Em nossa última coluna, apresentamos o segundo argumento de dois grupos antagônicos no que diz respeito à sua postura em relação à inteligência artificial: para os otimistas, a humanidade irá se beneficiar da aceleração das pesquisas científicas, especialmente na área da saúde. Para os pessimistas, o uso da IA para o desenvolvimento de armas, crimes cibernéticos, ou ainda a criação de sistemas de vigilância em massa irá contribuir para uma distopia sem precedentes.
Para os otimistas, o terceiro argumento desta discussão está ligado ao aumento das capacidades cognitivas que nós, seres humanos, possuímos. Segundo eles, a inteligência artificial não irá substituir a inteligência humana; mas, sim, expandi-la.
Tarefas ligadas a áreas de análise de dados, busca de informações ou simplesmente execução de processos repetitivos são candidatas a serem resolvidas pela IA, liberando os seres humanos para tarefas mais sofisticadas como planejamento estratégico e novos projetos.
A IA generativa é um dos casos de uso mais importantes dos diversos modelos de linguagem: com um simples pedido (prompt), podemos criar textos, imagens, vídeos, músicas, e até mesmo novos sistemas. O potencial da tecnologia no mundo dos negócios é virtualmente ilimitado.
Advogados podem obter apoio para redigir um contrato, arquitetos podem aprimorar e testar suas visões para uma nova obra, engenheiros civis podem simular o comportamento de uma estrutura, cientistas da computação podem acelerar significativamente o desenvolvimento de um novo software, profissionais de publicidade podem criar e refinar suas campanhas centenas de vezes.
Nesse mundo no qual a IA se torna uma ferramenta tão comum quanto o smartphone ou a eletricidade, as habilidades reconhecidas e valorizadas pelo mercado de trabalho não estarão relacionadas à execução de rotinas ou análises bem definidas e conhecidas.
Características intrínsecas aos seres humanos como inteligência emocional, criatividade, intuição, princípios éticos, pensamento crítico e senso de humor serão fundamentais em um mundo onde máquinas inteligentes e seres humanos trabalham de forma complementar.
Isso se aplica também ao mundo da educação, com o uso de ferramentas que irão permitir a personalização do conteúdo de acordo com o perfil e o ritmo de aprendizado de cada estudante. Erros e acertos podem ser utilizados para sugerir materiais complementares, ou utilizadas novas técnicas de ensino.
Ao invés de desperdiçar grande parte do seu tempo em tarefas repetitivas ou administrativas, professores poderão atuar como mentores e guias para os alunos em suas jornadas acadêmicas.
Já para os pessimistas com o futuro da inteligência artificial, seu terceiro argumento está centrado nas consequências que a mudança no mercado de trabalho irá causar: desemprego e aumento da desigualdade econômica.
Em um dos trabalhos publicados no início de 2024 por analistas do Fundo Monetário Internacional (que não representam necessariamente a visão do Fundo, mas são publicados para “suscitar comentários e fomentar o debate”), o impacto da IA no mercado de trabalho global foi pesquisado.
Segundo este trabalho, cerca de 60% dos empregos em economias desenvolvidas (e 40% em economias emergentes) poderão ser impactados pela IA, sendo que praticamente metade desses corre o risco de uma substituição relevante de seres humanos por máquinas.
Ao contrário das revoluções passadas, com a automação da agricultura e posteriormente das indústrias, obter uma formação acadêmica mais sólida não é mais garantia de emprego: a capacidade que sistemas baseados em inteligência artificial têm para executar tarefas exclusivamente intelectuais (direito, contabilidade, desenvolvimento de software, diagnósticos médicos, análises financeiras) faz desse tipo de profissional (especialmente em início de carreira) o maior alvo para substituição atualmente. Um estudo publicado pelo Pew Research Center em julho de 2023 indicou que trabalhadores com formação universitária corriam duas vezes mais risco de serem “automatizados pela IA”.
A desigualdade, ainda segundo os pessimistas, tende a aumentar, uma vez que o mercado de trabalho será amplamente dominado por aqueles capazes de utilizar a inteligência artificial para aumentar suas habilidades e a dependência das empresas.
Como consequência dos imensos ganhos de produtividade, os líderes empresariais devem se beneficiar de forma desproporcional em relação aos funcionários. E, para completar o cenário pessimista, em função dos custos significativos associados ao desenvolvimento de sistemas baseados em IA, as barreiras de entrada para competição irão aumentar, concentrando poder e influência em poucas corporações.
Nossa discussão prossegue na próxima coluna, com a apresentação do quarto e último argumento de cada um dos lados. Até lá.