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No 'Chuteira Preta', Mauro Beting conta a história da chegada de Pelé ao New York Cosmos e dos cliques feitos por Domício Pinheiro durante a carreira do craque
O Brasil jogou as 22 Copas do Mundo. Só ele. Por óbvio, a Seleção sempre passou pelas Eliminatórias. Mas nunca incólume. Brasil já perdeu treinadores e jogos durante a disputa. Já “dispensou” o próprio torneio por ser campeão mundial na Copa anterior. Não dispensa discussão um certame que dá ao vencedor o Troféu Água de Salsicha. Mas pode dar dores de barriga e cabeça a quem não vai bem.
Os 10 jogos inesquecíveis do Brasil desde a primeiro, em 1957, contra o Peru – empate em Lima por 1x1, gol de Índio.
10. Argentina 4x1 Brasil, Buenos Aires, 2025 – Culpa deste que vos tecla. Estreia minha no Estadão no Más Monumental. Atuação ridícula brasileira na última partida de Dorival Júnior. Seleção produziu menos do que no 7x1 no Mineirão. Hermanos jogaram mais do que na conquista do tri em 2022, no Catar. Poucas vezes os brasileiros jogaram pior desde 1914. Vareio. O último tango da comissão técnica. Falhas individuais e coletivas. Deu tudo errado.
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9. Brasil 3x1 Argentina, São Paulo, 2000 – Vampetazo no Morumbi. Segunda melhor atuação do Brasil de Luxemburgo (depois dos 4x2 no Beira-Rio, em 1999, contra a mesma Argentina). Sem Ronaldo, Romário e sem centroavantes. Alex, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo comandaram a criação brasileira contra os hermanos de Marcelo Bielsa (uma das melhores equipes albicelestes de todos os tempos). Vampeta marcou dois gols. Alex, o primeiro.
8. Brasil 1x0 Paraguai, Rio de Janeiro, 1969 – Pagantes 183.341 no Maracanã para ver as Feras de Saldanha ganharem com um gol de rebote de Pelé o passaporte encaminhado para o tri, no México. A Seleção não sofreu naquele quadrangular. A Venezuela existia havia dois anos como equipe. A Colômbia não se compara ao que virou a partir da metade final dos anos 1980. E o Paraguai era chato. Mas limitado. Ainda assim fez jogo duro. Se ganhasse no Rio, haveria jogo-extra. Não foi necessário. Félix, Carlos Alberto Torres, Piazza, Gerson, Jairzinho, Tostão e Pelé foram os titulares que assim seguiram em 1970, com Zagallo. Mas três deles em funções distintas. Foi o último jogo do titular Djalma Dias na zaga. Ele ganhou os 17 que disputou. O único desde 1914 com 100% de aproveitamento. No mesmo dia, o general Arthur Costa e Silva teve um derrame que o afastaria da presidência do país durante a ditadura militar.
7. Uruguai 1x4 Brasil, Montevidéu, 2017 – Marcelo, craque do Real Madrid, falhou feio mais uma vez com a camisa amarela e criou o pênalti do gol marcado por Cavani. Nove minutos depois, o volante mais artilheiro da história da Seleção marcou golaço de fora da área. Só Tite ainda confiava nele para a Seleção, quando o convocou na primeira chamada do Brasil. No segundo tempo, Paulinho estava dentro da área como nos melhores dias de Corinthians e Brasil (2012-13) para aproveitar o rebote de belo giro de Firmino; e, no final, estava de novo Paulinho na área uruguaia para, de peito e na raça, fazer o quarto gol, em belo passe de Daniel Alves. Neymar ainda aproveitou chutão da zaga para fazer golaço por cobertura, o terceiro, na noite de Paulinho, e na solidificação então do 4-1-4-1 do treinador.
6. Bolívia 2x0 Brasil, La Paz, 1993 – A primeira derrota da Seleção em Eliminatórias. Os 3.600 metros (quilômetros?) de altitude cobraram a conta do Brasil que não vinha bem com Parreira e Zagallo. Taffarel defendeu um pênalti na segunda etapa. Mas fez gol contra bizarro em um cruzamento da linha de fundo de Etcheverry (da melhor Bolívia de todos os tempos). O segundo gol selou a derrota e iniciou crise na Seleção que só acabaria mesmo no primeiro jogo desta lista. O último daquelas sofridas e sofríveis Eliminatórias. Taffarel, Márcio Santos, Mauro Silva, Zinho e Bebeto eram os titulares que seguiriam assim na conquista do tetra, em 1994, em Pasadena.
5. Brasil 1x0 Chile, Rio de Janeiro, 1989 – O jogo que não acabou no Maracanã. A partida em que o Brasil marcou um gol com Careca, mas o placar final foi 2x0. Gol de Rosenery Melo. A Fogueteira do Maraca. Torcedora que seria capa da Playboy meses depois por acender um sinalizador que caiu no gramado, perto do goleiro chileno Roberto Rojas. Ele se atirou ao chão logo depois da explosão do artefato, cortou o supercílio com lâmina que guardava nas luvas para premeditar uma suposta agressão. Saiu de campo ensanguentado. O time chileno saiu junto. A Fifa julgou a farsa e puniu Rojas com o banimento como atleta; o Chile perdendo o jogo por mais um gol (2x0) e a chance de ir para a Copa na Itália (e também em 1994). A confusão foi ainda pouca perto do jogo de ida, em Santiago. A terceira partida desta lista que explica o clima da volta, no Rio.
4. Brasil 3x0 Argentina, Belo Horizonte, 2016 – A Seleção voltava ao Mineirão dois anos depois do 1x7. Para sair aplaudida e com Tite ovacionado como se cantava para Telê. Mesmo com Messi encantando no começo, Neymar e Coutinho ditaram e deitaram o ritmo brasileiro. O meia do Liverpool abriu o placar. Neymar ampliou em boa jogada de Gabriel Jesus. Paulinho faria o terceiro e calaria as cornetas que viraram aplausos como há muito o Brasil de Dunga, Felipão, Mano e Dunga (desde 2006) não recebia. A melhor partida da Seleção com Tite.
3. Chile 1x1 Brasil, Santiago, 1989 – “A Batalha de Santiago” é autoexplicativa. Ainda que injustificável. Mesmo com o final da ditadura sanguinária de Augusto Pinochet. O treinador chileno Orlando Aravena dizia que o Brasil cairia no estádio Nacional mais feio do que a surra que o boxeador brasileiro Maguila sofrera de Evander Holyfield... A Seleção já apanhara de 4 a 0 do Chile, na Copa América em 1987. Vinha mordida. E também mordendo em partida surreal. Não houve vestais em Santiago. As provocações começaram antes mesmo de a bola rolar. Romário discutiu asperamente com rivais antes do apito inicial. Baixinho foi expulso com 2 minutos depois de revidar mordida (?!) no peito de Hisis. Dez minutos depois, Ormeño quase arrancou a perna de Branco e foi expulso. Jorginho o substituiu. O Brasil ganhou um gol contra no segundo tempo. O árbitro colombiano José Diaz Palácio empatou o jogo. Marcou sobrepasso de Taffarel. Na reclamação brasileira dentro da área, o meia Aravena pegou a bola nas mãos de Taffarel e cobrou rápido a falta que Basay converteu. E o árbitro aceitou. Um dos maiores absurdos em um dos jogos mais absurdos da história sul-americana e das Copas. Dos que entraram em campo pelo Brasil, oito seriam campeões mundiais nos Estados Unidos, em 1994.
2. Brasil 1x0 Peru, Rio de Janeiro, 1957 – O primeiro jogo em solo brasileiro em Eliminatórias. Não ganhasse, não jogaria a primeira Copa conquistada, em 1958, na Suécia. Empate levaria a um terceiro jogo, depois do 1x1 em Lima. A Seleção de Osvaldo Brandão não fez boa partida. Mandou bola na trave com Garrincha. Mas só fez gol em belíssima folha seca de Didi, batendo falta sem defesa para Asca. Os 138 mil presentes não ficaram satisfeitos com a atuação. Nelson Rodrigues baixou a lenha no Brasil, como recordam os autores de “Todos os Jogos do Brasil”, ótima livro bancado pela Placar. Pode não ter sido nem a atuação e nem o jogo dos sonhos. Mas foi a partida que levou à Copa o time que nos traria da Suécia o primeiro Mundial. Vicente Feola substituiria Brandão no comando do escrete. Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Nilton Santos, Garrincha e o capitão Didi seriam titulares também no Rasunda, nos 5 a 2 contra os donos da casa. Pelé ainda não havia nem estreado pelo Brasil, em abril de 1957.
1.Brasil 2x0 Uruguai, Rio de Janeiro, 1993 – Para o treinador Carlos Alberto Parreira, “foi Deus quem convocou Romário” para aquela tarde de Maracanã em que o Brasil precisava vencer os uruguaios, nas até então mais desafiadoras Eliminatórias de Copa, 23 anos depois do tri. A Seleção que seria tetra em 1994 com o Baixinho ainda não era confiável. Careca tinha pedido dispensa. Evair e Viola viviam grande fase, mas tinham pouco espaço. Ronaldo mal tinha um mês como titular do Cruzeiro. Muller, lesionado. Por indisciplina de Romário em amistoso contra a Alemanha, em dezembro de 1992, o Baixinho do Barcelona estava fora das convocações em 1993. O clamor popular o convocou. Zagallo, coordenador-técnico, não o queria pintado de verde e amarelo. O treinador fez as pazes. Romário fez de tudo. Um drible sensacional no primeiro lance, com lençol e caneta na mesma jogada. Bola na trave. Dois gols na segunda etapa. E uma das maiores partidas de um jogador na história do Maracanã. E a melhor atuação que vi no estádio – junto com a de Zidane, contra o Brasil, na Copa de 2006. Romário nos levou à Copa. Ela voltou com o Baixinho dos Estados Unidos. Taffarel, Jorginho, Branco, Mauro Silva, Dunga, Zinho, Bebeto e Romário foram titulares no Maracanã e seriam no Rose Bowl, contra a Itália.