R$ 150 por voto: o segredo do Partido Colorado para dominar a política do Paraguai há 70 anos


Prática é parte de uma máquina política robusta que tem fortalecido o poder do Partido Colorado no país

Por Jack Nicas e María Magdalena Arréllaga
Atualização:

THE NEW YORK TIMES, PARAGUAI - As eleições paraguaias, no mês passado, vencidas por Santiago Peña, mantiveram um controle do do Partido Colorado sobre a política do Paraguai. Enquanto em alguns países, a hegemonia de um grupo político é garantida com ataque a instituições democráticas, notícias falsas, ou até mesmo a subversão completa do processo democrático, no país vizinho, operadores políticos reúnem eleitores indígenas para controlar ou comprar seus votos. Alguns oferecem US$ 30 (cerca de R$150) por voto.

A prática é parte de uma máquina política robusta que tem fortalecido o poder do Partido Colorado, que controlou o Paraguai durante 71 dos últimos 76 anos, incluindo nas quatro décadas de ditadura militar.

No fim de semana das eleições, a reportagem testemunhou representantes do Partido Colorado tentando comprar votos de indígenas na eleição para representantes provinciais. Eleitores indígenas revelaram em entrevistas ter aceitado dinheiro do partido logo antes da votação.

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Prática do dedo pintado é usada para tentar impedir que a pessoa vote duas vezes no país  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

R$ 150 por voto

Na cidade de Fuerte Olimpo, no Chaco paraguaio, um candidato a governador colorado distribuiu, de próprio punho, 200 mil guaranis ( o equivalente a R$ 150) , para mais de 100 eleitores indígenas diante de um posto de votação na cidade, segundo relataram cinco indígenas que aceitaram o dinheiro. Essa quantia equivale ao pagamento por várias semanas de trabalho dos paraguaios mais pobres.

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Nestor Rodríguez, chefe da comunidade indígena Tomáraho, que recebeu o dinheiro, afirmou que a prática é padrão. “É só para comprar roupas e coisas para a nossa família”, disse ele. Rodríguez contou que votou naquele candidato colorado, Arturo Méndez, porque ele promete empregos e uma nova estrada.

Méndez venceu a eleição com folga. Em entrevista, ele admitiu que deu dinheiro aos indígenas, mas afirmou que fez isso apenas porque eles precisavam comprar alimentos e roupas e que o governo se esqueceu deles. “Sim, nós os ajudamos. Mas não para induzir seu voto”, afirmou Méndez. “Seria desumano não fazer isso .”

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Pagar pessoas para votar em determinados candidatos ou por questões em deliberação popular é ilegal no Paraguai. Muitos pagamentos são definidos como ajuda financeira, como dinheiro para o almoço no dia da eleição.

No departamento fronteiriço de Concepción, onde residem 3 mil indígenas, a candidata colorada ao governo venceu por apenas 28 votos de diferença. O segundo colocado está contestando os resultados alegando irregularidades na contagem dos votos.

Fila em colégio eleitoral em Pozo Colorado, no interior do Paraguai, no dia da eleição  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times
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Uma oferta irrecusável

A comunidade indígena Espinillo fica a 20 quilômetros do posto de votação mais próximo — e ninguém no vilarejo tem carro. Então, duas semanas atrás, na reta final da campanha para as eleições no Paraguai, Miguel Paredes, um motorista de ambulância aposentado que entrou na política, encheu um ônibus com famílias indígenas e levou todos até uma parada de estrada a uma curta caminhada das urnas. “Nós queremos cuidar deles”, afirmou o político, vigiando o grupo ao lado de seis jovens que ele chama de colegas.

Então, depois do anoitecer, Paredes, de 65 anos, e seus colegas reuniram alguns indígenas e recolheram suas identidades. Ele lhes disse para votar no Partido Colorado — a força política dominante, de direita, no Paraguai — e garantir que os demais membros de sua comunidade também o fizessem. Os jovens mostraram aos indígenas, então, em um telefone, uma simulação de voto nas máquinas de votação paraguaias, orientando-os a votar nos candidatos colorados.

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Os jornalistas do New York Times se posicionaram em um local em que puderam ouvir Milner Ruffinelli, um dos jovens, dizer aos indígenas em língua guarani: “Aquele dinheiro que foi prometido para vocês, também está tudo lá, e o sr. Miguel Paredes vai garantir que chegue até vocês de alguma maneira”, afirmou ele. “Não podemos lhes dar nada aqui. Vocês sabem por quê.”

Urna em Pozo Colorado: às vezes mais de uma pessoa entra na cabine de votação  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Companhia na cabine de votação

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Em uma reunião tarde da noite, Paredes e Ruffinelli explicaram para os operadores que eles deveriam se assegurar que outros eleitores indígenas votariam no Partido Colorado entrando com eles nas cabines de votação. (Observadores eleitorais afirmaram que os partidos políticos violam as leis regularmente permitindo que eleitores deficientes entrem acompanhados nas cabines de votação.)

“Vocês entram junto com eles. Vocês vão ensinar e dizer para eles que botão apertar”, afirmou Paredes para os indígenas, muitos dos quais olhando para o chão com o semblante tenso.

Na manhã seguinte, dia da eleição, uma parada de caminhoneiros nas proximidades de um posto de votação estava repleto de ônibus. Os veículos tinham transportado centenas de eleitores indígenas para votar, e todos estavam adornados com adesivos de algum partido político, a maioria do Colorado.

Em um ônibus com símbolos colorados, os passageiros indígenas afirmaram ter recebido de 100 mil a 150 mil guaranis, ou (cerca de R$70 a R$100), e que tinham votado em candidatos colorados. O homem que gerenciava o ônibus, Catalino Escobar, afirmou que os eleitores também ganharam lanche. (Um sanduíche e uma coca-cola no posto de gasolina, a R$ 10.)

“Para lhe dizer a verdade, em nem sei quem o candidato é”, afirmou Mary Fernanda, de 51 anos, que disse ter aceitado 100 mil guaranis para ajudar na alimentação de seus filhos. “Eu só voto porque passo necessidade.”

Padre José Arias milita pelos direitos políticos dos indígenas e costuma pregar contra a venda de votos no Paraguai Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Voto de cabresto moderno

Muitos dos cerca de 120 mil indígenas paraguaios começaram a se integrar na sociedade moderna poucas décadas atrás, e muitos partidos políticos — não apenas o Colorado — tentam controlar seus votos.

Nos dias que antecedem eleições nacionais, funcionários de partidos se espalham pelo Chaco, uma vasta região árida que abrange o noroeste do Paraguai, onde vive quase metade dos indígenas do país.

Em comunidades remotas, os correligionários lotam ônibus de indígenas e os levam para lugares cercados, onde os entopem de carne e cerveja até o momento de votar, de acordo com relatos de observadores eleitorais, ativistas paraguaios e indígenas que passaram pela experiência. O objetivo é controlar a comunidade antes do partido rival.

No dia da eleição, funcionários dos partidos ou compram das pessoas suas carteiras de identidade — impedindo-as de votar por lhes retirar o documento necessário — ou as levam de ônibus para os postos de votação e lhes dão dinheiro.

A prática é tão arraigada que desenvolveu seu próprio vocabulário: “arrebanhar” os eleitores indígenas e colocá-los em “currais”. “É como se fôssemos gado no mercado”, afirmou Francisco Cáceres, de 68 anos, membro do grupo indígena Qom.

Distribuição de santinhos é comum para orientar eleitores que venderam seus votos no Paraguai  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Hegemonia e corrupção

Observadores eleitorais da União Europeia afirmaram ter testemunhado esses “currais” nas eleições paraguaias de 2013 e 2018 e vários casos de compra de votos na eleição de 30 de abril. Os partidos tentam comprar votos de muitos paraguaios, não apenas dos indígenas, afirmaram os observadores.

O candidato colorado à presidência, Santiago Peña, venceu por uma margem de 460 mil votos, com 43% do total. (O Paraguai tem menos de 80 mil indígenas adultos, de acordo com estimativas.) Peña é protegido político de Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio e atualmente presidente do partido, que foi sancionado este ano pelo governo americano, acusado de ter comprado sua ascensão ao poder com propinas.

Os candidatos colocados em segundo e terceiro na eleição sugeriram que a vitória de Peña foi fraudada, mas não apresentaram evidências claras. O candidato que ficou em terceiro, cujos apoiadores bloquearam rodovias em protesto, foi preso sob a acusação de tentar obstruir a votação.

Santiago Peña venceu as eleições em 30 de abril  Foto: DANIEL DUARTE / AFP

‘Argumento sem relevância’

Em entrevista concedida antes das eleições, Peña afirmou que, mesmo que ocorresse compra de votos, isso não alteraria o resultado das disputas.

“O argumento da compra de votos não tem realmente muita evidência”, afirmou o presidente eleito, que nesta terça-feira, 16, se reúne com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. “Nunca foi possível comprovar um esquema massivo de compra. Se entre 2,5 milhões e 3 milhões de pessoas votam, quantos votos nós teríamos de comprar?”

Ainda assim, entre os paraguaios, compra de votos é uma prática conhecida de todos. “É quase como se não houver isso, não é uma eleição”, afirmou o padre católico José Arias, que usa seus sermões para convencer os fiéis indígenas a não vender seus votos. “As pessoas concordam, em teoria”, afirmou ele. “Mas muitos que concordam também aceitam” as propinas.

Compras de votos podem influenciar eleições locais, mas raramente afetam votações nacionais, afirmou Ryan Carlin, professor da Universidade Estadual da Geórgia que estuda o tema. Mas essa prática sempre prejudica a democracia, por “causar curto-circuito nos mecanismos de representatividade e responsabilização”, afirmou ele. “Se um voto é desdenhado e trocado por outra coisa, não existe nenhuma promessa política da outra parte.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

THE NEW YORK TIMES, PARAGUAI - As eleições paraguaias, no mês passado, vencidas por Santiago Peña, mantiveram um controle do do Partido Colorado sobre a política do Paraguai. Enquanto em alguns países, a hegemonia de um grupo político é garantida com ataque a instituições democráticas, notícias falsas, ou até mesmo a subversão completa do processo democrático, no país vizinho, operadores políticos reúnem eleitores indígenas para controlar ou comprar seus votos. Alguns oferecem US$ 30 (cerca de R$150) por voto.

A prática é parte de uma máquina política robusta que tem fortalecido o poder do Partido Colorado, que controlou o Paraguai durante 71 dos últimos 76 anos, incluindo nas quatro décadas de ditadura militar.

No fim de semana das eleições, a reportagem testemunhou representantes do Partido Colorado tentando comprar votos de indígenas na eleição para representantes provinciais. Eleitores indígenas revelaram em entrevistas ter aceitado dinheiro do partido logo antes da votação.

Prática do dedo pintado é usada para tentar impedir que a pessoa vote duas vezes no país  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

R$ 150 por voto

Na cidade de Fuerte Olimpo, no Chaco paraguaio, um candidato a governador colorado distribuiu, de próprio punho, 200 mil guaranis ( o equivalente a R$ 150) , para mais de 100 eleitores indígenas diante de um posto de votação na cidade, segundo relataram cinco indígenas que aceitaram o dinheiro. Essa quantia equivale ao pagamento por várias semanas de trabalho dos paraguaios mais pobres.

Nestor Rodríguez, chefe da comunidade indígena Tomáraho, que recebeu o dinheiro, afirmou que a prática é padrão. “É só para comprar roupas e coisas para a nossa família”, disse ele. Rodríguez contou que votou naquele candidato colorado, Arturo Méndez, porque ele promete empregos e uma nova estrada.

Méndez venceu a eleição com folga. Em entrevista, ele admitiu que deu dinheiro aos indígenas, mas afirmou que fez isso apenas porque eles precisavam comprar alimentos e roupas e que o governo se esqueceu deles. “Sim, nós os ajudamos. Mas não para induzir seu voto”, afirmou Méndez. “Seria desumano não fazer isso .”

Pagar pessoas para votar em determinados candidatos ou por questões em deliberação popular é ilegal no Paraguai. Muitos pagamentos são definidos como ajuda financeira, como dinheiro para o almoço no dia da eleição.

No departamento fronteiriço de Concepción, onde residem 3 mil indígenas, a candidata colorada ao governo venceu por apenas 28 votos de diferença. O segundo colocado está contestando os resultados alegando irregularidades na contagem dos votos.

Fila em colégio eleitoral em Pozo Colorado, no interior do Paraguai, no dia da eleição  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Uma oferta irrecusável

A comunidade indígena Espinillo fica a 20 quilômetros do posto de votação mais próximo — e ninguém no vilarejo tem carro. Então, duas semanas atrás, na reta final da campanha para as eleições no Paraguai, Miguel Paredes, um motorista de ambulância aposentado que entrou na política, encheu um ônibus com famílias indígenas e levou todos até uma parada de estrada a uma curta caminhada das urnas. “Nós queremos cuidar deles”, afirmou o político, vigiando o grupo ao lado de seis jovens que ele chama de colegas.

Então, depois do anoitecer, Paredes, de 65 anos, e seus colegas reuniram alguns indígenas e recolheram suas identidades. Ele lhes disse para votar no Partido Colorado — a força política dominante, de direita, no Paraguai — e garantir que os demais membros de sua comunidade também o fizessem. Os jovens mostraram aos indígenas, então, em um telefone, uma simulação de voto nas máquinas de votação paraguaias, orientando-os a votar nos candidatos colorados.

Os jornalistas do New York Times se posicionaram em um local em que puderam ouvir Milner Ruffinelli, um dos jovens, dizer aos indígenas em língua guarani: “Aquele dinheiro que foi prometido para vocês, também está tudo lá, e o sr. Miguel Paredes vai garantir que chegue até vocês de alguma maneira”, afirmou ele. “Não podemos lhes dar nada aqui. Vocês sabem por quê.”

Urna em Pozo Colorado: às vezes mais de uma pessoa entra na cabine de votação  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Companhia na cabine de votação

Em uma reunião tarde da noite, Paredes e Ruffinelli explicaram para os operadores que eles deveriam se assegurar que outros eleitores indígenas votariam no Partido Colorado entrando com eles nas cabines de votação. (Observadores eleitorais afirmaram que os partidos políticos violam as leis regularmente permitindo que eleitores deficientes entrem acompanhados nas cabines de votação.)

“Vocês entram junto com eles. Vocês vão ensinar e dizer para eles que botão apertar”, afirmou Paredes para os indígenas, muitos dos quais olhando para o chão com o semblante tenso.

Na manhã seguinte, dia da eleição, uma parada de caminhoneiros nas proximidades de um posto de votação estava repleto de ônibus. Os veículos tinham transportado centenas de eleitores indígenas para votar, e todos estavam adornados com adesivos de algum partido político, a maioria do Colorado.

Em um ônibus com símbolos colorados, os passageiros indígenas afirmaram ter recebido de 100 mil a 150 mil guaranis, ou (cerca de R$70 a R$100), e que tinham votado em candidatos colorados. O homem que gerenciava o ônibus, Catalino Escobar, afirmou que os eleitores também ganharam lanche. (Um sanduíche e uma coca-cola no posto de gasolina, a R$ 10.)

“Para lhe dizer a verdade, em nem sei quem o candidato é”, afirmou Mary Fernanda, de 51 anos, que disse ter aceitado 100 mil guaranis para ajudar na alimentação de seus filhos. “Eu só voto porque passo necessidade.”

Padre José Arias milita pelos direitos políticos dos indígenas e costuma pregar contra a venda de votos no Paraguai Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Voto de cabresto moderno

Muitos dos cerca de 120 mil indígenas paraguaios começaram a se integrar na sociedade moderna poucas décadas atrás, e muitos partidos políticos — não apenas o Colorado — tentam controlar seus votos.

Nos dias que antecedem eleições nacionais, funcionários de partidos se espalham pelo Chaco, uma vasta região árida que abrange o noroeste do Paraguai, onde vive quase metade dos indígenas do país.

Em comunidades remotas, os correligionários lotam ônibus de indígenas e os levam para lugares cercados, onde os entopem de carne e cerveja até o momento de votar, de acordo com relatos de observadores eleitorais, ativistas paraguaios e indígenas que passaram pela experiência. O objetivo é controlar a comunidade antes do partido rival.

No dia da eleição, funcionários dos partidos ou compram das pessoas suas carteiras de identidade — impedindo-as de votar por lhes retirar o documento necessário — ou as levam de ônibus para os postos de votação e lhes dão dinheiro.

A prática é tão arraigada que desenvolveu seu próprio vocabulário: “arrebanhar” os eleitores indígenas e colocá-los em “currais”. “É como se fôssemos gado no mercado”, afirmou Francisco Cáceres, de 68 anos, membro do grupo indígena Qom.

Distribuição de santinhos é comum para orientar eleitores que venderam seus votos no Paraguai  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Hegemonia e corrupção

Observadores eleitorais da União Europeia afirmaram ter testemunhado esses “currais” nas eleições paraguaias de 2013 e 2018 e vários casos de compra de votos na eleição de 30 de abril. Os partidos tentam comprar votos de muitos paraguaios, não apenas dos indígenas, afirmaram os observadores.

O candidato colorado à presidência, Santiago Peña, venceu por uma margem de 460 mil votos, com 43% do total. (O Paraguai tem menos de 80 mil indígenas adultos, de acordo com estimativas.) Peña é protegido político de Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio e atualmente presidente do partido, que foi sancionado este ano pelo governo americano, acusado de ter comprado sua ascensão ao poder com propinas.

Os candidatos colocados em segundo e terceiro na eleição sugeriram que a vitória de Peña foi fraudada, mas não apresentaram evidências claras. O candidato que ficou em terceiro, cujos apoiadores bloquearam rodovias em protesto, foi preso sob a acusação de tentar obstruir a votação.

Santiago Peña venceu as eleições em 30 de abril  Foto: DANIEL DUARTE / AFP

‘Argumento sem relevância’

Em entrevista concedida antes das eleições, Peña afirmou que, mesmo que ocorresse compra de votos, isso não alteraria o resultado das disputas.

“O argumento da compra de votos não tem realmente muita evidência”, afirmou o presidente eleito, que nesta terça-feira, 16, se reúne com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. “Nunca foi possível comprovar um esquema massivo de compra. Se entre 2,5 milhões e 3 milhões de pessoas votam, quantos votos nós teríamos de comprar?”

Ainda assim, entre os paraguaios, compra de votos é uma prática conhecida de todos. “É quase como se não houver isso, não é uma eleição”, afirmou o padre católico José Arias, que usa seus sermões para convencer os fiéis indígenas a não vender seus votos. “As pessoas concordam, em teoria”, afirmou ele. “Mas muitos que concordam também aceitam” as propinas.

Compras de votos podem influenciar eleições locais, mas raramente afetam votações nacionais, afirmou Ryan Carlin, professor da Universidade Estadual da Geórgia que estuda o tema. Mas essa prática sempre prejudica a democracia, por “causar curto-circuito nos mecanismos de representatividade e responsabilização”, afirmou ele. “Se um voto é desdenhado e trocado por outra coisa, não existe nenhuma promessa política da outra parte.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

THE NEW YORK TIMES, PARAGUAI - As eleições paraguaias, no mês passado, vencidas por Santiago Peña, mantiveram um controle do do Partido Colorado sobre a política do Paraguai. Enquanto em alguns países, a hegemonia de um grupo político é garantida com ataque a instituições democráticas, notícias falsas, ou até mesmo a subversão completa do processo democrático, no país vizinho, operadores políticos reúnem eleitores indígenas para controlar ou comprar seus votos. Alguns oferecem US$ 30 (cerca de R$150) por voto.

A prática é parte de uma máquina política robusta que tem fortalecido o poder do Partido Colorado, que controlou o Paraguai durante 71 dos últimos 76 anos, incluindo nas quatro décadas de ditadura militar.

No fim de semana das eleições, a reportagem testemunhou representantes do Partido Colorado tentando comprar votos de indígenas na eleição para representantes provinciais. Eleitores indígenas revelaram em entrevistas ter aceitado dinheiro do partido logo antes da votação.

Prática do dedo pintado é usada para tentar impedir que a pessoa vote duas vezes no país  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

R$ 150 por voto

Na cidade de Fuerte Olimpo, no Chaco paraguaio, um candidato a governador colorado distribuiu, de próprio punho, 200 mil guaranis ( o equivalente a R$ 150) , para mais de 100 eleitores indígenas diante de um posto de votação na cidade, segundo relataram cinco indígenas que aceitaram o dinheiro. Essa quantia equivale ao pagamento por várias semanas de trabalho dos paraguaios mais pobres.

Nestor Rodríguez, chefe da comunidade indígena Tomáraho, que recebeu o dinheiro, afirmou que a prática é padrão. “É só para comprar roupas e coisas para a nossa família”, disse ele. Rodríguez contou que votou naquele candidato colorado, Arturo Méndez, porque ele promete empregos e uma nova estrada.

Méndez venceu a eleição com folga. Em entrevista, ele admitiu que deu dinheiro aos indígenas, mas afirmou que fez isso apenas porque eles precisavam comprar alimentos e roupas e que o governo se esqueceu deles. “Sim, nós os ajudamos. Mas não para induzir seu voto”, afirmou Méndez. “Seria desumano não fazer isso .”

Pagar pessoas para votar em determinados candidatos ou por questões em deliberação popular é ilegal no Paraguai. Muitos pagamentos são definidos como ajuda financeira, como dinheiro para o almoço no dia da eleição.

No departamento fronteiriço de Concepción, onde residem 3 mil indígenas, a candidata colorada ao governo venceu por apenas 28 votos de diferença. O segundo colocado está contestando os resultados alegando irregularidades na contagem dos votos.

Fila em colégio eleitoral em Pozo Colorado, no interior do Paraguai, no dia da eleição  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Uma oferta irrecusável

A comunidade indígena Espinillo fica a 20 quilômetros do posto de votação mais próximo — e ninguém no vilarejo tem carro. Então, duas semanas atrás, na reta final da campanha para as eleições no Paraguai, Miguel Paredes, um motorista de ambulância aposentado que entrou na política, encheu um ônibus com famílias indígenas e levou todos até uma parada de estrada a uma curta caminhada das urnas. “Nós queremos cuidar deles”, afirmou o político, vigiando o grupo ao lado de seis jovens que ele chama de colegas.

Então, depois do anoitecer, Paredes, de 65 anos, e seus colegas reuniram alguns indígenas e recolheram suas identidades. Ele lhes disse para votar no Partido Colorado — a força política dominante, de direita, no Paraguai — e garantir que os demais membros de sua comunidade também o fizessem. Os jovens mostraram aos indígenas, então, em um telefone, uma simulação de voto nas máquinas de votação paraguaias, orientando-os a votar nos candidatos colorados.

Os jornalistas do New York Times se posicionaram em um local em que puderam ouvir Milner Ruffinelli, um dos jovens, dizer aos indígenas em língua guarani: “Aquele dinheiro que foi prometido para vocês, também está tudo lá, e o sr. Miguel Paredes vai garantir que chegue até vocês de alguma maneira”, afirmou ele. “Não podemos lhes dar nada aqui. Vocês sabem por quê.”

Urna em Pozo Colorado: às vezes mais de uma pessoa entra na cabine de votação  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Companhia na cabine de votação

Em uma reunião tarde da noite, Paredes e Ruffinelli explicaram para os operadores que eles deveriam se assegurar que outros eleitores indígenas votariam no Partido Colorado entrando com eles nas cabines de votação. (Observadores eleitorais afirmaram que os partidos políticos violam as leis regularmente permitindo que eleitores deficientes entrem acompanhados nas cabines de votação.)

“Vocês entram junto com eles. Vocês vão ensinar e dizer para eles que botão apertar”, afirmou Paredes para os indígenas, muitos dos quais olhando para o chão com o semblante tenso.

Na manhã seguinte, dia da eleição, uma parada de caminhoneiros nas proximidades de um posto de votação estava repleto de ônibus. Os veículos tinham transportado centenas de eleitores indígenas para votar, e todos estavam adornados com adesivos de algum partido político, a maioria do Colorado.

Em um ônibus com símbolos colorados, os passageiros indígenas afirmaram ter recebido de 100 mil a 150 mil guaranis, ou (cerca de R$70 a R$100), e que tinham votado em candidatos colorados. O homem que gerenciava o ônibus, Catalino Escobar, afirmou que os eleitores também ganharam lanche. (Um sanduíche e uma coca-cola no posto de gasolina, a R$ 10.)

“Para lhe dizer a verdade, em nem sei quem o candidato é”, afirmou Mary Fernanda, de 51 anos, que disse ter aceitado 100 mil guaranis para ajudar na alimentação de seus filhos. “Eu só voto porque passo necessidade.”

Padre José Arias milita pelos direitos políticos dos indígenas e costuma pregar contra a venda de votos no Paraguai Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Voto de cabresto moderno

Muitos dos cerca de 120 mil indígenas paraguaios começaram a se integrar na sociedade moderna poucas décadas atrás, e muitos partidos políticos — não apenas o Colorado — tentam controlar seus votos.

Nos dias que antecedem eleições nacionais, funcionários de partidos se espalham pelo Chaco, uma vasta região árida que abrange o noroeste do Paraguai, onde vive quase metade dos indígenas do país.

Em comunidades remotas, os correligionários lotam ônibus de indígenas e os levam para lugares cercados, onde os entopem de carne e cerveja até o momento de votar, de acordo com relatos de observadores eleitorais, ativistas paraguaios e indígenas que passaram pela experiência. O objetivo é controlar a comunidade antes do partido rival.

No dia da eleição, funcionários dos partidos ou compram das pessoas suas carteiras de identidade — impedindo-as de votar por lhes retirar o documento necessário — ou as levam de ônibus para os postos de votação e lhes dão dinheiro.

A prática é tão arraigada que desenvolveu seu próprio vocabulário: “arrebanhar” os eleitores indígenas e colocá-los em “currais”. “É como se fôssemos gado no mercado”, afirmou Francisco Cáceres, de 68 anos, membro do grupo indígena Qom.

Distribuição de santinhos é comum para orientar eleitores que venderam seus votos no Paraguai  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Hegemonia e corrupção

Observadores eleitorais da União Europeia afirmaram ter testemunhado esses “currais” nas eleições paraguaias de 2013 e 2018 e vários casos de compra de votos na eleição de 30 de abril. Os partidos tentam comprar votos de muitos paraguaios, não apenas dos indígenas, afirmaram os observadores.

O candidato colorado à presidência, Santiago Peña, venceu por uma margem de 460 mil votos, com 43% do total. (O Paraguai tem menos de 80 mil indígenas adultos, de acordo com estimativas.) Peña é protegido político de Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio e atualmente presidente do partido, que foi sancionado este ano pelo governo americano, acusado de ter comprado sua ascensão ao poder com propinas.

Os candidatos colocados em segundo e terceiro na eleição sugeriram que a vitória de Peña foi fraudada, mas não apresentaram evidências claras. O candidato que ficou em terceiro, cujos apoiadores bloquearam rodovias em protesto, foi preso sob a acusação de tentar obstruir a votação.

Santiago Peña venceu as eleições em 30 de abril  Foto: DANIEL DUARTE / AFP

‘Argumento sem relevância’

Em entrevista concedida antes das eleições, Peña afirmou que, mesmo que ocorresse compra de votos, isso não alteraria o resultado das disputas.

“O argumento da compra de votos não tem realmente muita evidência”, afirmou o presidente eleito, que nesta terça-feira, 16, se reúne com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. “Nunca foi possível comprovar um esquema massivo de compra. Se entre 2,5 milhões e 3 milhões de pessoas votam, quantos votos nós teríamos de comprar?”

Ainda assim, entre os paraguaios, compra de votos é uma prática conhecida de todos. “É quase como se não houver isso, não é uma eleição”, afirmou o padre católico José Arias, que usa seus sermões para convencer os fiéis indígenas a não vender seus votos. “As pessoas concordam, em teoria”, afirmou ele. “Mas muitos que concordam também aceitam” as propinas.

Compras de votos podem influenciar eleições locais, mas raramente afetam votações nacionais, afirmou Ryan Carlin, professor da Universidade Estadual da Geórgia que estuda o tema. Mas essa prática sempre prejudica a democracia, por “causar curto-circuito nos mecanismos de representatividade e responsabilização”, afirmou ele. “Se um voto é desdenhado e trocado por outra coisa, não existe nenhuma promessa política da outra parte.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

THE NEW YORK TIMES, PARAGUAI - As eleições paraguaias, no mês passado, vencidas por Santiago Peña, mantiveram um controle do do Partido Colorado sobre a política do Paraguai. Enquanto em alguns países, a hegemonia de um grupo político é garantida com ataque a instituições democráticas, notícias falsas, ou até mesmo a subversão completa do processo democrático, no país vizinho, operadores políticos reúnem eleitores indígenas para controlar ou comprar seus votos. Alguns oferecem US$ 30 (cerca de R$150) por voto.

A prática é parte de uma máquina política robusta que tem fortalecido o poder do Partido Colorado, que controlou o Paraguai durante 71 dos últimos 76 anos, incluindo nas quatro décadas de ditadura militar.

No fim de semana das eleições, a reportagem testemunhou representantes do Partido Colorado tentando comprar votos de indígenas na eleição para representantes provinciais. Eleitores indígenas revelaram em entrevistas ter aceitado dinheiro do partido logo antes da votação.

Prática do dedo pintado é usada para tentar impedir que a pessoa vote duas vezes no país  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

R$ 150 por voto

Na cidade de Fuerte Olimpo, no Chaco paraguaio, um candidato a governador colorado distribuiu, de próprio punho, 200 mil guaranis ( o equivalente a R$ 150) , para mais de 100 eleitores indígenas diante de um posto de votação na cidade, segundo relataram cinco indígenas que aceitaram o dinheiro. Essa quantia equivale ao pagamento por várias semanas de trabalho dos paraguaios mais pobres.

Nestor Rodríguez, chefe da comunidade indígena Tomáraho, que recebeu o dinheiro, afirmou que a prática é padrão. “É só para comprar roupas e coisas para a nossa família”, disse ele. Rodríguez contou que votou naquele candidato colorado, Arturo Méndez, porque ele promete empregos e uma nova estrada.

Méndez venceu a eleição com folga. Em entrevista, ele admitiu que deu dinheiro aos indígenas, mas afirmou que fez isso apenas porque eles precisavam comprar alimentos e roupas e que o governo se esqueceu deles. “Sim, nós os ajudamos. Mas não para induzir seu voto”, afirmou Méndez. “Seria desumano não fazer isso .”

Pagar pessoas para votar em determinados candidatos ou por questões em deliberação popular é ilegal no Paraguai. Muitos pagamentos são definidos como ajuda financeira, como dinheiro para o almoço no dia da eleição.

No departamento fronteiriço de Concepción, onde residem 3 mil indígenas, a candidata colorada ao governo venceu por apenas 28 votos de diferença. O segundo colocado está contestando os resultados alegando irregularidades na contagem dos votos.

Fila em colégio eleitoral em Pozo Colorado, no interior do Paraguai, no dia da eleição  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Uma oferta irrecusável

A comunidade indígena Espinillo fica a 20 quilômetros do posto de votação mais próximo — e ninguém no vilarejo tem carro. Então, duas semanas atrás, na reta final da campanha para as eleições no Paraguai, Miguel Paredes, um motorista de ambulância aposentado que entrou na política, encheu um ônibus com famílias indígenas e levou todos até uma parada de estrada a uma curta caminhada das urnas. “Nós queremos cuidar deles”, afirmou o político, vigiando o grupo ao lado de seis jovens que ele chama de colegas.

Então, depois do anoitecer, Paredes, de 65 anos, e seus colegas reuniram alguns indígenas e recolheram suas identidades. Ele lhes disse para votar no Partido Colorado — a força política dominante, de direita, no Paraguai — e garantir que os demais membros de sua comunidade também o fizessem. Os jovens mostraram aos indígenas, então, em um telefone, uma simulação de voto nas máquinas de votação paraguaias, orientando-os a votar nos candidatos colorados.

Os jornalistas do New York Times se posicionaram em um local em que puderam ouvir Milner Ruffinelli, um dos jovens, dizer aos indígenas em língua guarani: “Aquele dinheiro que foi prometido para vocês, também está tudo lá, e o sr. Miguel Paredes vai garantir que chegue até vocês de alguma maneira”, afirmou ele. “Não podemos lhes dar nada aqui. Vocês sabem por quê.”

Urna em Pozo Colorado: às vezes mais de uma pessoa entra na cabine de votação  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Companhia na cabine de votação

Em uma reunião tarde da noite, Paredes e Ruffinelli explicaram para os operadores que eles deveriam se assegurar que outros eleitores indígenas votariam no Partido Colorado entrando com eles nas cabines de votação. (Observadores eleitorais afirmaram que os partidos políticos violam as leis regularmente permitindo que eleitores deficientes entrem acompanhados nas cabines de votação.)

“Vocês entram junto com eles. Vocês vão ensinar e dizer para eles que botão apertar”, afirmou Paredes para os indígenas, muitos dos quais olhando para o chão com o semblante tenso.

Na manhã seguinte, dia da eleição, uma parada de caminhoneiros nas proximidades de um posto de votação estava repleto de ônibus. Os veículos tinham transportado centenas de eleitores indígenas para votar, e todos estavam adornados com adesivos de algum partido político, a maioria do Colorado.

Em um ônibus com símbolos colorados, os passageiros indígenas afirmaram ter recebido de 100 mil a 150 mil guaranis, ou (cerca de R$70 a R$100), e que tinham votado em candidatos colorados. O homem que gerenciava o ônibus, Catalino Escobar, afirmou que os eleitores também ganharam lanche. (Um sanduíche e uma coca-cola no posto de gasolina, a R$ 10.)

“Para lhe dizer a verdade, em nem sei quem o candidato é”, afirmou Mary Fernanda, de 51 anos, que disse ter aceitado 100 mil guaranis para ajudar na alimentação de seus filhos. “Eu só voto porque passo necessidade.”

Padre José Arias milita pelos direitos políticos dos indígenas e costuma pregar contra a venda de votos no Paraguai Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Voto de cabresto moderno

Muitos dos cerca de 120 mil indígenas paraguaios começaram a se integrar na sociedade moderna poucas décadas atrás, e muitos partidos políticos — não apenas o Colorado — tentam controlar seus votos.

Nos dias que antecedem eleições nacionais, funcionários de partidos se espalham pelo Chaco, uma vasta região árida que abrange o noroeste do Paraguai, onde vive quase metade dos indígenas do país.

Em comunidades remotas, os correligionários lotam ônibus de indígenas e os levam para lugares cercados, onde os entopem de carne e cerveja até o momento de votar, de acordo com relatos de observadores eleitorais, ativistas paraguaios e indígenas que passaram pela experiência. O objetivo é controlar a comunidade antes do partido rival.

No dia da eleição, funcionários dos partidos ou compram das pessoas suas carteiras de identidade — impedindo-as de votar por lhes retirar o documento necessário — ou as levam de ônibus para os postos de votação e lhes dão dinheiro.

A prática é tão arraigada que desenvolveu seu próprio vocabulário: “arrebanhar” os eleitores indígenas e colocá-los em “currais”. “É como se fôssemos gado no mercado”, afirmou Francisco Cáceres, de 68 anos, membro do grupo indígena Qom.

Distribuição de santinhos é comum para orientar eleitores que venderam seus votos no Paraguai  Foto: Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

Hegemonia e corrupção

Observadores eleitorais da União Europeia afirmaram ter testemunhado esses “currais” nas eleições paraguaias de 2013 e 2018 e vários casos de compra de votos na eleição de 30 de abril. Os partidos tentam comprar votos de muitos paraguaios, não apenas dos indígenas, afirmaram os observadores.

O candidato colorado à presidência, Santiago Peña, venceu por uma margem de 460 mil votos, com 43% do total. (O Paraguai tem menos de 80 mil indígenas adultos, de acordo com estimativas.) Peña é protegido político de Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio e atualmente presidente do partido, que foi sancionado este ano pelo governo americano, acusado de ter comprado sua ascensão ao poder com propinas.

Os candidatos colocados em segundo e terceiro na eleição sugeriram que a vitória de Peña foi fraudada, mas não apresentaram evidências claras. O candidato que ficou em terceiro, cujos apoiadores bloquearam rodovias em protesto, foi preso sob a acusação de tentar obstruir a votação.

Santiago Peña venceu as eleições em 30 de abril  Foto: DANIEL DUARTE / AFP

‘Argumento sem relevância’

Em entrevista concedida antes das eleições, Peña afirmou que, mesmo que ocorresse compra de votos, isso não alteraria o resultado das disputas.

“O argumento da compra de votos não tem realmente muita evidência”, afirmou o presidente eleito, que nesta terça-feira, 16, se reúne com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. “Nunca foi possível comprovar um esquema massivo de compra. Se entre 2,5 milhões e 3 milhões de pessoas votam, quantos votos nós teríamos de comprar?”

Ainda assim, entre os paraguaios, compra de votos é uma prática conhecida de todos. “É quase como se não houver isso, não é uma eleição”, afirmou o padre católico José Arias, que usa seus sermões para convencer os fiéis indígenas a não vender seus votos. “As pessoas concordam, em teoria”, afirmou ele. “Mas muitos que concordam também aceitam” as propinas.

Compras de votos podem influenciar eleições locais, mas raramente afetam votações nacionais, afirmou Ryan Carlin, professor da Universidade Estadual da Geórgia que estuda o tema. Mas essa prática sempre prejudica a democracia, por “causar curto-circuito nos mecanismos de representatividade e responsabilização”, afirmou ele. “Se um voto é desdenhado e trocado por outra coisa, não existe nenhuma promessa política da outra parte.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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