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Disparidade militar entre EUA e Venezuela é abissal: enquanto Washington tem as Forças Armadas mais poderosas do mundo, Caracas ocupa apenas a 50ª posição
Existem três mitos sobre a crescente campanha de pressão do presidente Trump contra o ditador venezuelano Nicolás Maduro que vêm sendo repetidos pela imprensa internacional nos últimos dias. Todos os três estão completamente equivocados.
O primeiro mito é que o apoio do governo Trump à líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, María Corina Machado, seria uma repetição exaustiva da tentativa fracassada de Trump, em 2019, de alçar ao poder o ex-líder anti-Maduro Juan Guaidó.
Há, contudo, diferenças cruciais. Naquela época, não havia uma pressão militar comparável dos EUA sobre Maduro para que ele renunciasse. E, embora Guaidó fosse o presidente legitimamente eleito da Assembleia Nacional — de maioria oposicionista —, seu partido nunca havia vencido uma eleição presidencial. Após viajar pelo mundo em busca de apoio, Guaidó acabou exilado em Miami.
Machado, por sua vez, tem argumentos muito mais sólidos do que Guaidó jamais teve: ela foi a força motriz por trás da vitória da oposição nas eleições presidenciais de 2024.
Depois de vencer as primárias da oposição e ser impedida por Maduro de concorrer, Machado escolheu um diplomata de pouca projeção — Edmundo González Urrutia — para disputar em seu lugar, e ele venceu com uma maioria esmagadora. Maduro, no entanto, fraudou a eleição e desencadeou uma repressão brutal.
A fraude eleitoral de Maduro foi tão flagrante e suas violações de direitos tão graves que os Estados Unidos, os 27 membros da União Europeia e vários outros países não reconheceram sua suposta vitória. Por praticamente todos os critérios, a chapa González Urrutia-Machado tem muito mais legitimidade do que Maduro tem hoje, ou do que Guaidó tinha à sua época.
O segundo mito, predominante em setores da base isolacionista do movimento MAGA, é que o presidente dos EUA está se deixando levar para uma aventura militar no exterior por influência de exilados venezuelanos.
Os céticos do MAGA alegam que, assim como o ex-presidente George W. Bush foi enganado por líderes exilados iraquianos em 2003 — levando-o a acreditar que os Estados Unidos seriam capazes de manter a ordem no Iraque pós-invasão —, Trump estaria sendo iludido por Machado, acreditando que a Venezuela não mergulharia no caos (o que geraria mais migração em massa) após uma intervenção dos EUA.
Mas a analogia com o Iraque é imprecisa. O Iraque não teve uma eleição presidencial vencida pela oposição, como ocorreu na Venezuela em 2024. É improvável que muitos venezuelanos arrisquem suas vidas para apoiar Maduro ou lutar contra um governo de transição.
O terceiro mito, levantado por Celso Amorim, principal assessor de política externa do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista ao The Guardian, é que uma invasão dos EUA à Venezuela levaria a uma guerra semelhante à do Vietnã, na qual muitos países viriam em socorro de Maduro.
Embora muitos de nós esperemos que Maduro seja forçado a sair pelo seu próprio exército, sem necessidade de uma invasão, poucos países moveriam uma palha para apoiar o ditador venezuelano. Nem mesmo a Rússia, principal aliada militar da Venezuela, está fazendo muito para ajudar Maduro atualmente.
Ao contrário de 2018, quando a Rússia enviou dois bombardeiros Tu-160 capazes de transportar armas nucleares para a Venezuela em um momento de tensão com os EUA, Moscou não fez nada semelhante desta vez. É claro que, no caso de um ataque americano contra o regime de Maduro, haveria alguns discursos inflamados na ONU, mas dificilmente algum país ofereceria apoio ativo a um regime tão impopular.
Nada disso significa que Trump esteja jogando bem suas cartas. Ele ameaça com uma invasão militar pelos motivos errados e age sozinho, em vez de formar uma aliança com outras democracias globais.
Em vez de ameaçar depor Maduro por ser um ditador brutal que forçou mais de 8 milhões de pessoas ao exílio, Trump diz que quer derrubá-lo devido às supostas remessas de fentanil da Venezuela para os Estados Unidos. Esse é um argumento falso: 70% do contrabando de fentanil para os EUA vem do México, segundo especialistas.
Em vez de se aliar a países europeus, ou à Argentina, Bolívia, Equador e outras nações latino-americanas, Trump age como um governante imperial por excelência, o que pode dar aos regimes de esquerda munição para propaganda por gerações.
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Da mesma forma, isso não significa que Machado — apesar de toda a sua coragem e legitimidade — não tenha cometido erros. Dedicar seu Prêmio Nobel a Trump, ignorando o fato de que ele tentou reverter as eleições de 2020 após perdê-las e que está deportando centenas de milhares de seus compatriotas venezuelanos, custou-lhe um apoio valioso no exterior.
Mas, como disse o presidente do Comitê Nobel, Jørgen Watne Frydnes, em seu discurso na cerimônia de premiação em 10 de dezembro, em Oslo: “Machado é um dos exemplos mais extraordinários de coragem civil na história recente da América Latina”. Sobre aqueles que criticam o apoio de Machado às ações militares dos EUA, Frydnes afirmou que “pessoas que vivem sob uma ditadura muitas vezes têm que escolher entre o difícil e o impossível”. Esperar que os líderes democráticos da Venezuela busquem seus objetivos com uma pureza moral que a ditadura de Maduro nunca demonstrou é “irrealista” e “injusto”, acrescentou.
Machado e a oposição venezuelana merecem apoio mundial por sua luta legítima para restaurar a democracia. Derrubar Maduro não deve ser uma cruzada unilateral de Trump, mas parte de um esforço internacional coletivo para respeitar os resultados das eleições de 2024 e impedir a maior migração em massa desta década.