Comando Vermelho: como surgiu uma das maiores facções do País, alvo de megaoperação no Rio

CV foi criado dentro de presídio na Ilha Grande, na década de 70, e tinha incialmente o nome de Falange Vermelha. Ação contra atuais lideranças deixou ao menos 64 mortos nesta terça, 28

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Por Redação
Atualização:

Operação policial contra o Comando Vermelho deixa mortos e se torna a mais letal do Rio

Crédito: Amanda Botelho/Estadão

Uma das maiores facções do País e alvo de uma megaoperação nesta terça, 28, o Comando Vermelho têm características de organizações mafiosas, com domínio de toda a cadeia produtiva dos variados mercados ilícitos em que atua. Em diversas áreas, apresenta alto risco de contaminação da economia. Na Amazônia, tem o controle territorial, sobre a população e as instituições.

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Com 54 anos de existência, a facção nasceu dentro dos presídios do Rio de Janeiro, na década de 70. Foi criada inicialmente com o nome de “Falange Vermelha”, por William da Silva Lima, conhecido como “professor”.

O objetivo inicial era fundar uma organização para combater a tortura e os maus tratos nas penitenciárias. De acordo com o narrado pelo próprio Willian, “era uma forma de comportamento” diante do violento sistema carcerário e impunha regras de convivência entre os detentos. A história da facção foi contada pelo seu fundador no livro “400x1: Uma história do Comando Vermelho”, no qual ele relata sobre sua trajetória no mundo do crime.

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Megaoperação contra o Comando Vermelho deixou ao menos 64 mortos  Foto: Pedro Kirilos/Estadão

William deu entrada no Instituto Penal Candido Mendes, na Ilha Grande, em 1971, e ficou mais de 30 anos preso. Foi condenado a mais de 95 anos de prisão por crimes como assaltos a banco, extorsão e sequestro. Dentro do sistema prisional, atuava como representante dos demais presos e era responsável por elaborar ofícios e cartas para autoridades.

Conforme revelado pelo Estadão, a convivência de presos políticos e bandidos comuns no Cândido Mendes ensinou os fundadores da “Falange Vermelha” a se unirem e a se organizarem em busca de alternativas criminosas lucrativas.

O sucesso da aposta no tráfico de drogas ocorreu porque, na época, cartéis bolivianos e colombianos buscavam contatos na América Latina para ampliar a exportação de cocaína e diversificar a venda além dos Estados Unidos.

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A ampliação da rede varejista de drogas nas favelas do Rio, intensificada entre 1981 e 1986, foi favorecida pela política do governador Leonel Brizola, que a partir de 1983 suspendeu a ação da polícia nos morros.

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A ideologia quase suicida de alguns integrantes ganhou destaque com episódios como o contado na autobiografia de William da Silva Lima, que também virou filme em 2009: em 1980, fugindo da polícia, Bigode, outro cofundador do CV, se refugiou no Conjunto dos Bancários, na Ilha do Governador, e durante 13 horas trocou tiros com 400 policiais até ser morto.

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Em 1980, o grupo conseguiu liderar mais de cem fugas que resultaram em pânico na rede bancária a ponto de forças de segurança desconfiarem da reestruturação de grupos guerrilheiros. Os bancos se defenderam com estratégias eficientes, levando os bandidos a se aventurarem no tráfico. Com um bom fornecedor de cocaína, entre 1983 e 1986, o Comando Vermelho passou a dominar as bocas de fumo tradicionais, tocadas por pequenos traficantes de maconha.

Em 1985, já detinha 70% de todos os pontos de venda em um grande e lucrativo mercado. A concorrência sangrenta por territórios começa também nessa época. A disputa ficaria ainda mais acirrada em 1994, quando ocorre aquela que é considerada uma das maiores traições no mundo do crime carioca. Orlando Jogador, líder do CV no Complexo do Alemão, é assassinado por Uê por causa de rixas ligadas a mulheres.

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Depois do homicídio, Uê cria os Amigos dos Amigos (ADA) no Morro do Adeus, vizinho do Alemão, e inicia uma batalha que vai durar até setembro de 2002. Ele consegue um bom fornecedor de cocaína e apoio de bandidos importantes.

As rixas violentas entre o CV e a ADA foram revistas depois que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) se instalaram nos morros do Rio de Janeiro. A queda no movimento no comércio de drogas, acentuada com a chegada da polícia, levou os antigos inimigos a se unirem. O Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, para onde fugiu grande parte dos traficantes expulsos, são considerados quartel-general do CV.

Megaoperação no Rio de Janeiro Foto: Policia Militar RJ

Novas áreas de atuação e faturamento

Estudo divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em fevereiro deste ano revelou que o crime organizado no Brasil já movimenta mais dinheiro com a venda irregular de combustível, ouro, cigarro e álcool do que com o tráfico de cocaína.

A expansão de atividades criminosas para setores formais da economia é responsável por perdas fiscais na casa dos bilhões de reais e pela ampliação do poder político dos criminosos, sobretudo nas áreas onde o poder público é pouco presente.

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Conforme a pesquisa Rastreamento de Produtos e Enfrentamento ao Crime Organizado no Brasil, as facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) movimentaram R$ 146,8 bilhões em 2022 com a comercialização de combustível, ouro, cigarros e bebida. A movimentação financeira do tráfico de cocaína no mesmo período foi estimada em R$ 15 bilhões.