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Mais de 7 milhões de israelenses vão às urnas nesta terça-feira, 27, para eleger o novo primeiro-ministro do país. A eleição, a primeira desde os atentados terroristas de 7 de outubro de 2023, servirá, segundo analistas, como uma espécie de referendo sobre a gestão do premiê Binyamin Netanyahu sobre os ataques, os piores da história de Israel.
Nas urnas, outras questões internas da sociedade israelense também estarão em pauta. A principal delas envolve o serviço militar de comunidades de judeus ortodoxos. O tema polariza a sociedade israelense há anos, mas ganhou mais peso em virtude dos conflitos recentes nos quais o país se envolveu, que exigiu grande mobilização militar.
“A responsabilidade sobre o 7 de outubro e a questão do alistamento militar são os pontos centrais da eleição”, explica Yuval Benziman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Mas, de modo geral, a sociedade está mais polarizada.”
Desde que o Hamas invadiu Israel naquele sábado, deixando mais de 1200 mortos e 251 reféns, Netanyahu reagiu com uma ampla operação militar na Faixa de Gaza, que deixou 74 mil mortos e deslocou cerca de 90% da população, segundo a ONU.
O conflito se espalhou para o Líbano, o Iêmen e posteriormente, o Irã. A resposta israelense recebeu críticas de parte da comunidade internacional, sobretudo na Europa Ocidental, em meio a denúncias de genocídio e limpeza étnica da população de Gaza — que Israel nega e diz serem politicamente motivadas.
A própria figura de Netanyahu, primeiro-ministro mais longevo da história de Israel, com 19 anos no cargo ao longo de três mandatos, também deve polarizar a eleição.
Seu atual mandato reúne a coalizão mais à direita da história do país. O apoio de partidos de colonos extremistas, representados nas figuras dos ministros da Segurança Interna, Itamar Ben-Gvir, e das Finanças, Bezalel Smotrich, levou à ampliação da ocupação da Cisjordânia e contribuiu para uma resposta militar mais agressiva aos conflitos que se seguiram ao ataque do Hamas.
Denúncias de fracasso na prevenção aos ataques também pressionaram Netanyahu ao longo do mandato, com sua popularidade caindo nos meses que se seguiram ao atentado. Desde então, ele se mantém no governo em meio aos seguidos conflitos que lhe renderam vitórias políticas e militares, sobretudo contra o Hamas e o Hezbollah, e, em menor escala, contra o Irã.
Parte da oposição culpa Bibi, como o premiê é conhecido, pelo enfraquecimento da imagem de Israel no mundo, motivado pelas mortes em Gaza, o bloqueio a entrada de ajuda humanitária no território e ao deslocamento forçado da população civil palestina dentro do enclave durante a guerra.
Esse cenário levou à ascensão de uma figura relativamente nova dentro da política: o ex-general Gadi Eisenkot. Respeitado no establishment do país, ele comandou o Exército entre 2015 e 2019, sob o próprio Netanyahu.
Judeu sefaradita com raízes no Marrocos, como a maioria da população israelense, Eisenkot ganhou força política após o ataque do Hamas, quando fundou, em 2025, o partido Yashar.
Segundo a média das últimas pesquisas de opinião publicada pelo diário Haaretz, o Yashar é o favorito para ganhar a eleição, com 23 cadeiras, contra 21 do Likud de Netanyahu.
Como na democracia parlamentarista israelense são necessários 61 deputados ao menos para formar governo, ambos terão de recorrer a coalizões.
Do lado de Eisenkot, a oposição conta com mais três partidos grandes, que vão da centro-direita à centro esquerda: Beyachad, do ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, Israel Beitenu, do ex-ministro Avidgor Lieberman e os Democratas - facção de esquerda que reúne egressos do histórico Partido Trabalhista.
Somados, os aliados de Eisenkot devem ter 56 cadeiras, contra 50 do grupo de Netanyahu, que além dos partidos mais radicais, incluem algumas legendas ortodoxas e religiosas.
O fiel da balança deve ficar entre os partidos árabes, que representam os cerca de 20% de palestinos com cidadania israelense que vivem em Israel e podem eleger cerca de 10 deputados.
Outro fator decisivo envolve partidos menores que apoiam Netanyahu, mas podem não alcançar a cláusula de barreira — o que provocaria uma redistribuição dos assentos eleitos no Parlamento.
“Netanyahu está tentando convencer alguns partidos religiosos que podem não passar na cláusula de barreira a apoiá-lo. Com isso, não haveria necessidade de redistribuir os assentos de uma maneira que o prejudicasse”, explica Benziman.
Do lado opositor, existe uma resistência em aceitar o apoio dos partidos árabes, muito em razão das consequências traumáticas do 7 de outubro.
“Eisenkot e seus aliados têm dificuldade em aceitar o apoio dos partidos árabes”, complementa.
Futuro
A chance de uma eleição inconclusiva é grande. Neste caso, Netanyahu seguiria no mandato temporariamente até a convocação de novas eleições.
“No momento, a maior chance é de uma eleição inconclusiva”, diz Benziman. “Apesar disso, após o resultado é possível que alguns membros da coalizão de Netanyahu apoiem Eisenkot de olho na formação de governo.”
Walid Abbas, pesquisador-sênior do Fórum Palestino de estudos israelenses, concorda que qualquer previsão é arriscada. “Na política israelense, tudo pode mudar num intervalo de 12 horas”, diz.
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O futuro das relações entre israelenses e palestinos, no entanto, não está entre as prioridades do eleitor israelense. Hoje, dizem analistas, as chances de qualquer partido ou coalizão defender um retorno à mesa de negociação é baixa.
Um cenário mais provável em caso de vitória da oposição, no entanto, é uma tentativa de reabilitação da imagem de Israel no cenário internacional, com algumas concessões marginais ao processo de paz.
“É muito difícil no atual cenário que isso ocorra. Apesar disso, Eisenkot e Bennett tem feito a campanha batendo na tecla da reabilitação internacional de Israel. Por isso, algumas concessões podem acontecer, sobretudo no controle da violência de colonos na Cisjordânia”, explica o analista israelense.
Para Abbas, no entanto, qualquer concessão deve ser cosmética. “Uma vez que a linha vermelha é cruzada, dificilmente haverá um retorno ao que havia anteriormente”, argumenta o palestino.
Em meio a chance de impasse, cresce a probabilidade de uma retomada na guerra com o Irã. O presidente americano, Donald Trump já anunciou publicamente seu apoio a Netanyahu na eleição.
Com uma eleição doméstica que renovará o Congresso semana que vem, Trump espera um momento político mais oportuno para decidir sobre a retomada do conflito, que segue também travado num impasse, com o Teerã controlando o Estreito de Ormuz e sufocando os preços globais de combustível.
Num cenário de retorno dos bombardeios e impasse eleitoral em Israel, Netanyahu poderia usar o conflito para, uma vez mais, seguir no cargo em nome da união nacional.