipotência somada à incapacidade política

O resultado é desastroso: um dos piores momentos de nossa história política

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Foto do autor Roberto DaMatta

Essas crises que penosamente vivemos no plano global e nacional decorrem do nosso infindável inacabamento institucional. Somos uma democracia tocada a conflitos de interesse e com leis e instituições relativizadas por quem as controla. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

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A democracia, como mostra o desastre Donald Trump, é, sem dúvida, o regime político mais complexo, porque exige responsabilidade e convicção de todos os membros da sociedade.

Coisa difícil de acontecer ao lado dessa invisível revolução mundial de burrice denunciada por Nelson Rodrigues. Distúrbio que, ao lado do quinta-colunismo dos Bolsonaros, associados a um presidente americano cuja arrogância o impele a usar instrumentos fiscais para criar uma guerra financeira mundial, interfere na nossa soberania.

Jair Bolsonaro e Donald Trump em encontro nos EUA, em 2019 Foto: Alan Santos/Presidência da República

O ideal do golpe dentro das quatro linhas de Bolsonaro tem a mesma irracionalidade da pressão de Trump julgando o STF, ignorando que as manobras golpistas de Bolsonaro eram racionalizadas pelo entendimento de que Lula teria sido injustamente inocentado e ilegalmente eleito.

Peço vênia para lembrar que somos o resultado de um império escravocrata e de repúblicas proclamadas no papel, mas sem nenhuma ética de cidadania. O resultado é esse republicanismo personalista, sem fidelidade ao País, incapaz de escapar dos radicalismos porque é permanentemente relativizado por conflitos entre interesses patrióticos e familismos.

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A moeda desse sistema é o dar-receber-e-retribuir, que promove constantes absurdos jurídicos e obriga a um permanente remendo de regras institucionais. É justamente o descrédito da universalidade da lei que explica a corrupção funcional e transforma o campo político num instrumento de enriquecimento. Hoje, isso se soma ao patológico intervencionismo trumpista, disposto a transformar o Brasil num inimigo.

Os bolsonaristas que não aceitam Lula conseguiram, com o seu quinta-colunismo, colocar Lula e o PT como defensores da honra nacional.

Em resumo, estamos enfiados numa crise que ultrapassa os nossos velhos obstáculos. Pois diante do trumpismo ao lado do bolsonarismo, temos um somatório de onipotência e incapacidade política que ultrapassa os piores momentos de nossa história política.

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Temos conflito porque não é rotina julgar um presidente que planejava dar um golpe dentro das quatro linhas, tendo como contraponto um presidente que foi condenado e não abandonou seus ideais utópicos de nivelar a riqueza pelo método Robin Hood e não por educação, saneamento e boa governabilidade.

Sem entender que o conflito de interesse é uma dimensão fundamental das democracias, vamos vivendo com esses vergonhosos dilemas e conflitos.

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Opinião por Roberto DaMatta

É antropólogo social, escritor e autor de 'Fila e Democracia'