Após um ano de altas temperaturas que levou o mercado de latas de alumínio para bebidas a crescer quase 8%, o inverno mais rigoroso das últimas três décadas nas regiões Sudeste e Sul em 2025 freou as vendas da embalagem. Os números do primeiro semestre mostram alta de apenas 0,7%, aponta a Associação Brasileira da Lata de Alumínio (Abralatas), que reúne cinco fabricantes no País.
A demanda no carnaval, um dos eventos que mais puxam vendas, foi ótima e ajudou o desempenho medido até junho, afirma Cátilo Cândido, presidente executivo da Abralatas. “A partir de maio as temperaturas caíram, desacelerando a vendas que haviam sido recordes em 2024. Segundo os especialistas de clima, tivemos o inverno mais rigoroso dos últimos 30 anos”, comenta o executivo.
O grande mercado consumidor de bebidas e uso de latas está nas regiões Sudeste e Sul, onde se verificou as baixas temperaturas neste ano. O clima frio, que avançou até setembro, não é amigável ao consumo de bebidas, principalmente nos bares.
De janeiro a junho, o total de latas produzidas e comercializadas pelas cinco fabricantes somou 16,5 bilhões de unidades. “Para o ano, nossa projeção é ainda de repetir 2024, com 34,8 bilhões de latas, reforçando a estabilidade da embalagem no consumo nacional de bebidas”, afirma o CEO da Abralatas.
O executivo lembra que as expectativas para o segundo semestre mostra um cenário incerto diante de um inverno com temperaturas baixas nas duas grandes regiões consumidoras.
Para Cândido, as vendas ficarem no ano em linha com os números de 2024 não será um desempenho ruim, pois vai manter o ritmo de um ano recorde, quando o setor cresceu 7,6% frente a 2023. O executivo observa que, desde 2014, o setor obteve crescimento médio anual de 4,8% na demanda com o setor de bebidas.
Nesse cenário, ele diz que as fabricantes instaladas no País — as americanas Ball Corporation e Crown, a irlandesa Ardagh e o grupo polonês Canpack, além da Ambev, que tem duas fábricas cativas — estão otimistas com perspectivas de expansão do mercado. Ele cita três empresas que estão ampliando a produção para atender os pedidos de suas clientes de bebidas alcoólicas (caso de cervejas e cachaça) e não alcoólicas (refrigerantes, sucos, chá e energéticos).
A Ball, que é a líder de mercado no País, com 10 fábricas instaladas em vários Estados, reabriu há alguns meses a unidade de Pouso Alegre (MG), investindo em maquinário para readequar instalações produtivas. No ano passado, com a demanda efervescente devido às altas temperaturas, a multinacional teve de importar latas da fábrica do grupo no Paraguai para ajudar a atender a demanda.
A Canpack desengavetou o projeto de uma fábrica em Poços de Caldas (MG), anunciada em 2022. O CEO da empresa no Brasil, Paulo Dias, disse ao Estadão, em nota, que a decisão de retomar o projeto foi motivada por demandas contratuais de determinados clientes, bem como pelo compromisso da companhia com o desenvolvimento do setor de latas de alumínio no Brasil.
“O investimento na nova fábrica, que terá capacidade de produzir cerca de 1 bilhão de latas por ano e vai gerar 140 empregos diretos, será de R$ 710 milhões”, afirmou Dias, Segundo o executivo, a previsão é que a nova unidade entre em operação no segundo semestre de 2026. A capacidade poderá atingir 1,3 bilhão de latas de acordo com informações.
Atualmente, a Canpack, que tem como controlador o grupo americano Giorgi Global Holdings, opera duas unidades fabris em Maracanaú (CE) — a partir da aquisição da antiga Metalic, em 2016, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), que fazia latas de aço. A terceira fábrica veio em 2018, no município de Itumbiara (GO), quando foi inaugurada.
A definição pelo município de Poços de Caldas, no sul de Minas, se deveu ao fato de estar logisticamente localizado no “coração” do mercado brasileiro e, ao mesmo tempo, marcar a entrada da empresa na região Sudeste, maior consumidora de latas de alumínio.
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A americana Crown está aportando quase US$ 100 milhões (R$ 530 milhões) para ampliar em 50% a capacidade de sua fábrica de Ponta Grossa, no Paraná. “A expansão da fábrica paranaense visa a atender às crescentes necessidades de clientes de bebidas alcoólicas e não alcoólicas na região Sul do País, afirma Wilmar Arinelli, CEO da Crown no Brasil.
“Essa fábrica, em Ponta Grossa, foi construída em 2011 e atualmente opera duas linhas de produção de alta velocidade, com capacidade anual de 2,4 bilhões de latas”, diz. O executivo informa que, após a conclusão da terceira linha, com início de operação comercial previsto para o terceiro trimestre de 2026, a fábrica poderá fornecer 3,6 bilhões de latas. “Vai se tornar a maior operação da Crown no País.”
Atualmente, além de Ponta Grossa, a empresa tem unidades de produção em Cabreúva (SP), Uberaba (MG), Rio Verde (GO), Estância (SE), Teresina (PI) e Manaus (AM). Com esse perfil industrial, a companhia americana de embalagens é a segunda maior fabricante no País, atrás apenas da também americana Ball Corporation.
As cinco companhias operam 25 fábricas no Brasil, incluindo as de tampas, com capacidade instalada total de produção na faixa de 40 bilhões de unidades por ano. Com as expansões previstas de Crown e Canpack, a capacidade de oferta vai crescer cerca de 6% a partir do final do próximo ano.
País ainda tem baixa demanda per capita
O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor de latas de alumínio do mundo, atrás dos Estados Unidos e da China. Com 213 milhões de habitantes, o País ainda apresenta uma taxa média de consumo da embalagem baixa por habitante/ano — são cerca de 200 latinhas. Nos EUA, por exemplo, a taxa é de 350 unidades por pessoa ao ano, diz o executivo da Abralatas. “Temos muito espaço para crescer.”
Segundo Cândido, a média histórica de crescimento de quase 5% dos últimos 10 anos do mercado brasileiro mostra um potencial resiliente do setor. Outro fator que ele aponta é o mix de produtos envasados nas latas, com mais de dez tipos de formatos. São mais de 20 tipos de bebidas, considerando as variações: vai da cerveja (alcoólica e não alcoólica) até cachaça, água, café, vinho e espumantes.
No primeiro semestre, o destaque de desempenho foram as bebidas não alcoólicas, que tiveram crescimento de 5%. Bebidas proteicas, funcionais, RTD (prontas para beber) e energéticas vêm, ano a ano, ganhando espaço no uso da lata de alumínio como embalagem.
A cerveja é ainda a líder. Cerca de 53% de toda a cerveja envasada no País é em lata, o que significa usar 80% das latas fabricadas. A lógica da indústria é instalar suas fábricas próximo das grandes cervejarias para facilitar a logística.
A reciclagem da latinha é considerado outro fator que levou ao maior uso da embalagem, com o mote da sustentabilidade e da praticidade. Atualmente, mais de 97% das latas usadas no Brasil é reciclada, voltando ao mercado em cerca de 60 dias.
Em 2026, a aposta da Abralatas é que o mercado poderá ter desempenho melhor que o deste ano — carnaval em fevereiro, Copa do Mundo de Futebol no meio do ano e eleições em outubro. “A expectativa é boa. Aglomerações de pessoas e celebrações são ocasiões ótimas para o consumo de bebida em lata”, diz Cândido.
O consumo também é puxado pelo aumento da renda familiar e pelo desempenho positivo da economia. É uma das variáveis, que têm no clima favorável o grande impulsionador da demanda.