Tropas russas estão cansadas da guerra, mas querem conquistar mais território na Ucrânia


Muitos soldados russos afirmam que considerariam um fracasso um cessar-fogo nas atuais posições, indicando o descontentamento nacionalista que o Kremlin poderia enfrentar ao aceitar um cessar-fogo

Por Anatoly Kurmanaev (The New York Times)

Nas manobras diplomáticas em torno da guerra na Ucrânia, muitos ucranianos e seus aliados europeus acusaram o presidente Trump de oferecer ao Kremlin concessões demais para garantir um acordo de paz rápido.

As coisas parecem muito diferentes dos bunkers e hospitais militares russos. Para muitos soldados russos e seus apoiadores nacionalistas, as propostas de paz de Washington representam muito pouco.

Em entrevistas, 11 soldados russos que lutam ou lutaram na Ucrânia expressaram profundo ceticismo em relação aos esforços diplomáticos que, na sexta feira, resultaram nas primeiras negociações diretas de paz em três anos, mas foram breves e pouco produtivos. Falando por telefone, os soldados disseram que rejeitavam um cessar-fogo incondicional proposto pela Ucrânia, acrescentando que as forças russas deveriam continuar lutando pelo menos até conquistarem todas as quatro regiões do sul e leste da Ucrânia reivindicadas, mas apenas parcialmente controladas, pelo Kremlin.

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Soldado ucraniano prepara para atingir posições russas em Kharkiv, Ucrânia  Foto: Anatolii Lysianskyi/AP

“Estamos todos cansados, queremos voltar para casa. Mas queremos tomar todas as regiões, para não termos que lutar por elas no futuro”, disse Sergei, um soldado russo convocado que luta na região oriental de Donetsk, referindo-se ao território anexado. “Caso contrário, todos aqueles homens terão morrido em vão?”

As entrevistas são uma rara janela para o moral militar russo, destacando os desafios internos que o presidente russo, Vladimir Putin, enfrentaria para encerrar a guerra em termos aquém de seus objetivos maximalistas. As demandas dos soldados também indicam que a anexação precipitada de quatro regiões ucranianas por Putin no início da guerra pode ter limitado suas opções atuais nas negociações, pois uma parte significativa da população consideraria qualquer coisa menos do que isso uma derrota.

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O New York Times verificou as identidades dos soldados por meio de redes sociais e documentos pessoais, mas está omitindo seus sobrenomes para protegê-los de retaliações.

Os soldados, que lutaram em diferentes unidades e áreas, falaram com profunda amargura a respeito das autoridades e dos civis de seu país, a quem acusam de se beneficiarem da guerra, ignorando as dificuldades da linha de frente. Seus comentários apontam para as dificuldades que a Rússia enfrentaria após qualquer acordo de paz para reintegrar os militares à vida civil e para recolocar a economia de tempos de guerra em um patamar civil.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião em Moscou, Rússia  Foto: Grigory Sysoyev/AFP
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“Vocês entendem o que significa para um país ter um milhão de pessoas treinadas para matar sem medo de sangue?”, disse Dmitri, que lutou na Ucrânia em uma unidade paramilitar russa até outubro. “Um milhão de assassinos furiosos é um problema bastante sério se eles enxergarem nossos governantes como homens que não estão do lado deles.”

Alguns dos soldados entrevistados têm lutado para conciliar seu desejo pessoal de paz e o cansaço causado pela guerra com a necessidade de dar sentido aos seus sacrifícios pessoais por meio de um resultado vitorioso para a Rússia. Embora ambas as forças armadas guardem com cuidado seus números de baixas, pesquisadores independentes estimam que um total de mais de um milhão de soldados russos e ucranianos morreram ou ficaram gravemente feridos.

“Estou no meio de toda essa confusão e, honestamente, estou cansado disso”, disse um soldado russo convocado, também chamado Dmitri, que continua uniformizado. “Não tenho mais vontade de continuar cozinhando nessa sopa.”

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Tanque russo realiza exercício militar em uma região próxima ao mar Báltico  Foto: Ministério da Defesa da Rússia/ AP

Ele e Sergei estavam entre os 300.000 homens russos convocados às pressas por Putin no final de 2022 para deter uma contraofensiva ucraniana surpresa naquele ano. Os homens convocados ajudaram o Exército Russo a estabilizar a frente de batalha e retomar a iniciativa.

Os que sobreviveram foram mantidos indefinidamente na linha de frente. O Exército Russo também estendeu indefinidamente todos os contratos de serviço assinados por voluntários para reforçar suas fileiras.

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Isso significa que um acordo de paz e a eventual desmobilização oferecem à grande maioria dos soldados russos da linha de frente a única chance realista de retornar para casa em breve, vivos e inteiros.

Corrupção

Em entrevistas, os soldados reclamaram da falta de licenças, da corrupção entre os superiores e da indiferença de seus compatriotas. Alguns soldados acusaram o comando militar e os empresários de seu país de se oporem a um acordo de paz porque estão se beneficiando com o aumento dos gastos públicos em tempos de guerra.

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“Alguém me enviou um vídeo recentemente: meninas e meninos dançando, curtindo bares, festejando até de manhã. Enquanto isso, há uma guerra acontecendo”, disse Andrei, um soldado russo voluntário em Donetsk. “Todos se esqueceram de nós. Há muito tempo deixamos de ser heróis para seja quem for.”

Tal ressentimento tornou o controle dos territórios disputados, há muito considerado por analistas uma moeda de troca em meio aos desentendimentos mais profundos entre Rússia e Ucrânia, um objetivo de guerra inegociável para muitos militares russos e seus apoiadores.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião com representantes da classe empresarial da Rússia, em Moscou  Foto: Grigory Sysoyev/AFP

“Demonstramos nossa força. O mundo inteiro está lutando contra nós, e eles não estão avançando muito”, disse Yevgeniy, um soldado russo contratado que lutou na Ucrânia até dezembro de 2023. “Não quero ver nenhuma concessão porque vi o preço de cada palmo de terra.”

Logo após invadir a Ucrânia, o Kremlin realizou referendos simulados nas quatro províncias ucranianas onde ocorreu a maior parte dos combates, supostamente demonstrando apoio esmagador à adesão à Rússia, e as anexou logo em seguida. Após três anos de combates, no entanto, as forças russas têm controle quase total de apenas uma delas, Luhansk. Nas outras três regiões — Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia — a Rússia controla de 65% a 75% do território.

Durante grande parte da guerra, o governo ucraniano rejeitou categoricamente a cessão de terras à Rússia, exigindo o retorno às fronteiras internacionalmente reconhecidas do país e insistindo em garantias de segurança antes de concordar com uma trégua. Nos meses mais recentes, o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, suavizou sua posição, aceitando uma proposta de cessar-fogo sem garantias de segurança, sugerindo que aceitaria pelo menos uma perda temporária do território já sob ocupação russa.

Essa proposta de efetivamente congelar o conflito ao longo da atual linha de frente é vista por muitos na Ucrânia e no Ocidente como uma grande concessão ao Kremlin, abandonando milhões de cidadãos ucranianos à vida sob ocupação e, temem, legitimando e recompensando a agressão russa.

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, participa de uma coletiva de imprensa em Kiev, Ucrânia  Foto: Efrem Lukatsky/AP

Entrevistas com os soldados e pesquisas de opinião russas mostram que tal trégua também deixaria insatisfeita grande parte da sociedade russa. Anos de propaganda de guerra e ganhos constantes, ainda que lentos, no campo de batalha, convenceram muitos russos de que seu país está travando um conflito existencial contra o Ocidente, que não terminará até a capitulação ucraniana.

“Se não houver um cessar-fogo agora, precisamos continuar até o fim”, disse Nikolai, um soldado russo na Ucrânia. “Porque, se não o fizermos, mais cedo ou mais tarde — em cinco ou dez anos — haverá uma nova guerra.”

Garantias de segurança

Kiev e seus apoiadores expressaram o mesmo temor, alegando que um acordo de paz sem garantias de segurança ocidentais para a Ucrânia levaria a uma nova invasão russa no futuro.

Desde o início, Putin afirmou que os objetivos de sua invasão eram “desmilitarizar e desnazificar” a Ucrânia, o que implica remover o governo democraticamente eleito em Kiev; impedir a Ucrânia de ingressar na aliança da Otan; e proteger a população russófona da Ucrânia, que, segundo o Kremlin, estaria falsamente sob ameaça de genocídio.

Uma pesquisa realizada na Rússia em meados de abril por uma empresa de pesquisas independente, a Chronicles, constatou que quase metade dos entrevistados afirmou que não apoiaria um acordo de paz que não alcançasse esses objetivos iniciais. Essas pesquisas mostram a dificuldade que Putin enfrentaria para apresentar à sociedade russa o atual status quo na Ucrânia como uma vitória.

Poucos na Rússia esperam que Putin, que detém poder absoluto, pague um custo político imediato por qualquer acordo de paz. Seu controle sobre a mídia do país lhe permitiria apresentar qualquer resultado como um sucesso, pelo menos a princípio. Mas uma vitória pouco convincente poderia eventualmente se transformar no tipo de descontentamento que alimentou o motim da força paramilitar Wagner em 2023.

As autoridades do Kremlin provavelmente se lembram da retirada da União Soviética do Afeganistão em 1989, após uma guerra inconclusiva, que irritou muitos veteranos e contribuiu para o colapso do Estado comunista. Uma vitória militar russa decepcionante na região separatista da Chechênia gerou descontentamento público que ajudou a levar Putin ao poder em 1999.

“É claro que quero um cessar-fogo, porque mesmo uma paz ruim é melhor do que uma guerra boa”, disse Dmitri, o ex-soldado paramilitar. “Mas também demos um passo tão grande que não podemos parar agora.”

“Caso contrário, terá sido tudo um jogo? Será que Vladimir Vladimirovich Putin fez seu joguinho, matou um milhão de pessoas, e fica tudo bem?”, disse ele.

“Acho que, assim, este governo não seria tão bom”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Nas manobras diplomáticas em torno da guerra na Ucrânia, muitos ucranianos e seus aliados europeus acusaram o presidente Trump de oferecer ao Kremlin concessões demais para garantir um acordo de paz rápido.

As coisas parecem muito diferentes dos bunkers e hospitais militares russos. Para muitos soldados russos e seus apoiadores nacionalistas, as propostas de paz de Washington representam muito pouco.

Em entrevistas, 11 soldados russos que lutam ou lutaram na Ucrânia expressaram profundo ceticismo em relação aos esforços diplomáticos que, na sexta feira, resultaram nas primeiras negociações diretas de paz em três anos, mas foram breves e pouco produtivos. Falando por telefone, os soldados disseram que rejeitavam um cessar-fogo incondicional proposto pela Ucrânia, acrescentando que as forças russas deveriam continuar lutando pelo menos até conquistarem todas as quatro regiões do sul e leste da Ucrânia reivindicadas, mas apenas parcialmente controladas, pelo Kremlin.

Soldado ucraniano prepara para atingir posições russas em Kharkiv, Ucrânia  Foto: Anatolii Lysianskyi/AP

“Estamos todos cansados, queremos voltar para casa. Mas queremos tomar todas as regiões, para não termos que lutar por elas no futuro”, disse Sergei, um soldado russo convocado que luta na região oriental de Donetsk, referindo-se ao território anexado. “Caso contrário, todos aqueles homens terão morrido em vão?”

As entrevistas são uma rara janela para o moral militar russo, destacando os desafios internos que o presidente russo, Vladimir Putin, enfrentaria para encerrar a guerra em termos aquém de seus objetivos maximalistas. As demandas dos soldados também indicam que a anexação precipitada de quatro regiões ucranianas por Putin no início da guerra pode ter limitado suas opções atuais nas negociações, pois uma parte significativa da população consideraria qualquer coisa menos do que isso uma derrota.

O New York Times verificou as identidades dos soldados por meio de redes sociais e documentos pessoais, mas está omitindo seus sobrenomes para protegê-los de retaliações.

Os soldados, que lutaram em diferentes unidades e áreas, falaram com profunda amargura a respeito das autoridades e dos civis de seu país, a quem acusam de se beneficiarem da guerra, ignorando as dificuldades da linha de frente. Seus comentários apontam para as dificuldades que a Rússia enfrentaria após qualquer acordo de paz para reintegrar os militares à vida civil e para recolocar a economia de tempos de guerra em um patamar civil.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião em Moscou, Rússia  Foto: Grigory Sysoyev/AFP

“Vocês entendem o que significa para um país ter um milhão de pessoas treinadas para matar sem medo de sangue?”, disse Dmitri, que lutou na Ucrânia em uma unidade paramilitar russa até outubro. “Um milhão de assassinos furiosos é um problema bastante sério se eles enxergarem nossos governantes como homens que não estão do lado deles.”

Alguns dos soldados entrevistados têm lutado para conciliar seu desejo pessoal de paz e o cansaço causado pela guerra com a necessidade de dar sentido aos seus sacrifícios pessoais por meio de um resultado vitorioso para a Rússia. Embora ambas as forças armadas guardem com cuidado seus números de baixas, pesquisadores independentes estimam que um total de mais de um milhão de soldados russos e ucranianos morreram ou ficaram gravemente feridos.

“Estou no meio de toda essa confusão e, honestamente, estou cansado disso”, disse um soldado russo convocado, também chamado Dmitri, que continua uniformizado. “Não tenho mais vontade de continuar cozinhando nessa sopa.”

Tanque russo realiza exercício militar em uma região próxima ao mar Báltico  Foto: Ministério da Defesa da Rússia/ AP

Ele e Sergei estavam entre os 300.000 homens russos convocados às pressas por Putin no final de 2022 para deter uma contraofensiva ucraniana surpresa naquele ano. Os homens convocados ajudaram o Exército Russo a estabilizar a frente de batalha e retomar a iniciativa.

Os que sobreviveram foram mantidos indefinidamente na linha de frente. O Exército Russo também estendeu indefinidamente todos os contratos de serviço assinados por voluntários para reforçar suas fileiras.

Isso significa que um acordo de paz e a eventual desmobilização oferecem à grande maioria dos soldados russos da linha de frente a única chance realista de retornar para casa em breve, vivos e inteiros.

Corrupção

Em entrevistas, os soldados reclamaram da falta de licenças, da corrupção entre os superiores e da indiferença de seus compatriotas. Alguns soldados acusaram o comando militar e os empresários de seu país de se oporem a um acordo de paz porque estão se beneficiando com o aumento dos gastos públicos em tempos de guerra.

“Alguém me enviou um vídeo recentemente: meninas e meninos dançando, curtindo bares, festejando até de manhã. Enquanto isso, há uma guerra acontecendo”, disse Andrei, um soldado russo voluntário em Donetsk. “Todos se esqueceram de nós. Há muito tempo deixamos de ser heróis para seja quem for.”

Tal ressentimento tornou o controle dos territórios disputados, há muito considerado por analistas uma moeda de troca em meio aos desentendimentos mais profundos entre Rússia e Ucrânia, um objetivo de guerra inegociável para muitos militares russos e seus apoiadores.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião com representantes da classe empresarial da Rússia, em Moscou  Foto: Grigory Sysoyev/AFP

“Demonstramos nossa força. O mundo inteiro está lutando contra nós, e eles não estão avançando muito”, disse Yevgeniy, um soldado russo contratado que lutou na Ucrânia até dezembro de 2023. “Não quero ver nenhuma concessão porque vi o preço de cada palmo de terra.”

Logo após invadir a Ucrânia, o Kremlin realizou referendos simulados nas quatro províncias ucranianas onde ocorreu a maior parte dos combates, supostamente demonstrando apoio esmagador à adesão à Rússia, e as anexou logo em seguida. Após três anos de combates, no entanto, as forças russas têm controle quase total de apenas uma delas, Luhansk. Nas outras três regiões — Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia — a Rússia controla de 65% a 75% do território.

Durante grande parte da guerra, o governo ucraniano rejeitou categoricamente a cessão de terras à Rússia, exigindo o retorno às fronteiras internacionalmente reconhecidas do país e insistindo em garantias de segurança antes de concordar com uma trégua. Nos meses mais recentes, o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, suavizou sua posição, aceitando uma proposta de cessar-fogo sem garantias de segurança, sugerindo que aceitaria pelo menos uma perda temporária do território já sob ocupação russa.

Essa proposta de efetivamente congelar o conflito ao longo da atual linha de frente é vista por muitos na Ucrânia e no Ocidente como uma grande concessão ao Kremlin, abandonando milhões de cidadãos ucranianos à vida sob ocupação e, temem, legitimando e recompensando a agressão russa.

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, participa de uma coletiva de imprensa em Kiev, Ucrânia  Foto: Efrem Lukatsky/AP

Entrevistas com os soldados e pesquisas de opinião russas mostram que tal trégua também deixaria insatisfeita grande parte da sociedade russa. Anos de propaganda de guerra e ganhos constantes, ainda que lentos, no campo de batalha, convenceram muitos russos de que seu país está travando um conflito existencial contra o Ocidente, que não terminará até a capitulação ucraniana.

“Se não houver um cessar-fogo agora, precisamos continuar até o fim”, disse Nikolai, um soldado russo na Ucrânia. “Porque, se não o fizermos, mais cedo ou mais tarde — em cinco ou dez anos — haverá uma nova guerra.”

Garantias de segurança

Kiev e seus apoiadores expressaram o mesmo temor, alegando que um acordo de paz sem garantias de segurança ocidentais para a Ucrânia levaria a uma nova invasão russa no futuro.

Desde o início, Putin afirmou que os objetivos de sua invasão eram “desmilitarizar e desnazificar” a Ucrânia, o que implica remover o governo democraticamente eleito em Kiev; impedir a Ucrânia de ingressar na aliança da Otan; e proteger a população russófona da Ucrânia, que, segundo o Kremlin, estaria falsamente sob ameaça de genocídio.

Uma pesquisa realizada na Rússia em meados de abril por uma empresa de pesquisas independente, a Chronicles, constatou que quase metade dos entrevistados afirmou que não apoiaria um acordo de paz que não alcançasse esses objetivos iniciais. Essas pesquisas mostram a dificuldade que Putin enfrentaria para apresentar à sociedade russa o atual status quo na Ucrânia como uma vitória.

Poucos na Rússia esperam que Putin, que detém poder absoluto, pague um custo político imediato por qualquer acordo de paz. Seu controle sobre a mídia do país lhe permitiria apresentar qualquer resultado como um sucesso, pelo menos a princípio. Mas uma vitória pouco convincente poderia eventualmente se transformar no tipo de descontentamento que alimentou o motim da força paramilitar Wagner em 2023.

As autoridades do Kremlin provavelmente se lembram da retirada da União Soviética do Afeganistão em 1989, após uma guerra inconclusiva, que irritou muitos veteranos e contribuiu para o colapso do Estado comunista. Uma vitória militar russa decepcionante na região separatista da Chechênia gerou descontentamento público que ajudou a levar Putin ao poder em 1999.

“É claro que quero um cessar-fogo, porque mesmo uma paz ruim é melhor do que uma guerra boa”, disse Dmitri, o ex-soldado paramilitar. “Mas também demos um passo tão grande que não podemos parar agora.”

“Caso contrário, terá sido tudo um jogo? Será que Vladimir Vladimirovich Putin fez seu joguinho, matou um milhão de pessoas, e fica tudo bem?”, disse ele.

“Acho que, assim, este governo não seria tão bom”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Nas manobras diplomáticas em torno da guerra na Ucrânia, muitos ucranianos e seus aliados europeus acusaram o presidente Trump de oferecer ao Kremlin concessões demais para garantir um acordo de paz rápido.

As coisas parecem muito diferentes dos bunkers e hospitais militares russos. Para muitos soldados russos e seus apoiadores nacionalistas, as propostas de paz de Washington representam muito pouco.

Em entrevistas, 11 soldados russos que lutam ou lutaram na Ucrânia expressaram profundo ceticismo em relação aos esforços diplomáticos que, na sexta feira, resultaram nas primeiras negociações diretas de paz em três anos, mas foram breves e pouco produtivos. Falando por telefone, os soldados disseram que rejeitavam um cessar-fogo incondicional proposto pela Ucrânia, acrescentando que as forças russas deveriam continuar lutando pelo menos até conquistarem todas as quatro regiões do sul e leste da Ucrânia reivindicadas, mas apenas parcialmente controladas, pelo Kremlin.

Soldado ucraniano prepara para atingir posições russas em Kharkiv, Ucrânia  Foto: Anatolii Lysianskyi/AP

“Estamos todos cansados, queremos voltar para casa. Mas queremos tomar todas as regiões, para não termos que lutar por elas no futuro”, disse Sergei, um soldado russo convocado que luta na região oriental de Donetsk, referindo-se ao território anexado. “Caso contrário, todos aqueles homens terão morrido em vão?”

As entrevistas são uma rara janela para o moral militar russo, destacando os desafios internos que o presidente russo, Vladimir Putin, enfrentaria para encerrar a guerra em termos aquém de seus objetivos maximalistas. As demandas dos soldados também indicam que a anexação precipitada de quatro regiões ucranianas por Putin no início da guerra pode ter limitado suas opções atuais nas negociações, pois uma parte significativa da população consideraria qualquer coisa menos do que isso uma derrota.

O New York Times verificou as identidades dos soldados por meio de redes sociais e documentos pessoais, mas está omitindo seus sobrenomes para protegê-los de retaliações.

Os soldados, que lutaram em diferentes unidades e áreas, falaram com profunda amargura a respeito das autoridades e dos civis de seu país, a quem acusam de se beneficiarem da guerra, ignorando as dificuldades da linha de frente. Seus comentários apontam para as dificuldades que a Rússia enfrentaria após qualquer acordo de paz para reintegrar os militares à vida civil e para recolocar a economia de tempos de guerra em um patamar civil.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião em Moscou, Rússia  Foto: Grigory Sysoyev/AFP

“Vocês entendem o que significa para um país ter um milhão de pessoas treinadas para matar sem medo de sangue?”, disse Dmitri, que lutou na Ucrânia em uma unidade paramilitar russa até outubro. “Um milhão de assassinos furiosos é um problema bastante sério se eles enxergarem nossos governantes como homens que não estão do lado deles.”

Alguns dos soldados entrevistados têm lutado para conciliar seu desejo pessoal de paz e o cansaço causado pela guerra com a necessidade de dar sentido aos seus sacrifícios pessoais por meio de um resultado vitorioso para a Rússia. Embora ambas as forças armadas guardem com cuidado seus números de baixas, pesquisadores independentes estimam que um total de mais de um milhão de soldados russos e ucranianos morreram ou ficaram gravemente feridos.

“Estou no meio de toda essa confusão e, honestamente, estou cansado disso”, disse um soldado russo convocado, também chamado Dmitri, que continua uniformizado. “Não tenho mais vontade de continuar cozinhando nessa sopa.”

Tanque russo realiza exercício militar em uma região próxima ao mar Báltico  Foto: Ministério da Defesa da Rússia/ AP

Ele e Sergei estavam entre os 300.000 homens russos convocados às pressas por Putin no final de 2022 para deter uma contraofensiva ucraniana surpresa naquele ano. Os homens convocados ajudaram o Exército Russo a estabilizar a frente de batalha e retomar a iniciativa.

Os que sobreviveram foram mantidos indefinidamente na linha de frente. O Exército Russo também estendeu indefinidamente todos os contratos de serviço assinados por voluntários para reforçar suas fileiras.

Isso significa que um acordo de paz e a eventual desmobilização oferecem à grande maioria dos soldados russos da linha de frente a única chance realista de retornar para casa em breve, vivos e inteiros.

Corrupção

Em entrevistas, os soldados reclamaram da falta de licenças, da corrupção entre os superiores e da indiferença de seus compatriotas. Alguns soldados acusaram o comando militar e os empresários de seu país de se oporem a um acordo de paz porque estão se beneficiando com o aumento dos gastos públicos em tempos de guerra.

“Alguém me enviou um vídeo recentemente: meninas e meninos dançando, curtindo bares, festejando até de manhã. Enquanto isso, há uma guerra acontecendo”, disse Andrei, um soldado russo voluntário em Donetsk. “Todos se esqueceram de nós. Há muito tempo deixamos de ser heróis para seja quem for.”

Tal ressentimento tornou o controle dos territórios disputados, há muito considerado por analistas uma moeda de troca em meio aos desentendimentos mais profundos entre Rússia e Ucrânia, um objetivo de guerra inegociável para muitos militares russos e seus apoiadores.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma reunião com representantes da classe empresarial da Rússia, em Moscou  Foto: Grigory Sysoyev/AFP

“Demonstramos nossa força. O mundo inteiro está lutando contra nós, e eles não estão avançando muito”, disse Yevgeniy, um soldado russo contratado que lutou na Ucrânia até dezembro de 2023. “Não quero ver nenhuma concessão porque vi o preço de cada palmo de terra.”

Logo após invadir a Ucrânia, o Kremlin realizou referendos simulados nas quatro províncias ucranianas onde ocorreu a maior parte dos combates, supostamente demonstrando apoio esmagador à adesão à Rússia, e as anexou logo em seguida. Após três anos de combates, no entanto, as forças russas têm controle quase total de apenas uma delas, Luhansk. Nas outras três regiões — Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia — a Rússia controla de 65% a 75% do território.

Durante grande parte da guerra, o governo ucraniano rejeitou categoricamente a cessão de terras à Rússia, exigindo o retorno às fronteiras internacionalmente reconhecidas do país e insistindo em garantias de segurança antes de concordar com uma trégua. Nos meses mais recentes, o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, suavizou sua posição, aceitando uma proposta de cessar-fogo sem garantias de segurança, sugerindo que aceitaria pelo menos uma perda temporária do território já sob ocupação russa.

Essa proposta de efetivamente congelar o conflito ao longo da atual linha de frente é vista por muitos na Ucrânia e no Ocidente como uma grande concessão ao Kremlin, abandonando milhões de cidadãos ucranianos à vida sob ocupação e, temem, legitimando e recompensando a agressão russa.

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, participa de uma coletiva de imprensa em Kiev, Ucrânia  Foto: Efrem Lukatsky/AP

Entrevistas com os soldados e pesquisas de opinião russas mostram que tal trégua também deixaria insatisfeita grande parte da sociedade russa. Anos de propaganda de guerra e ganhos constantes, ainda que lentos, no campo de batalha, convenceram muitos russos de que seu país está travando um conflito existencial contra o Ocidente, que não terminará até a capitulação ucraniana.

“Se não houver um cessar-fogo agora, precisamos continuar até o fim”, disse Nikolai, um soldado russo na Ucrânia. “Porque, se não o fizermos, mais cedo ou mais tarde — em cinco ou dez anos — haverá uma nova guerra.”

Garantias de segurança

Kiev e seus apoiadores expressaram o mesmo temor, alegando que um acordo de paz sem garantias de segurança ocidentais para a Ucrânia levaria a uma nova invasão russa no futuro.

Desde o início, Putin afirmou que os objetivos de sua invasão eram “desmilitarizar e desnazificar” a Ucrânia, o que implica remover o governo democraticamente eleito em Kiev; impedir a Ucrânia de ingressar na aliança da Otan; e proteger a população russófona da Ucrânia, que, segundo o Kremlin, estaria falsamente sob ameaça de genocídio.

Uma pesquisa realizada na Rússia em meados de abril por uma empresa de pesquisas independente, a Chronicles, constatou que quase metade dos entrevistados afirmou que não apoiaria um acordo de paz que não alcançasse esses objetivos iniciais. Essas pesquisas mostram a dificuldade que Putin enfrentaria para apresentar à sociedade russa o atual status quo na Ucrânia como uma vitória.

Poucos na Rússia esperam que Putin, que detém poder absoluto, pague um custo político imediato por qualquer acordo de paz. Seu controle sobre a mídia do país lhe permitiria apresentar qualquer resultado como um sucesso, pelo menos a princípio. Mas uma vitória pouco convincente poderia eventualmente se transformar no tipo de descontentamento que alimentou o motim da força paramilitar Wagner em 2023.

As autoridades do Kremlin provavelmente se lembram da retirada da União Soviética do Afeganistão em 1989, após uma guerra inconclusiva, que irritou muitos veteranos e contribuiu para o colapso do Estado comunista. Uma vitória militar russa decepcionante na região separatista da Chechênia gerou descontentamento público que ajudou a levar Putin ao poder em 1999.

“É claro que quero um cessar-fogo, porque mesmo uma paz ruim é melhor do que uma guerra boa”, disse Dmitri, o ex-soldado paramilitar. “Mas também demos um passo tão grande que não podemos parar agora.”

“Caso contrário, terá sido tudo um jogo? Será que Vladimir Vladimirovich Putin fez seu joguinho, matou um milhão de pessoas, e fica tudo bem?”, disse ele.

“Acho que, assim, este governo não seria tão bom”, acrescentou. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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