Thomas Friedman: Como a imprudente viagem de Nancy Pelosi a Taiwan coloca a Ucrânia em risco


Taiwan não ficará mais segura nem mais próspera como resultado dessa visita puramente simbólica, e muitas coisas ruins poderiam acontecer.

Por Thomas L. Friedman
Atualização:

Tenho muito respeito pela presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi. Mas ao levar adiante uma visita a Taiwan, contrariando a vontade do presidente Joe Biden, ela faz algo absolutamente imprudente, perigoso e irresponsável.

Nada de bom sairá disso. Taiwan não ficará mais segura nem mais próspera como resultado dessa visita puramente simbólica, e muitas coisas ruins poderiam acontecer. Entre elas, uma resposta militar chinesa que poderia resultar nos EUA sendo mergulhados no mesmo momento em conflitos indiretos contra a Rússia e suas armas nucleares e contra a China e suas armas nucleares.

E se você pensa que nossos aliados europeus — diante de uma guerra existencial com a Rússia pela Ucrânia — se juntarão a nós se houver um conflito dos EUA com a China por Taiwan provocado por essa visita desnecessária, você não está entendendo nada a respeito do que está acontecendo no mundo.

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Comecemos com o conflito indireto contra a Rússia e a maneira com que a visita de Pelosi a Taiwan o espreita.

Foco no que mais importa

Há momentos nas relações internacionais em que você tem de manter o foco no prêmio. O prêmio de hoje é claro como cristal: Temos de garantir que a Ucrânia seja capaz, no mínimo, de conter — e no máximo, de reverter — a invasão não provocada de Vladimir Putin, que, se for bem-sucedida, representará uma ameaça direta à estabilidade de toda a União Europeia.

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Para ajudar a criar a melhor possibilidade para a Ucrânia reverter a invasão de Putin, Biden e seu conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, realizaram uma série de reuniões difíceis com a liderança da China, implorando a Pequim que não entre no conflito na Ucrânia fornecendo ajuda militar à Rússia — e particularmente agora, num momento em que o arsenal de Putin está diminuído por cinco meses de guerra excruciante.

Biden, de acordo com uma graduada autoridade americana, disse pessoalmente ao presidente Xi Jinping que, se a China entrar na guerra na Ucrânia do lado da Rússia, Pequim estaria arriscando acesso a dois dos mais importantes mercados de exportação — Estados Unidos e União Europeia. (A China fabrica alguns dos melhores drones no mundo, que são precisamente o que as tropas de Putin necessitam neste exato momento.)

Manifestantes pró-EUA esperam Nancy Pelosi em Taipé  Foto: Ann Wang/ REUTERS
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Um acordo tácito com os chineses

Ao que tudo indica, dizem-me autoridades americanas, a China respondeu não fornecendo ajuda militar a Putin — enquanto EUA e a Otan têm dado à Ucrânia uma quantidade significativa de armas avançadas e apoio em inteligência que têm causado bastante estrago no Exército da Rússia, uma ostensiva aliada da China.

Com tudo isso em jogo, por que diabos a presidente da Câmara escolhe visitar Taiwan e provocar deliberadamente a China agora, tornando-se a mais graduada autoridade americana a fazer uma visita oficial à ilha desde Newt Gingrich, que esteve lá em 1997, quando a China era muito mais fraca economicamente e militarmente?

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O pior momento possível

O momento não poderia ser pior. Caro leitor: A guerra na Ucrânia não acabou. E, privadamente, as autoridades americanas estão muito mais preocupadas com a liderança da Ucrânia do que deixam transparecer. Há uma profunda desconfiança da Casa Branca em relação ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski — consideravelmente maior do que tem sido noticiada.

Trapaças e desonestidades ocorrem em Kiev. Em 17 de julho, Zelenski demitiu a procuradora-geral do país e o chefe da agência de inteligência doméstica — o rearranjo mais significativo em seu governo desde que a Rússia invadiu, em fevereiro. Seria o equivalente a Biden demitir Merrick Garland e Bill Burns no mesmo dia. Mas eu ainda não li nenhuma reportagem que explique de maneira convincente o que aconteceu nos bastidores. É como se não quiséssemos cavucar atentamente demais as entranhas de Kiev por medo da corrupção e das falcatruas que possamos encontrar depois de termos investido tanto por lá. (Escreverei mais a respeito desses perigos outro dia.)

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TV chinesa anuncia exercícios militares na costa de Taiwan Foto: REUTERS/Tingshu Wang

Risco de ataque nuclear russo

Enquanto isso, graduadas autoridades americanas acreditam que Putin está bastante disposto a considerar o uso de uma arma nuclear menor contra a Ucrânia, caso ele veja seu Exército diante da derrota certa.

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Em suma, esta guerra na Ucrânia NÃO acabou de nenhuma maneira, NÃO se estabilizou e ESTÁ REPLETA de surpresas perigosas que podem pipocar a qualquer dia. E ainda por cima, em meio a isso tudo, vamos arriscar um conflito com a China por Taiwan, provocado por uma visita arbitrária e frívola da presidente da Câmara?

A primeira lição da geopolítica é que você não entra em uma guerra de duas frentes contra duas superpotências ao mesmo tempo.

O risco de conflito com a China

Agora, consideremos a possibilidade de um conflito indireto contra a China e como a visita de Pelosi poderia desencadeá-lo.

De acordo com reportagens veiculadas na China, Xi disse a Biden em seu telefonema na semana passada, aludindo ao envolvimento dos EUA nos assuntos de Taiwan, como a possível visita de Pelosi, que, “quem brincar com fogo sairá queimado”.A equipe de segurança nacional de Biden deixou claro a Pelosi, uma antiga defensora dos direitos humanos na China, por que ela não deveria visitar Taiwan neste momento. Mas o presidente não telefonou para ela para pedir diretamente que ela não aterrissasse na ilha, aparentemente preocupado em não parecer brando em relação à China, abrindo uma frente para os republicanos o atacarem durante as campanhas das eleições de meio de mandato.

Uma medida da nossa disfunção política é um presidente democrata não conseguir impedir uma presidente da Câmara democrata de empreender uma manobra diplomática que toda sua equipe de segurança nacional — do diretor da CIA ao chefe do Estado-Maior Conjunto — qualifica como uma ação insensata.

Certamente, existe o argumento de que Biden deveria expor o blefe de Xi, apoiar Pelosi com pulso firme e dizer a Xi que, se ele ameaçar Taiwan de qualquer maneira, é a China que “sairá queimada”.

Isso poderia funcionar. Poderia dar uma sensação boa num primeiro momento. E também poderia dar início à 3.ª Guerra Mundial.

Na minha visão, Taiwan deveria ter simplesmente pedido a Pelosi que não viesse neste momento. Admiro muito Taiwan, sua economia e a democracia construída na ilha desde o fim da 2.ª Guerra. Visitei Taiwan inúmeras vezes ao longo dos últimos 30 anos e testemunhei pessoalmente o quanto a ilha mudou nesse período — e mudou muito.

Mas uma coisa não mudou para Taiwan: Sua geografia!

Desvantagens geográficas

Taiwan ainda é uma minúscula nação insular, agora com 23 milhões de habitantes, a cerca de 160 quilômetros da costa da China continental, com 1,4 bilhão de habitantes, que reivindica Taiwan como parte da pátria-mãe chinesa. Países que se esquecem de sua geografia se metem em encrenca.

Não confunda isso com algum pacifismo de minha parte. Acredito que é vital para o interesse nacional americano defender a democracia de Taiwan no advento de uma invasão chinesa não provocada.

Mas se formos entrar em um conflito direto com Pequim, que sejamos nós que determinemos o momento segundo nossas motivações. Nossas motivações são o comportamento cada vez mais agressivo da China em campos amplamente variados — de ciberintrusões a roubos de propriedade intelectual, a manobras militares no Mar do Sul da China.

Não cutuquem a China

Dito isto, este não é o momento de cutucar a China, especialmente tendo em conta o atual momento sensível na política chinesa. Xi está diante da possibilidade de garantir a extensão indefinida para seu mandato como líder da China no 20.º Congresso do Partido Comunista, previsto para ocorrer no outono. O Partido Comunista Chinês sempre deixou claro que a reunificação de Taiwan com a China continental é sua “tarefa histórica” e, desde que chegou ao poder, em 2012, Xi ressaltou constantemente e implacavelmente seu compromisso com essa tarefa, determinando manobras militares agressivas em torno de Taiwan.

Com sua visita à ilha, Pelosi dará, na verdade, uma oportunidade para Xi desviar a atenção de seus próprios fracassos: a estratégia truculenta para tentar impedir a disseminação da covid-19, impondo lockdowns sobre as principais cidades da China; e a gigantesca bolha imobiliária que agora está se esvaziando e ameaça provocar uma crise bancária e uma imensa dívida pública resultante do apoio irrestrito de Xi às empresas estatais.

Duvido realmente que a atual liderança de Taiwan, no fundo de seu coração, desejava uma visita de Pelosi neste momento. Qualquer um que tenha acompanhado o cuidadoso comportamento da presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista, pró-independência, desde sua eleição, em 2016, tem de estar impressionado com seus consistentes esforços em defesa da independência de Taiwan sem dar à China alguma desculpa fácil para uma ação militar contra a ilha.

Lamentavelmente, temo que o crescente consenso dentro da China de Xi é que a questão de Taiwan só pode ser resolvida militarmente, mas a China quer fazer isso segundo seu próprio cronograma. Nosso objetivo deveria ser dissuadir a China dessa empreitada militar segundo o NOSSO cronograma: eternamente.

Mas a melhor maneira de fazer isso é armar Taiwan até que a ilha se torne o que analistas militares chamam de “porco espinho” — um país repleto de tantos mísseis que a China jamais ousaria pôr suas mãos em cima — ao mesmo tempo que diz e faz o mínimo possível para provocar a China fazendo-a pensar que ela TEM de colocar as mãos em Taiwan agora. Perseguir qualquer coisa que não seja uma abordagem equilibrada seria um erro terrível, com consequências vastas e imprevisíveis. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Tenho muito respeito pela presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi. Mas ao levar adiante uma visita a Taiwan, contrariando a vontade do presidente Joe Biden, ela faz algo absolutamente imprudente, perigoso e irresponsável.

Nada de bom sairá disso. Taiwan não ficará mais segura nem mais próspera como resultado dessa visita puramente simbólica, e muitas coisas ruins poderiam acontecer. Entre elas, uma resposta militar chinesa que poderia resultar nos EUA sendo mergulhados no mesmo momento em conflitos indiretos contra a Rússia e suas armas nucleares e contra a China e suas armas nucleares.

E se você pensa que nossos aliados europeus — diante de uma guerra existencial com a Rússia pela Ucrânia — se juntarão a nós se houver um conflito dos EUA com a China por Taiwan provocado por essa visita desnecessária, você não está entendendo nada a respeito do que está acontecendo no mundo.

Comecemos com o conflito indireto contra a Rússia e a maneira com que a visita de Pelosi a Taiwan o espreita.

Foco no que mais importa

Há momentos nas relações internacionais em que você tem de manter o foco no prêmio. O prêmio de hoje é claro como cristal: Temos de garantir que a Ucrânia seja capaz, no mínimo, de conter — e no máximo, de reverter — a invasão não provocada de Vladimir Putin, que, se for bem-sucedida, representará uma ameaça direta à estabilidade de toda a União Europeia.

Para ajudar a criar a melhor possibilidade para a Ucrânia reverter a invasão de Putin, Biden e seu conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, realizaram uma série de reuniões difíceis com a liderança da China, implorando a Pequim que não entre no conflito na Ucrânia fornecendo ajuda militar à Rússia — e particularmente agora, num momento em que o arsenal de Putin está diminuído por cinco meses de guerra excruciante.

Biden, de acordo com uma graduada autoridade americana, disse pessoalmente ao presidente Xi Jinping que, se a China entrar na guerra na Ucrânia do lado da Rússia, Pequim estaria arriscando acesso a dois dos mais importantes mercados de exportação — Estados Unidos e União Europeia. (A China fabrica alguns dos melhores drones no mundo, que são precisamente o que as tropas de Putin necessitam neste exato momento.)

Manifestantes pró-EUA esperam Nancy Pelosi em Taipé  Foto: Ann Wang/ REUTERS

Um acordo tácito com os chineses

Ao que tudo indica, dizem-me autoridades americanas, a China respondeu não fornecendo ajuda militar a Putin — enquanto EUA e a Otan têm dado à Ucrânia uma quantidade significativa de armas avançadas e apoio em inteligência que têm causado bastante estrago no Exército da Rússia, uma ostensiva aliada da China.

Com tudo isso em jogo, por que diabos a presidente da Câmara escolhe visitar Taiwan e provocar deliberadamente a China agora, tornando-se a mais graduada autoridade americana a fazer uma visita oficial à ilha desde Newt Gingrich, que esteve lá em 1997, quando a China era muito mais fraca economicamente e militarmente?

O pior momento possível

O momento não poderia ser pior. Caro leitor: A guerra na Ucrânia não acabou. E, privadamente, as autoridades americanas estão muito mais preocupadas com a liderança da Ucrânia do que deixam transparecer. Há uma profunda desconfiança da Casa Branca em relação ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski — consideravelmente maior do que tem sido noticiada.

Trapaças e desonestidades ocorrem em Kiev. Em 17 de julho, Zelenski demitiu a procuradora-geral do país e o chefe da agência de inteligência doméstica — o rearranjo mais significativo em seu governo desde que a Rússia invadiu, em fevereiro. Seria o equivalente a Biden demitir Merrick Garland e Bill Burns no mesmo dia. Mas eu ainda não li nenhuma reportagem que explique de maneira convincente o que aconteceu nos bastidores. É como se não quiséssemos cavucar atentamente demais as entranhas de Kiev por medo da corrupção e das falcatruas que possamos encontrar depois de termos investido tanto por lá. (Escreverei mais a respeito desses perigos outro dia.)

TV chinesa anuncia exercícios militares na costa de Taiwan Foto: REUTERS/Tingshu Wang

Risco de ataque nuclear russo

Enquanto isso, graduadas autoridades americanas acreditam que Putin está bastante disposto a considerar o uso de uma arma nuclear menor contra a Ucrânia, caso ele veja seu Exército diante da derrota certa.

Em suma, esta guerra na Ucrânia NÃO acabou de nenhuma maneira, NÃO se estabilizou e ESTÁ REPLETA de surpresas perigosas que podem pipocar a qualquer dia. E ainda por cima, em meio a isso tudo, vamos arriscar um conflito com a China por Taiwan, provocado por uma visita arbitrária e frívola da presidente da Câmara?

A primeira lição da geopolítica é que você não entra em uma guerra de duas frentes contra duas superpotências ao mesmo tempo.

O risco de conflito com a China

Agora, consideremos a possibilidade de um conflito indireto contra a China e como a visita de Pelosi poderia desencadeá-lo.

De acordo com reportagens veiculadas na China, Xi disse a Biden em seu telefonema na semana passada, aludindo ao envolvimento dos EUA nos assuntos de Taiwan, como a possível visita de Pelosi, que, “quem brincar com fogo sairá queimado”.A equipe de segurança nacional de Biden deixou claro a Pelosi, uma antiga defensora dos direitos humanos na China, por que ela não deveria visitar Taiwan neste momento. Mas o presidente não telefonou para ela para pedir diretamente que ela não aterrissasse na ilha, aparentemente preocupado em não parecer brando em relação à China, abrindo uma frente para os republicanos o atacarem durante as campanhas das eleições de meio de mandato.

Uma medida da nossa disfunção política é um presidente democrata não conseguir impedir uma presidente da Câmara democrata de empreender uma manobra diplomática que toda sua equipe de segurança nacional — do diretor da CIA ao chefe do Estado-Maior Conjunto — qualifica como uma ação insensata.

Certamente, existe o argumento de que Biden deveria expor o blefe de Xi, apoiar Pelosi com pulso firme e dizer a Xi que, se ele ameaçar Taiwan de qualquer maneira, é a China que “sairá queimada”.

Isso poderia funcionar. Poderia dar uma sensação boa num primeiro momento. E também poderia dar início à 3.ª Guerra Mundial.

Na minha visão, Taiwan deveria ter simplesmente pedido a Pelosi que não viesse neste momento. Admiro muito Taiwan, sua economia e a democracia construída na ilha desde o fim da 2.ª Guerra. Visitei Taiwan inúmeras vezes ao longo dos últimos 30 anos e testemunhei pessoalmente o quanto a ilha mudou nesse período — e mudou muito.

Mas uma coisa não mudou para Taiwan: Sua geografia!

Desvantagens geográficas

Taiwan ainda é uma minúscula nação insular, agora com 23 milhões de habitantes, a cerca de 160 quilômetros da costa da China continental, com 1,4 bilhão de habitantes, que reivindica Taiwan como parte da pátria-mãe chinesa. Países que se esquecem de sua geografia se metem em encrenca.

Não confunda isso com algum pacifismo de minha parte. Acredito que é vital para o interesse nacional americano defender a democracia de Taiwan no advento de uma invasão chinesa não provocada.

Mas se formos entrar em um conflito direto com Pequim, que sejamos nós que determinemos o momento segundo nossas motivações. Nossas motivações são o comportamento cada vez mais agressivo da China em campos amplamente variados — de ciberintrusões a roubos de propriedade intelectual, a manobras militares no Mar do Sul da China.

Não cutuquem a China

Dito isto, este não é o momento de cutucar a China, especialmente tendo em conta o atual momento sensível na política chinesa. Xi está diante da possibilidade de garantir a extensão indefinida para seu mandato como líder da China no 20.º Congresso do Partido Comunista, previsto para ocorrer no outono. O Partido Comunista Chinês sempre deixou claro que a reunificação de Taiwan com a China continental é sua “tarefa histórica” e, desde que chegou ao poder, em 2012, Xi ressaltou constantemente e implacavelmente seu compromisso com essa tarefa, determinando manobras militares agressivas em torno de Taiwan.

Com sua visita à ilha, Pelosi dará, na verdade, uma oportunidade para Xi desviar a atenção de seus próprios fracassos: a estratégia truculenta para tentar impedir a disseminação da covid-19, impondo lockdowns sobre as principais cidades da China; e a gigantesca bolha imobiliária que agora está se esvaziando e ameaça provocar uma crise bancária e uma imensa dívida pública resultante do apoio irrestrito de Xi às empresas estatais.

Duvido realmente que a atual liderança de Taiwan, no fundo de seu coração, desejava uma visita de Pelosi neste momento. Qualquer um que tenha acompanhado o cuidadoso comportamento da presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista, pró-independência, desde sua eleição, em 2016, tem de estar impressionado com seus consistentes esforços em defesa da independência de Taiwan sem dar à China alguma desculpa fácil para uma ação militar contra a ilha.

Lamentavelmente, temo que o crescente consenso dentro da China de Xi é que a questão de Taiwan só pode ser resolvida militarmente, mas a China quer fazer isso segundo seu próprio cronograma. Nosso objetivo deveria ser dissuadir a China dessa empreitada militar segundo o NOSSO cronograma: eternamente.

Mas a melhor maneira de fazer isso é armar Taiwan até que a ilha se torne o que analistas militares chamam de “porco espinho” — um país repleto de tantos mísseis que a China jamais ousaria pôr suas mãos em cima — ao mesmo tempo que diz e faz o mínimo possível para provocar a China fazendo-a pensar que ela TEM de colocar as mãos em Taiwan agora. Perseguir qualquer coisa que não seja uma abordagem equilibrada seria um erro terrível, com consequências vastas e imprevisíveis. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Tenho muito respeito pela presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi. Mas ao levar adiante uma visita a Taiwan, contrariando a vontade do presidente Joe Biden, ela faz algo absolutamente imprudente, perigoso e irresponsável.

Nada de bom sairá disso. Taiwan não ficará mais segura nem mais próspera como resultado dessa visita puramente simbólica, e muitas coisas ruins poderiam acontecer. Entre elas, uma resposta militar chinesa que poderia resultar nos EUA sendo mergulhados no mesmo momento em conflitos indiretos contra a Rússia e suas armas nucleares e contra a China e suas armas nucleares.

E se você pensa que nossos aliados europeus — diante de uma guerra existencial com a Rússia pela Ucrânia — se juntarão a nós se houver um conflito dos EUA com a China por Taiwan provocado por essa visita desnecessária, você não está entendendo nada a respeito do que está acontecendo no mundo.

Comecemos com o conflito indireto contra a Rússia e a maneira com que a visita de Pelosi a Taiwan o espreita.

Foco no que mais importa

Há momentos nas relações internacionais em que você tem de manter o foco no prêmio. O prêmio de hoje é claro como cristal: Temos de garantir que a Ucrânia seja capaz, no mínimo, de conter — e no máximo, de reverter — a invasão não provocada de Vladimir Putin, que, se for bem-sucedida, representará uma ameaça direta à estabilidade de toda a União Europeia.

Para ajudar a criar a melhor possibilidade para a Ucrânia reverter a invasão de Putin, Biden e seu conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, realizaram uma série de reuniões difíceis com a liderança da China, implorando a Pequim que não entre no conflito na Ucrânia fornecendo ajuda militar à Rússia — e particularmente agora, num momento em que o arsenal de Putin está diminuído por cinco meses de guerra excruciante.

Biden, de acordo com uma graduada autoridade americana, disse pessoalmente ao presidente Xi Jinping que, se a China entrar na guerra na Ucrânia do lado da Rússia, Pequim estaria arriscando acesso a dois dos mais importantes mercados de exportação — Estados Unidos e União Europeia. (A China fabrica alguns dos melhores drones no mundo, que são precisamente o que as tropas de Putin necessitam neste exato momento.)

Manifestantes pró-EUA esperam Nancy Pelosi em Taipé  Foto: Ann Wang/ REUTERS

Um acordo tácito com os chineses

Ao que tudo indica, dizem-me autoridades americanas, a China respondeu não fornecendo ajuda militar a Putin — enquanto EUA e a Otan têm dado à Ucrânia uma quantidade significativa de armas avançadas e apoio em inteligência que têm causado bastante estrago no Exército da Rússia, uma ostensiva aliada da China.

Com tudo isso em jogo, por que diabos a presidente da Câmara escolhe visitar Taiwan e provocar deliberadamente a China agora, tornando-se a mais graduada autoridade americana a fazer uma visita oficial à ilha desde Newt Gingrich, que esteve lá em 1997, quando a China era muito mais fraca economicamente e militarmente?

O pior momento possível

O momento não poderia ser pior. Caro leitor: A guerra na Ucrânia não acabou. E, privadamente, as autoridades americanas estão muito mais preocupadas com a liderança da Ucrânia do que deixam transparecer. Há uma profunda desconfiança da Casa Branca em relação ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski — consideravelmente maior do que tem sido noticiada.

Trapaças e desonestidades ocorrem em Kiev. Em 17 de julho, Zelenski demitiu a procuradora-geral do país e o chefe da agência de inteligência doméstica — o rearranjo mais significativo em seu governo desde que a Rússia invadiu, em fevereiro. Seria o equivalente a Biden demitir Merrick Garland e Bill Burns no mesmo dia. Mas eu ainda não li nenhuma reportagem que explique de maneira convincente o que aconteceu nos bastidores. É como se não quiséssemos cavucar atentamente demais as entranhas de Kiev por medo da corrupção e das falcatruas que possamos encontrar depois de termos investido tanto por lá. (Escreverei mais a respeito desses perigos outro dia.)

TV chinesa anuncia exercícios militares na costa de Taiwan Foto: REUTERS/Tingshu Wang

Risco de ataque nuclear russo

Enquanto isso, graduadas autoridades americanas acreditam que Putin está bastante disposto a considerar o uso de uma arma nuclear menor contra a Ucrânia, caso ele veja seu Exército diante da derrota certa.

Em suma, esta guerra na Ucrânia NÃO acabou de nenhuma maneira, NÃO se estabilizou e ESTÁ REPLETA de surpresas perigosas que podem pipocar a qualquer dia. E ainda por cima, em meio a isso tudo, vamos arriscar um conflito com a China por Taiwan, provocado por uma visita arbitrária e frívola da presidente da Câmara?

A primeira lição da geopolítica é que você não entra em uma guerra de duas frentes contra duas superpotências ao mesmo tempo.

O risco de conflito com a China

Agora, consideremos a possibilidade de um conflito indireto contra a China e como a visita de Pelosi poderia desencadeá-lo.

De acordo com reportagens veiculadas na China, Xi disse a Biden em seu telefonema na semana passada, aludindo ao envolvimento dos EUA nos assuntos de Taiwan, como a possível visita de Pelosi, que, “quem brincar com fogo sairá queimado”.A equipe de segurança nacional de Biden deixou claro a Pelosi, uma antiga defensora dos direitos humanos na China, por que ela não deveria visitar Taiwan neste momento. Mas o presidente não telefonou para ela para pedir diretamente que ela não aterrissasse na ilha, aparentemente preocupado em não parecer brando em relação à China, abrindo uma frente para os republicanos o atacarem durante as campanhas das eleições de meio de mandato.

Uma medida da nossa disfunção política é um presidente democrata não conseguir impedir uma presidente da Câmara democrata de empreender uma manobra diplomática que toda sua equipe de segurança nacional — do diretor da CIA ao chefe do Estado-Maior Conjunto — qualifica como uma ação insensata.

Certamente, existe o argumento de que Biden deveria expor o blefe de Xi, apoiar Pelosi com pulso firme e dizer a Xi que, se ele ameaçar Taiwan de qualquer maneira, é a China que “sairá queimada”.

Isso poderia funcionar. Poderia dar uma sensação boa num primeiro momento. E também poderia dar início à 3.ª Guerra Mundial.

Na minha visão, Taiwan deveria ter simplesmente pedido a Pelosi que não viesse neste momento. Admiro muito Taiwan, sua economia e a democracia construída na ilha desde o fim da 2.ª Guerra. Visitei Taiwan inúmeras vezes ao longo dos últimos 30 anos e testemunhei pessoalmente o quanto a ilha mudou nesse período — e mudou muito.

Mas uma coisa não mudou para Taiwan: Sua geografia!

Desvantagens geográficas

Taiwan ainda é uma minúscula nação insular, agora com 23 milhões de habitantes, a cerca de 160 quilômetros da costa da China continental, com 1,4 bilhão de habitantes, que reivindica Taiwan como parte da pátria-mãe chinesa. Países que se esquecem de sua geografia se metem em encrenca.

Não confunda isso com algum pacifismo de minha parte. Acredito que é vital para o interesse nacional americano defender a democracia de Taiwan no advento de uma invasão chinesa não provocada.

Mas se formos entrar em um conflito direto com Pequim, que sejamos nós que determinemos o momento segundo nossas motivações. Nossas motivações são o comportamento cada vez mais agressivo da China em campos amplamente variados — de ciberintrusões a roubos de propriedade intelectual, a manobras militares no Mar do Sul da China.

Não cutuquem a China

Dito isto, este não é o momento de cutucar a China, especialmente tendo em conta o atual momento sensível na política chinesa. Xi está diante da possibilidade de garantir a extensão indefinida para seu mandato como líder da China no 20.º Congresso do Partido Comunista, previsto para ocorrer no outono. O Partido Comunista Chinês sempre deixou claro que a reunificação de Taiwan com a China continental é sua “tarefa histórica” e, desde que chegou ao poder, em 2012, Xi ressaltou constantemente e implacavelmente seu compromisso com essa tarefa, determinando manobras militares agressivas em torno de Taiwan.

Com sua visita à ilha, Pelosi dará, na verdade, uma oportunidade para Xi desviar a atenção de seus próprios fracassos: a estratégia truculenta para tentar impedir a disseminação da covid-19, impondo lockdowns sobre as principais cidades da China; e a gigantesca bolha imobiliária que agora está se esvaziando e ameaça provocar uma crise bancária e uma imensa dívida pública resultante do apoio irrestrito de Xi às empresas estatais.

Duvido realmente que a atual liderança de Taiwan, no fundo de seu coração, desejava uma visita de Pelosi neste momento. Qualquer um que tenha acompanhado o cuidadoso comportamento da presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista, pró-independência, desde sua eleição, em 2016, tem de estar impressionado com seus consistentes esforços em defesa da independência de Taiwan sem dar à China alguma desculpa fácil para uma ação militar contra a ilha.

Lamentavelmente, temo que o crescente consenso dentro da China de Xi é que a questão de Taiwan só pode ser resolvida militarmente, mas a China quer fazer isso segundo seu próprio cronograma. Nosso objetivo deveria ser dissuadir a China dessa empreitada militar segundo o NOSSO cronograma: eternamente.

Mas a melhor maneira de fazer isso é armar Taiwan até que a ilha se torne o que analistas militares chamam de “porco espinho” — um país repleto de tantos mísseis que a China jamais ousaria pôr suas mãos em cima — ao mesmo tempo que diz e faz o mínimo possível para provocar a China fazendo-a pensar que ela TEM de colocar as mãos em Taiwan agora. Perseguir qualquer coisa que não seja uma abordagem equilibrada seria um erro terrível, com consequências vastas e imprevisíveis. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Tenho muito respeito pela presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi. Mas ao levar adiante uma visita a Taiwan, contrariando a vontade do presidente Joe Biden, ela faz algo absolutamente imprudente, perigoso e irresponsável.

Nada de bom sairá disso. Taiwan não ficará mais segura nem mais próspera como resultado dessa visita puramente simbólica, e muitas coisas ruins poderiam acontecer. Entre elas, uma resposta militar chinesa que poderia resultar nos EUA sendo mergulhados no mesmo momento em conflitos indiretos contra a Rússia e suas armas nucleares e contra a China e suas armas nucleares.

E se você pensa que nossos aliados europeus — diante de uma guerra existencial com a Rússia pela Ucrânia — se juntarão a nós se houver um conflito dos EUA com a China por Taiwan provocado por essa visita desnecessária, você não está entendendo nada a respeito do que está acontecendo no mundo.

Comecemos com o conflito indireto contra a Rússia e a maneira com que a visita de Pelosi a Taiwan o espreita.

Foco no que mais importa

Há momentos nas relações internacionais em que você tem de manter o foco no prêmio. O prêmio de hoje é claro como cristal: Temos de garantir que a Ucrânia seja capaz, no mínimo, de conter — e no máximo, de reverter — a invasão não provocada de Vladimir Putin, que, se for bem-sucedida, representará uma ameaça direta à estabilidade de toda a União Europeia.

Para ajudar a criar a melhor possibilidade para a Ucrânia reverter a invasão de Putin, Biden e seu conselheiro de segurança nacional, Jake Sullivan, realizaram uma série de reuniões difíceis com a liderança da China, implorando a Pequim que não entre no conflito na Ucrânia fornecendo ajuda militar à Rússia — e particularmente agora, num momento em que o arsenal de Putin está diminuído por cinco meses de guerra excruciante.

Biden, de acordo com uma graduada autoridade americana, disse pessoalmente ao presidente Xi Jinping que, se a China entrar na guerra na Ucrânia do lado da Rússia, Pequim estaria arriscando acesso a dois dos mais importantes mercados de exportação — Estados Unidos e União Europeia. (A China fabrica alguns dos melhores drones no mundo, que são precisamente o que as tropas de Putin necessitam neste exato momento.)

Manifestantes pró-EUA esperam Nancy Pelosi em Taipé  Foto: Ann Wang/ REUTERS

Um acordo tácito com os chineses

Ao que tudo indica, dizem-me autoridades americanas, a China respondeu não fornecendo ajuda militar a Putin — enquanto EUA e a Otan têm dado à Ucrânia uma quantidade significativa de armas avançadas e apoio em inteligência que têm causado bastante estrago no Exército da Rússia, uma ostensiva aliada da China.

Com tudo isso em jogo, por que diabos a presidente da Câmara escolhe visitar Taiwan e provocar deliberadamente a China agora, tornando-se a mais graduada autoridade americana a fazer uma visita oficial à ilha desde Newt Gingrich, que esteve lá em 1997, quando a China era muito mais fraca economicamente e militarmente?

O pior momento possível

O momento não poderia ser pior. Caro leitor: A guerra na Ucrânia não acabou. E, privadamente, as autoridades americanas estão muito mais preocupadas com a liderança da Ucrânia do que deixam transparecer. Há uma profunda desconfiança da Casa Branca em relação ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski — consideravelmente maior do que tem sido noticiada.

Trapaças e desonestidades ocorrem em Kiev. Em 17 de julho, Zelenski demitiu a procuradora-geral do país e o chefe da agência de inteligência doméstica — o rearranjo mais significativo em seu governo desde que a Rússia invadiu, em fevereiro. Seria o equivalente a Biden demitir Merrick Garland e Bill Burns no mesmo dia. Mas eu ainda não li nenhuma reportagem que explique de maneira convincente o que aconteceu nos bastidores. É como se não quiséssemos cavucar atentamente demais as entranhas de Kiev por medo da corrupção e das falcatruas que possamos encontrar depois de termos investido tanto por lá. (Escreverei mais a respeito desses perigos outro dia.)

TV chinesa anuncia exercícios militares na costa de Taiwan Foto: REUTERS/Tingshu Wang

Risco de ataque nuclear russo

Enquanto isso, graduadas autoridades americanas acreditam que Putin está bastante disposto a considerar o uso de uma arma nuclear menor contra a Ucrânia, caso ele veja seu Exército diante da derrota certa.

Em suma, esta guerra na Ucrânia NÃO acabou de nenhuma maneira, NÃO se estabilizou e ESTÁ REPLETA de surpresas perigosas que podem pipocar a qualquer dia. E ainda por cima, em meio a isso tudo, vamos arriscar um conflito com a China por Taiwan, provocado por uma visita arbitrária e frívola da presidente da Câmara?

A primeira lição da geopolítica é que você não entra em uma guerra de duas frentes contra duas superpotências ao mesmo tempo.

O risco de conflito com a China

Agora, consideremos a possibilidade de um conflito indireto contra a China e como a visita de Pelosi poderia desencadeá-lo.

De acordo com reportagens veiculadas na China, Xi disse a Biden em seu telefonema na semana passada, aludindo ao envolvimento dos EUA nos assuntos de Taiwan, como a possível visita de Pelosi, que, “quem brincar com fogo sairá queimado”.A equipe de segurança nacional de Biden deixou claro a Pelosi, uma antiga defensora dos direitos humanos na China, por que ela não deveria visitar Taiwan neste momento. Mas o presidente não telefonou para ela para pedir diretamente que ela não aterrissasse na ilha, aparentemente preocupado em não parecer brando em relação à China, abrindo uma frente para os republicanos o atacarem durante as campanhas das eleições de meio de mandato.

Uma medida da nossa disfunção política é um presidente democrata não conseguir impedir uma presidente da Câmara democrata de empreender uma manobra diplomática que toda sua equipe de segurança nacional — do diretor da CIA ao chefe do Estado-Maior Conjunto — qualifica como uma ação insensata.

Certamente, existe o argumento de que Biden deveria expor o blefe de Xi, apoiar Pelosi com pulso firme e dizer a Xi que, se ele ameaçar Taiwan de qualquer maneira, é a China que “sairá queimada”.

Isso poderia funcionar. Poderia dar uma sensação boa num primeiro momento. E também poderia dar início à 3.ª Guerra Mundial.

Na minha visão, Taiwan deveria ter simplesmente pedido a Pelosi que não viesse neste momento. Admiro muito Taiwan, sua economia e a democracia construída na ilha desde o fim da 2.ª Guerra. Visitei Taiwan inúmeras vezes ao longo dos últimos 30 anos e testemunhei pessoalmente o quanto a ilha mudou nesse período — e mudou muito.

Mas uma coisa não mudou para Taiwan: Sua geografia!

Desvantagens geográficas

Taiwan ainda é uma minúscula nação insular, agora com 23 milhões de habitantes, a cerca de 160 quilômetros da costa da China continental, com 1,4 bilhão de habitantes, que reivindica Taiwan como parte da pátria-mãe chinesa. Países que se esquecem de sua geografia se metem em encrenca.

Não confunda isso com algum pacifismo de minha parte. Acredito que é vital para o interesse nacional americano defender a democracia de Taiwan no advento de uma invasão chinesa não provocada.

Mas se formos entrar em um conflito direto com Pequim, que sejamos nós que determinemos o momento segundo nossas motivações. Nossas motivações são o comportamento cada vez mais agressivo da China em campos amplamente variados — de ciberintrusões a roubos de propriedade intelectual, a manobras militares no Mar do Sul da China.

Não cutuquem a China

Dito isto, este não é o momento de cutucar a China, especialmente tendo em conta o atual momento sensível na política chinesa. Xi está diante da possibilidade de garantir a extensão indefinida para seu mandato como líder da China no 20.º Congresso do Partido Comunista, previsto para ocorrer no outono. O Partido Comunista Chinês sempre deixou claro que a reunificação de Taiwan com a China continental é sua “tarefa histórica” e, desde que chegou ao poder, em 2012, Xi ressaltou constantemente e implacavelmente seu compromisso com essa tarefa, determinando manobras militares agressivas em torno de Taiwan.

Com sua visita à ilha, Pelosi dará, na verdade, uma oportunidade para Xi desviar a atenção de seus próprios fracassos: a estratégia truculenta para tentar impedir a disseminação da covid-19, impondo lockdowns sobre as principais cidades da China; e a gigantesca bolha imobiliária que agora está se esvaziando e ameaça provocar uma crise bancária e uma imensa dívida pública resultante do apoio irrestrito de Xi às empresas estatais.

Duvido realmente que a atual liderança de Taiwan, no fundo de seu coração, desejava uma visita de Pelosi neste momento. Qualquer um que tenha acompanhado o cuidadoso comportamento da presidente taiwanesa, Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista, pró-independência, desde sua eleição, em 2016, tem de estar impressionado com seus consistentes esforços em defesa da independência de Taiwan sem dar à China alguma desculpa fácil para uma ação militar contra a ilha.

Lamentavelmente, temo que o crescente consenso dentro da China de Xi é que a questão de Taiwan só pode ser resolvida militarmente, mas a China quer fazer isso segundo seu próprio cronograma. Nosso objetivo deveria ser dissuadir a China dessa empreitada militar segundo o NOSSO cronograma: eternamente.

Mas a melhor maneira de fazer isso é armar Taiwan até que a ilha se torne o que analistas militares chamam de “porco espinho” — um país repleto de tantos mísseis que a China jamais ousaria pôr suas mãos em cima — ao mesmo tempo que diz e faz o mínimo possível para provocar a China fazendo-a pensar que ela TEM de colocar as mãos em Taiwan agora. Perseguir qualquer coisa que não seja uma abordagem equilibrada seria um erro terrível, com consequências vastas e imprevisíveis. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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