Leão XIV: cardeal Robert Prevost é eleito novo papa
Votação na Capela Sistina, no Vaticano, reuniu 133 cardeais com menos de 80 anos e elegeu sucessor de papa Francisco.
ROMA - Os cardeais escolheram o novo papa, o cardeal americano com cidadania peruana Robert Francis Prevost, que adotou o nome de Leão XIV, nesta quinta-feira, 8. Ao mesmo tempo que vestia roupas tradicionais e um nome dos mais antigos da história da Igreja, Prevost também demonstrou que pretende dar continuidade às reformas iniciadas por seu antecessor, Francisco: em seu primeiro discurso a fiéis na Praça São Pedro abordou temas como sinodalidade, uma “paz desarmada” e a “construção de pontes”.
Mais do que isso, a escolha de um cardeal americano, mas com grande experiência pastoral no Peru, indica o peso do clero latinoamericano na escolha do novo pontífice. Tanto é que o novo papa, a exemplo de Francisco, falou em dois idiomas (italiano e espanhol), e agradeceu à diocese de Chiclayo, no Peru, onde foi ordenado bispo e permaneceu por nove anos.

É o primeiro papa da ordem agostiniana, que, embora faça homenagem a Santo Agostinho (padre da Igreja e um dos teólogos mais importantes do cristianismo), não foi fundada por ele, mas sim pela Santa Sé, no século XIII. Um dos personagens famosos da congregação foi Martinho Lutero, que rompeu com a Igreja Católica e foi um dos fundadores da Reforma e abriu o caminho do protestantismo.
Leia também
A eleição ocorreu na tarde do segundo dia de conclave, à semelhança dos antecessores Francisco e Bento XVI, e mais curto que de João Paulo II, que durou três dias. A duração do processo foi mais breve do que previam alguns cardeais brasileiros, os quais acreditavam que a eleição poderia demorar, já que muitos dos participantes não se conheciam.
Foi o conclave mais numeroso e diverso da história, com 133 cardeais de 71 países com menos de 80 anos, ou seja, aptos a votar. Leão XIV foi eleito com pelo menos 89 votos, o que representa dois terços do Colégio Cardinalício.
O encontro com fiéis
Prevost foi anunciado como o novo líder da Igreja Católica diante de 150 mil fiéis espalhados pela Praça São Pedro, pela Via della Conciliazione (principal rua de acesso ao Vaticano) e pelas proximidades. A fumaça branca saiu pela chaminé da Capela Sistina às 13h07 de Brasília (18h07 de Roma).
Neste momento, era possível ver pessoas correndo para chegar o mais perto possível da sacada do Vaticano: de jovens a idosos, de leigos a sacerdotes e religiosos. Havia gente esperando o resultado desde as 10h de Brasília (15h de Roma), quando foi permitida a entrada na praça.
O clima era de forte euforia na multidão, marcado por gritos de “Viva o papa!”. Quando o cardeal-protodiácono Dominique Mamberti anunciou a esperada frase “habemus papam” e a escolha de Prevost, passaram a aclamar o nome do novo pontífice, sincronizando as palmas.

Na primeira fila estavam as gêmeas Juliana e Lidiana Moraes, de Passos de Minas (MG), que dizem ter parado ali por um imprevisto: estavam caminhando pela praça perto da hora do almoço, e Juliana levou um tombo. Foi ajudada por alguns padres e, como não conseguia caminhar muito, tomou um remédio e decidiu esperar o resultado das votações. “Agora eu vejo que o tombo era para me levar para perto do papa”, brinca. Elas pararam em Roma durante uma viagem de cruzeiro marítimo e coincidiram com o momento histórico.
Natural de Campinas, a analista de TI Aline Carpanesi desistiu de viajar a Milão e Veneza para acompanhar todo o conclave, e esteve presente em todas as fumaças na Praça São Pedro. “Nunca pensei que viveria isso. É um dia histórico, e um dia bonito, ensolarado, e a praça com todas as bandeiras unidas por uma só, a do Vaticano.”
Para isso, ela teve de buscar hospedagem em três lugares diferentes ao longo da semana, incluindo um hostel, em que compartilha o quarto com quatro pessoas desconhecidas, e a diária sai a R$ 500: “É o mais simples que encontrei, porque tudo no geral estava muito caro”.
Leia também
Ex-participante de um conclave
O cardeal Raymundo Damasceno, bispo emérito de Aparecida, se preparava para uma entrevista para a TV na Praça São Pedro quando o barulho da multidão começou. Aos gritos de “è bianca”, “é branca”, as pessoas corriam em direção à avenida que leva até a Basílica de São Pedro, onde nos fundos fica a Capela Sistina. “Nossa, a emoção é grande, não sei ainda o que dizer”.

Damasceno havia ido pela manhã até a praça, mas teve de sair para comprar um remédio para sua gripe. O religioso de 88 anos que esteve presente no conclave que elegeu o papa Francisco em 2013, voltara à tarde para a Praça São Pedro, onde passou a ser abordado por jornalistas. Queriam saber se um brasileiro poderia ser papa ou por qual razão o decano do colégio cardinalício, Giovanni Battista Re, não havia citado Francisco na homilia da missa Pro eligendo Pontifice. Damasceno respondeu a todas as perguntas.
Não tinha pressa. O cardeal, que não participou do conclave porque ultrapassou a idade limite de 80 anos para o voto, acreditava que a eleição se resolveria em pelo menos três dias, talvez quatro. Não esperava uma solução rápida, como as do conclave que elegeu Joseph Ratzinger, resolvido em dois dias e quatro votações, ou o que elegeu Jorge Bergoglio após outros dois dias e cinco votações.
Para Damasceno, o importante era que a homilia de Re havia deixado claro que o novo pontífice, fosse quem fosse, deveria “deixar para trás todos os interesses pessoais e pensar no bem da Igreja, no bem da humanidade”. Não imaginava a eleição do cardeal Prevost, o papa Leão XIV.
Não muito distante dele estava a freira Monalisa Machado, de 39 anos, da Congregação das Irmãs de Maria Auxiliadora. “É uma grande emoção. Estou aqui na praça desde a primeira fumaça até agora”, contou. E o que esperava do novo papa. “Que seja um papa bom para a Igreja e para toda a humanidade”, afirmou a irmã que está na vida religiosa há 16 anos e vive em Roma há cinco.
Perto dela, o padre Gilson Maia, um rogacionista que trabalha na sede de sua congregação, na capital italiana. “Não perdi nenhuma fumaça. Quando é que eu vou ver um novo conclave?”, questionou o sacerdote de 61 anos, um mineiro de Passos que é padre há 33 anos.
A agenda
O Vaticano divulgou a primeira agenda oficial do papa Leão XIV para os próximos dias. Nesta sexta-feira, 9, ele celebrará uma missa com os cardeais às 6 horas de Brasília (11 horas de Roma), prática comum para encerrar o conclave.
No domingo, 11, ele fará uma nova aparição pública na Praça São Pedro para rezar o Regina Caeli às 7 horas de Brasília (meio-dia em Roma, a oração que substitui o Angelus durante o período de Páscoa). Isso também é um costume dos pontífices durante todos os domingos.
O último evento anunciado até o momento é uma audiência com a imprensa na segunda-feira, 12, às 5 horas de Brasília (10 horas de Roma). Um encontro semelhante foi organizado por Francisco logo após a sua eleição.
Possível caminho para seu papado
Robert Prevost, de 69 anos, é o primeiro papa agostiniano da Igreja Católica. Em seu discurso aos fiéis, na quinta-feira, 8, na Praça São Pedro, Leão XIV indicou um possível caminho para seu papado. “Sou um filho de Santo Agostinho. Um agostiniano.” O novo papa relembrou ainda uma célebre frase de Santo Agostinho: ‘Para vocês, sou bispo; mas com vocês, sou cristão.’





