Gerando resumo
CIDADE DO VATICANO — Duas semanas após ascender ao Trono de São Pedro, o primeiro papa americano está sendo cogitado por líderes mundiais para outro papel crucial: o de pacificador entre a Ucrânia e a Rússia.
A iniciativa de ter o Vaticano como mediador das negociações entre Moscou e Kiev pode ser um teste inicial para o papa Leão XIV, que, no passado, assumiu uma postura mais abertamente pró-Ucrânia do que seu antecessor. Mas Leão XIV também aproveitou a resolução de conflitos como um tema inicial. Desempenhar um papel no fim do pior conflito da Europa desde a 2.ª Guerra pode ajudar a definir o início do seu papado.
“A Santa Sé está disponível para que os inimigos possam se reunir e olhar uns nos olhos dos outros”, disse Leão XIV durante um encontro com as igrejas orientais na semana passada.

Líderes mundiais sinalizaram interesse no papel do Vaticano, sendo uma instituição neutra vista como estando acima dos interesses estratégicos de outros mediadores. O presidente Donald Trump, após seu telefonema na segunda feira com o presidente russo, Vladimir Putin, disse que Leão XIV se ofereceu para sediar as negociações. Mais tarde, ele acrescentou: “Acho que seria ótimo uma reunião no Vaticano... Acho que talvez isso pudesse aliviar um pouco essa raiva toda”.
Na noite de terça feira, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, publicou no Facebook que, a pedido de Trump, entrou em contato com Leão e confirmou sua disposição de sediar as negociações.
“Expressei profunda gratidão por sua abertura e por seu compromisso incansável com a paz”, escreveu Meloni. O Vaticano não respondeu aos repetidos pedidos de comentário e ainda não esclareceu qual seria a “oferta” de Leão.

A mediação do Vaticano, ou de qualquer intermediário, enfrenta grandes dificuldades. Um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia permanece ilusório, com esforços recentes frustrados pela preferência da Rússia por negociações longas sem interromper os combates — levando a acusações de que ela está protelando enquanto busca uma vitória militar.
A Europa e, há algum tempo, os Estados Unidos têm pressionado por um cessar-fogo antes das negociações. Mas o ministro das relações exteriores russo, Sergei Lavrov, rejeitou essa abordagem na quarta feira, afirmando em comentários divulgados pela agência de notícias russa Tass que os europeus precisam de um cessar-fogo para “armar a Ucrânia com calma” e fortalecer sua defesa.
E um acordo para realizar negociações de paz no Vaticano ainda enfrenta desafios práticos. Sanções europeias e proibições de viagens deixaram autoridades russas nervosas quanto ao envio de altos funcionários em voos que precisam pousar na Itália para ter acesso à Santa Sé, o menor Estado soberano do mundo e completamente cercado por território italiano. Como membro da União Europeia, espera-se da Itália que cumpra essas sanções e detenha os infratores.
Mas autoridades italianas informaram aos russos que, de acordo com o Tratado de Latrão de 1929, que estabeleceu o Estado da Cidade do Vaticano, seu governo deve conceder passagem segura às missões diplomáticas destinadas ao Vaticano, de acordo com uma pessoa familiarizada com as discussões. A viagem sem obstáculos de Olga Lyubimova, ministra da Cultura sancionada por Putin, para comparecer ao funeral do papa Francisco em abril foi vista como um teste bem-sucedido, disse a fonte, que falou sob condição de anonimato para discutir questões diplomáticas delicadas.

Sediar negociações na Cidade do Vaticano também pode exigir concessões logísticas de outros países europeus, incluindo a permissão para que autoridades russas sobrevoem o espaço aéreo europeu. O jato do governo russo que transportava Lyubimova para uma segunda visita — desta vez para a posse de Leão — teve que retornar em pleno voo devido a problemas técnicos. Isso ocorreu depois que o voo foi forçado a fazer uma rota sinuosa para se aproximar da Itália a partir do Norte da África — um trajeto que mais que dobrou o tempo de voo, disse a fonte.
Especialistas jurídicos afirmam que ainda não está claro se figuras mais importantes, particularmente Putin, seriam protegidas pela abrangência do tratado.
“A questão [para os russos] é se os benefícios superam os riscos”, disse a fonte.

Mediações
Na década mais recente, o Vaticano se envolveu na mediação de conflitos com diferentes graus de sucesso, principalmente enviando clérigos do alto escalão para outros lugares. A mediação do Vaticano abriu caminho para a visita do presidente Barack Obama a Cuba em 2016. A Santa Sé também buscou, sem sucesso, mediar um acordo bem-sucedido entre o governo autoritário e a oposição política na Venezuela.
Transformar a Santa Sé em uma espécie de Suíça sagrada retomaria o papel que o Vaticano desempenhou no início da década de 1980, ao sediar negociações que impediram a Argentina e o Chile de entrarem em guerra. Ao contrário do envolvimento do Vaticano nesse e em vários outros conflitos, no entanto, nem a Ucrânia nem a Rússia são países de maioria católica.
O envolvimento do Vaticano pode ser “algo realmente arriscado”, em parte porque dois dos líderes envolvidos — Putin e Trump — “não são exatamente uma garantia de confiabilidade”, disse Massimo Faggioli, teólogo católico da Universidade Villanova. “Então, se fizerem isso, é na esperança de conseguir algo em nome da Ucrânia, da Europa, do mundo inteiro.”

Leão está sendo repentinamente procurado como mediador em outros conflitos. O presidente colombiano, Gustavo Petro, anunciou na segunda feira que, durante sua audiência com o papa, pediu ao Vaticano que sediasse negociações entre seu governo e o grupo rebelde Exército de Libertação Nacional (ELN). O Vaticano já havia auxiliado o governo colombiano no histórico acordo de paz com um grupo rebelde maior, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
A Ucrânia, segundo autoridades, buscou a intervenção do Vaticano pela primeira vez durante o pontificado do papa Francisco, logo após a invasão russa em 2022. A Santa Sé — por meio de suas missões diplomáticas em Kiev e Moscou e de um emissário sênior designado para a região, o cardeal Matteo Zuppi — desde então ajudou a facilitar as trocas de prisioneiros e auxiliou discretamente a repatriação de centenas de crianças ucranianas levadas para a Rússia.
Em entrevista ao Washington Post, Andrii Yurash, embaixador da Ucrânia na Santa Sé, que participou de uma reunião entre Leão e o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, no domingo, descreveu o pontífice de 69 anos como tendo se oferecido “de forma geral” a fazer tudo que pudesse para ajudar a interromper o conflito, em vez de fazer uma proposta específica para sediar as negociações.
A suposição, disse Yurash, é que “se houver solicitação de ambas as partes, [a Cidade do Vaticano] será usada como... local para as reuniões”. Zelenski nomeou publicamente o Vaticano, juntamente com a Suíça e a atual anfitriã, a Turquia, como possíveis locais para futuras negociações.
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“O Vaticano é um símbolo da mais alta moralidade da civilização democrática ocidental livre. ... Não há dúvida de que será de grande valor moral” uma decisão de sediar as negociações, disse Yurash.
Os ucranianos continuaram buscando a mediação do Vaticano, embora algumas autoridades em Kiev tenham se mostrado incomodadas com Francisco, que, como argentino, foi criado em um país onde muitas pessoas nutrem desconfiança em relação ao Ocidente, bem como visões mais pragmáticas da Rússia. No início da guerra, Francisco lamentou o conflito, mantendo-se fiel à neutralidade tradicional do Vaticano — algo nada surpreendente em uma instituição onde, durante a 2.ª Guerra, o papa Pio XII se absteve de criticar diretamente Adolf Hitler.
Francisco também enfrentou as ações da Igreja Ortodoxa Russa para justificar a guerra, tendo alertado seu patriarca em 2022 para não se tornar o “coroinha de Putin”. Mas ele também demonstrou compreensão pela posição de Moscou, afirmando em maio de 2022 que os “latidos da Otan à porta da Rússia” poderiam ter provocado a invasão. Em agosto de 2023, o Vaticano controlou os danos depois que Francisco aparentemente glorificou o passado imperial da Rússia.

Leão, quando trabalhava como bispo no Peru em 2022, denunciou abertamente a agressão russa, descrevendo a guerra em um vídeo como uma “invasão imperial”. Durante suas duas semanas como papa, ele também mencionou repetidamente a Ucrânia. E seu primeiro telefonema oficial conhecido, e seu primeiro encontro oficial, foram ambos com Zelenski.
“Levo no meu coração os sofrimentos do amado povo ucraniano”, disse Leão durante sua primeira bênção dominical na Praça de São Pedro. “Que tudo seja feito para alcançar uma paz autêntica, justa e duradoura, o mais rápido possível. Que todos os prisioneiros sejam libertados e as crianças possam retornar às suas famílias.”
Yurash disse que as frustrações ucranianas com Francisco eram exageradas. Ele disse que Kiev era grata pela intervenção do Vaticano, juntamente com o Catar e outros intermediários, para ajudar a garantir a libertação de algumas das milhares de crianças ucranianas que seu governo afirma terem sido sequestradas pela Rússia durante a guerra.
Os ucranianos vinham fornecendo nomes e detalhes das crianças a Zuppi, disse ele. Zuppi os repassou aos núncios papais, ou embaixadores do Vaticano, em Kiev e Moscou, que então entrariam em contato com ambos os países. Os esforços do Vaticano, disse Yurash, ajudaram na repatriação de “centenas” de crianças.

Outra autoridade ucraniana que falou sob condição de anonimato para discutir detalhes delicados disse que o Vaticano também auxiliou na troca de corpos e prisioneiros políticos.
“Vocês se lembram de quando, sob o governo de Francisco, todos diziam que o Vaticano não estava fazendo nada?”, disse a autoridade. “Bem, eles estavam fazendo algumas coisas discretamente.”
Na quarta feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, se mostrou evasivo. “Nenhuma decisão foi tomada ainda em relação ao local das novas negociações”, disse ele a repórteres. Um dia antes, ele reconheceu a “iniciativa do papa”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL







