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O ator e roteirista dirigiu 'Chico Anysio: um Homem à Procura de um Personagem', que estreia no Globoplay
É significativo notar agora, em 2025, que o primeiro programa solo de Chico Anysio na TV Globo, em 1973, tinha o nome de Chico City - Cidade do Chico, em uma livre tradução. Microcosmo do Brasil, era a cidade na qual Chico interpretava seus inúmeros personagens, como o prefeito populista e corrupto Valfrido Canavieira ou o famoso Pantaleão, o maior mentiroso do Brasil. Isso sem falar no Setembrino, vulgo Esquerdinha, redator do jornal de oposição.
Esses e outros tipos criados por Chico - são 209 ao todo, segundo contagem do próprio humorista - estão na série documental Chico Anysio: um Homem à Procura de um Personagem, que chega ao Globoplay em cinco episódios nesta quinta-feira, 25.
Dirigido pelo ator e roteirista Bruno Mazzeo, um dos oito filhos de Chico, o documentário, mais do que elencar personagens inesquecíveis para todo uma geração, vai fundo na vida e carreira de Chico, com narrativa em ordem cronológica. Há menções à infância do humorista em Maranguape, na região metropolitana de Fortaleza, às surras que ele levava do irmão mais velho, ainda pequeno, e aos primeiros anos no Rio de Janeiro, junto à família, de dificuldades.
Os passos iniciais no rádio, como ator, foram ao lado de Fernanda Montenegro, que dá depoimento profundo sobre o homenageado e os tempos da Rádio Guanabara. É dela a principal definição sobre o tipo de humor feito por Chico: “conscientiza politica e socialmente, mas sem o cansaço do discurso”.
“Essa foi a bandeira do humor de Chico Anysio. Ele falava que o humor que ele fazia sempre foi a favor do pobre, do preto, do nordestino. E que o rico no programa dele só fazia papel de ridículo”, reforça Bruno, em conversa com o Estadão.
O documentário traz, por empenho de Mazzeo, outros tantos nomes que viveram intimamente com Chico, como o diretor Daniel Filho e o ex-vice-presidente de operações da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, além de filhos e ex-esposas.
Mazzeo também aborda a depressão que atingiu Chico Anysio durante muitos anos de sua vida, mas que nunca o tirou dos palcos de teatro ou da frente das câmeras. Com o documentário, Mazzeo diz que finaliza uma trilogia involuntária que começou com o remake de A Escolinha do Professor Raimundo e teve ainda a peça Gostava Mais dos Pais, que faz com Lucio Mauro Filho. . “Uma trilogia de humor e amor!”, diz
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O Chico Anysio morreu há 13 anos. Se contarmos o tempo que ele ficou fora da TV antes de morrer, já há uma geração que talvez não o conheça. A série tem essa função de apresentá-lo?
Sabe algo que pode acontecer muito? Pessoas que assistiam ao Chico Anysio quererem mostrar o documentário para seus filhos. Porque Chico Anysio é muito parte do imaginário popular. Digo isso porque saio à ruas e as pessoas que me reconhecem vêm falar comigo sobre ele, muito, diariamente. Seja o cara do Uber, seja um cara que encontro no elevador, seja em uma sala de espera. Vejo isso também com a peça que faço com o Lucinho (Lucio Mauro Filho, filho do comediante Lucio Mauro, parceiro de Chico), Eu Gostava Mais dos Pais. Pessoas que vão assistir e levam os filhos. Ou, pessoas mais novas que vão e depois levam os pais. Então, sim, o documentário pode ter essa potência. E, mesmo as pessoas que conhecem a trajetória do Chico, vão conhecer outro lado ou vão olhá-lo mais profundamente. É um documentário para agradar gregos e baianos.
Você sentiu que tinha a responsabilidade de fazer o documentário?
Não senti um peso. E nem acho que seja um documentário definitivo Eu, como filho, só poderia tê-lo feito dessa maneira. Sendo filho do protagonista, não poderia olhá-lo com um olhar de jornalista. Por outro lado, se eu fosse fazer um documentário sobre o Jô Soares, que eu amo, sou fã, não saberia entrar em certos detalhes por não ser filho dele. Há algo que só percebi já no processo de finalização: eu fiz uma trilogia sobre meu pai na minha carreira e, consequentemente, na minha vida. Ou o contrário. Fiz [o remake] da Escolinha, a peça com o Lucinho e, agora, o documentário. Uma trilogia de humor e amor!
A questão da herança do Chico, do dinheiro, em um primeiro momento, após a morte dele, virou assunto dominante. Acha que agora, com a série, isso, de alguma maneira, se assenta?
O que mostramos é a relação dele com o dinheiro, que é muito interessante. O que ele fez com o dinheiro, por que ele morreu sem deixar bens. Essa é uma reflexão sobre a personalidade dele. O homem por trás daquele cara que crescemos assistindo. A série tem essa capacidade, a partir do momento em que só ouve pessoas que o conheceram profundamente. Sejam parentes - todos os meus irmãos, meus primos, meu único tio vivo [o cineasta Zelito Viana] - ou amigos que trabalharam com ele. O Boni, por exemplo, trabalhou com ele, depois foi chefe dele, mas foi, sobretudo, amigo. Eles se conheceram tomando chopp e chegaram a morar juntos em um momento de divórcios simultâneos. Isso dá riqueza ao documentário.
Uma pergunta bastante clichê, mas pertinente: qual o seu personagem favorito dele?
Antes, eu dizia com muita certeza qual era o meu preferido. Depois de me aprofundar para fazer o documentário, eu tenho que fazer um grupinho deles. Para te dizer um: o Justo Veríssimo. Um deputado, um personagem muito atual, que só pensa em pobre na época das eleições e, depois que se elege, é “quero que o pobre se exploda!”. É um personagem que nesse Congresso que temos atualmente estaria voando, não só nas telas, como no próprio Congresso. O Chico Anysio introduziu a humanidade no humor. Os personagens dele não eram caricaturas. Eram de carne e osso e de alma. Reconhecíveis dentro da sociedade. O malandro como o Azambuja existe no subúrbio do Rio de Janeiro até hoje. Assim como existe o Justo Veríssimo em Brasília. Assim como existem os [pastor que passava a sacolinha] Tim Tones. Ou o [pai de santo] Painho. Há muitos na Bahia. Ou o [ator canastrão] Alberto Roberto dentro da dramaturgia. De vez em quando, vou contracenar com alguém e penso: olha o Alberto Roberto aí! (risos).
Você acha que, em vida, conheceu o Chico além dos personagens dele? Isso, de alguma maneira, se confundia na sua cabeça?
Eu e meu pai nos conhecemos profundamente. Éramos muito próximos. O que ocorre é que com o documentário eu pude me aprofundar mais ou conhecer outros olhares sobre ele. Se meu pai dava uma entrevista de duas páginas para o Estadão e falava sobre infância, início de carreira e Maranguape, eu lia e não tinha mais o porquê perguntar a ele sobre esses temas. Já estava respondido. Agora, com o documentário, eu tive que perguntar a outras pessoas: “Será que é isso mesmo?” ou “O que ele quis dizer com isso?”. Pude ver também que as opiniões sobre ele não são precisas. Cada pessoa conheceu um Chico Anysio diferente, até mesmo eu em relação aos meus irmãos.
E o Chico? Se compreendeu? Ou os personagens ficaram maior do que ele?
Não sei. O título do documentário é justamente Chico Anysio: um Homem à Procura de um Personagem. Chico Anysio foi, realmente, muitos. Em todos os sentidos. Muitos personagens, muitos casamentos, muitos filhos, mudanças de time, muitas mudanças de casas, mudava de opiniões. Será que ele estava se buscando em tantos personagens ou simplesmente ele era muitos mesmo? Ele fez uma opção de ser muitos. E viveu com a dor e a delícia de ser o que é.
Daniel Filho diz no documentário que, talvez, os seis casamentos que Chico teve fosse uma busca por um personagem perfeito. Concorda com essa reflexão?
Daniel o conheceu profundamente. Chico, realmente, era um cara sempre em busca de algo.
O documentário aborda a depressão do Chico. Ele foi em busca de uma possível causa, se colocou no divã?
Ele tratava com psiquiatra, tomava remédios. E falou muito sobre o assunto em congressos de psiquiatra. Era uma bandeira que ele gostava de levantar e que ele gostaria que abordássemos na série. Assim como em seus personagens, nos quais ele buscava as questões sociais e a denúncia para ajudar as pessoas, ele achava que, ao falar sobre a doença, também iria ajudar as pessoas que sofriam de depressão ou alertar quem convivia com deprimidos e não dava importância para a doença.
Mas você acha que ele entendeu essa aparente contradição de ser um comediante deprimido?
Acho que ele simplesmente convivia com isso. Era o default [padrão] dele. É uma impressão minha. A depressão dele durou muitos anos. Ele aprendeu a lidar com ela. Tanto que ele nunca parou de trabalhar ou tentou o suicídio. A vida dele fluiu normalmente. Ele nunca foi ausente em questões de trabalho ou de família. A depressão era algo que ele matava no peito e encarava.
Há a frase do [ator] Paulo César Pereio que compara Chico a um médium. O Chico acreditava mesmo em algo sobrenatural ou a composição dos personagens era puro e árduo trabalho?
Foi uma pena não termos gravado com o Pereio [o ator morreu em 2024]. Sempre ouvi meu pai falar isso, mas queria ter ouvido do próprio Pereio. Para meu pai, era muito fácil [compor os personagens]. Nunca vi meu pai em casa, em frente ao espelho, estudando a voz, os gestos. Eu o vi criando profundamente, procurando saber quem era o personagem, onde ele morava, qual o passado dele - algo que fazemos em dramaturgia. A partir daí, era muito simples. Ele tinha algumas perucas, colocava e a voz já vinha junto. Então, tem algo muito da técnica, da prática, mas também algo além disso. Ou um dom muito forte para fazer isso 200 vezes, de 200 maneiras diferentes. Meu pai gostava da frase do Pereio. Repare que ele dizia: “Pode ser que tenha algo mesmo...” (risos).
Essa frase é um pouco injusta para alguém tão talentoso...
Pois é. Chico Anysio era tão múltiplo que a definição sobre como ele criava um personagem não podia ser uma só.
Você é ator e roteirista. Seus irmãos Nizo [Netto], Lug [De Paula] e André Lucas são atores. O outro irmão, Rico [Rondeli], é diretor de imagem. Todos na TV, uma das principais casas do Chico. Ele era exigente com vocês na questão profissional?
Não. Comigo, pelo menos, não. O que mais ele nos passava era a questão do profissionalismo. Não pode atrasar, tem que chegar com o texto decorado, tem que tratar todo mundo igual no set. Quando eu fui fazer [a série] Cilada, eu não quis mostrar nada para ele, por uma coisa minha, daquele momento de vida. Queria que ele visse no ar, junto com o público. Foi algo como “mata teu pai!”. Ele ficou triste, naturalmente. Depois, entendeu. E, quando veio fazer as observações dele, foi muito respeitoso, como sempre foi nessas situações. Nunca impunha nada. Agora, no trabalho, ele era, sim, muito exigente com todos os profissionais.
É muito interessante o depoimento de Fernanda Montenegro. Além de analisar o Chico de maneira formidável, ela o coloca como grande ator, lado a lado dela. E os humoristas muitas vezes não são vistos como grandes atores. O quanto foi importante o depoimento dela para marcar a grandeza do Chico?
A Fernanda falando é poesia pura. E há esse fato muito curioso: ela e meu pai começaram juntos, com 18 anos. Até hoje ela fala para mim: “Eu me lembro do seu pai de calças curtas!”. Imagina esses dois jovens juntos, sonhando, em busca de chegar a um lugar que eles não sabiam exatamente onde era. A Fernanda conta como era o olhar dele. É um depoimento maravilhoso, de uma das primeiras pessoas com quem ele trabalhou.
Fernanda também fala sobre como Chico, por meio de seus personagens, conscientiza politica e socialmente, mas sem o que ela chama de “o cansaço do discurso”. Como era essa questão para ele?
A questão social era o fato principal do trabalho do Chico Anysio. Ele não cansava com o discurso porque não fazia um humor político. Por isso, inclusive, que ele passou pela ditadura com alguns incômodos, claro, mas sem ter sido preso. Ele não falava sobre o general, mas sim sobre o preço da carne, da inflação, do desemprego. Sobre fatos que assolavam a sociedade. Essa foi a bandeira do humor dele. Ele falava que o humor que ele fazia sempre foi a favor do pobre, do preto, do nordestino. E que o rico no programa dele só fazia papel de ridículo. No documentário, ilustramos essa fala com o Justo Veríssimo, personagem que veio depois da abertura [política]. Foi quando ele fez também a Salomé, que conversava com o presidente [João] Figueiredo e dava bronca semanalmente no general, ainda na ditadura. Não era um humor para mudar a sociedade, mas apontar os erros, cutucar. Ele falava que o humor dele era tão brasileiro que não podia ser entendido nem mesmo em Portugal.
Nos últimos anos de vida, Chico saiu do ar, a ‘Escolinha do Professor Raimundo’ saiu do ar. Chico deixou clara sua mágoa com a TV Globo. Ele tinha condições de prosseguir na televisão, naquele momento, com os problemas de saúde que enfrentava?
A Escolinha foi tirada do ar antes disso, quando ele ainda podia fazer. Essa pergunta é feita no documentário, mas fica sem resposta. Por que saiu do ar? Os problemas de saúde o prejudicaram bastante mais na reta final da vida. Com altos e baixos. Teve uma época que ele estava mal dos pulmões. Melhorava, mas fica mal das pernas. Aí sim, nessa época, ele realmente não tinha mais condições de tocar um programa. Isso mexeu muito com a cabeça dele. Desde os tempos do rádio, ele trabalhava muito. Escrevia vários programas por semana. Ele não soube relaxar e curtir a vida quando saiu da TV. Nós, filhos, falávamos para ele ir morar na praia, em Fortaleza. Ele nunca quis. Só conseguiu aceitar essa questão mais para o fim da vida.
Revendo os quadros exibidos no documentário, é possível perceber que o humor feito pelo Chico ainda possível hoje em dia, em 90% dos casos. Por que não há quem faça?
O formato de esquetes e personagens fixos, com bordões, que surgiu com ele e com a turma dele no rádio e foi replicado na TV, e deu origem aos programas do Jô Soares e Agildo Ribeiro, não existe mais, com exceção de A Praça é Nossa. Não sei se funcionaria hoje em dia, com essa coisa mais rápida, com essa nova maneira de se consumir conteúdo. Apesar que, no humor, não existe fórmula.