“Maria, Maria é um dom, uma certa magia”, como canta o mineiro Milton Nascimento. Maria Maria é também o nome de uma vinícola mineira, que acaba de receber 96 pontos, de uma escala até 100, da revista inglesa Decanter. É a mais alta pontuação que um rótulo brasileiro já recebeu desta publicação de destaque no mundo do deus pagão Baco.
Até então, a nota mais alta era 95 pontos, que também dá direito a uma medalha de ouro, concedida ao Vista do Chá 2014, da paulista Guaspari em 2017, ou ao Viognier 2022, da gaúcha Amitié, em 2023, entre os poucos ouros que o Brasil já recebeu nesta premiação.
O nome do projeto, é quase óbvio, é uma homenagem ao cantor, que nunca o provou, apesar de ter aprovado colocar o nome da música no vinho. A história começa da amizade de décadas de Milton Nascimento com o cafeicultor Eduardo Nogueira Júnior.
Em 2009, Nascimento foi visitar a fazenda do amigo, que dava os primeiros passos no mundo do vinho, ao apostar no plantio de vinhedos em sua fazenda em Boa Esperança (MG). Milton estranhou o feito e exclamou “Eduardinho, você está doido! Vinho em Minas Gerais!”. Daí nasceu a ideia de, se o projeto vingasse, ser chamado de Maria Maria.
E o vinho deu certo. Na primeira safra, em 2012, as poucas garrafas foram presenteadas para os amigos, mas o cantor já tinha parado de consumir bebidas alcoólicas por restrições médicas. No ano seguinte, 6 mil garrafas foram lançadas oficialmente.
Atualmente, a produção varia entre 55 mil e 60 mil garrafas, em quatro vinhos, um branco, elaborado com a sauvignon blanc, um rosé e dois tintos, todos os três com a variedade syrah.
O vinho premiado é chamado de Isabela, mas seu nome muda todos os anos. “A cada safra homenageamos uma mulher, com a letra que segue o alfabeto. A primeira safra foram mulheres da nossa família que o nome começa com a letra “a”, a segunda “b”, e assim por diante”, conta Eduardo Nogueira Neto, responsável pela parte comercial da fazenda.
Isabela é uma homenagem à sua enóloga, Isabela Peregrino. “Perguntamos para ela em qual dos quatro vinhos da safra de 2023 ela queria colocar o seu nome, e ela escolheu este vinho”, diz Eduardo Neto, que estranhou a escolha.
Há dois syrahs na linha: um com passagem em barricas de carvalho e outro elaborado apenas em tanque, uma forma, digamos, mais simples e rápida, sem o tempo de estágio em barricas de carvalho. “Eu escolhi o mais simples, porque é o de maior produção e pensei, na brincadeira, que teria mais Isabelas no mercado”, conta, rindo, a própria Isabela. Em 2023, a produção foi recorde e foram engarrafadas 45 mil unidades do vinho.
Leia Também:
Atualmente, o projeto, que começou com cinco hectares de vinhas, tem 21 hectares; e há mais 12 hectares que devem ser plantados em breve. “Estamos estudando ter outras variedades, que não apenas a sauvignon blanc e a syrah”, conta Eduardo Neto. O café, a principal atividade da família, ocupa 400 hectares, da área total de 650 hectares da fazenda.
Qual é o segredo da técnica?
Os vinhos são elaborados com uma técnica conhecida como dupla poda ou poda invertida, desenvolvida por um outro mineiro, Murillo Albuquerque Regina, na época pesquisador da Epamig. Por ela, a videira é podada de maneira a dar frutos no inverno, e não no verão.
O pulo do gato é que, em muitas regiões do Sudeste e do Centro-Oeste brasileiro, o inverno não tem chuva, e há uma maior amplitude térmica, a diferença de temperatura entre o dia e a noite, o que favorece que a uva amadureça ganhando maior complexidade de aromas e sabores. A ausência de chuva ajuda na sanidade do vinhedo e na maior concentração de seus frutos.
O resultado vem dando certo. Neste mais recente resultado da Decanter, foram 48 medalhas de prata e 96 bronzes, além do único ouro. Mas as pratas com pontuações mais altas são de vinhos também elaborados com a técnica de poda invertida, como os 94 pontos do Sabina Syrah 2024, elaborado na Serra da Canastra. Este não é o único exemplo do reconhecimento que os vinhos desta técnica vêm recebendo mundo afora, apesar do manejo mais intervencionista, que obriga a aplicação produtos de síntese para fazer com que a planta produza uvas fora do seu ciclo tradicional.