Conclave: Como é eleito o novo papa? Quem são os cotados para suceder Francisco?
Dos 133 votantes, 108 foram escolhidos durante o papado de Francisco. Veja como é o processo da eleição.
A morte do papa Francisco ocorre em meio a um período convulsivo nas relações internacionais, no qual se esperava que o falecido pontífice desempenhasse um papel importante. Sua partida retira do cenário internacional um líder com grande poder de influência e uma visão nitidamente ambígua do novo governo do presidente Donald Trump. Embora nem todos os 1,4 bilhão de católicos romanos batizados do mundo sigam a orientação de seu líder espiritual em questões temporais, mesmo aqueles que discordam veementemente das opiniões do papa não podem ignorá-las.
Francisco dificilmente poderia ter dado um sinal mais claro de sua desaprovação dos planos do presidente para a deportação em massa dos imigrantes ilegais dos Estados Unidos. Em 19 de janeiro, ele chamou esses planos de “calamidade”. De qualquer forma, o papa não era um grande admirador dos Estados Unidos ou do capitalismo desenfreado. Como latino-americano, ele tinha visto de perto alguns dos aspectos menos dignos de crédito da política externa americana.

Talvez mais do que qualquer um de seus antecessores, ele enfatizou que a doutrina social católica condenava não apenas o marxismo, mas também o liberalismo econômico sem controle. Seus pontos de vista ficaram evidentes menos de um ano depois de sua eleição, com a publicação de seu livro, Evangelii Gaudium - Alegria do Evangelho, no qual ele se insurgiu contra “uma economia de exclusão e desigualdade”, acrescentando: “Essa economia mata”. Suas ideias sobre as mudanças climáticas estavam em desacordo com as de Trump e seu movimento. “Devemos nos comprometer com a proteção da natureza, mudando nossos hábitos pessoais e comunitários”, disse ele no ano passado. A reação dos americanos conservadores às suas restrições e exortações variou de consternação a indignação. É profundamente irônico que a última figura internacional com quem ele se encontrou antes da morte tenha sido J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos.
No entanto, o falecido pontífice e Trump concordavam sobre o aborto e, em um grau mais sutil, sobre a necessidade de pôr fim aos conflitos na Ucrânia e em Gaza. Mas parecia improvável que essas concordâncias viessem a evitar um choque de valores e vontades. Pelo contrário, em 20 de dezembro, Trump nomeou Brian Burch, um crítico linha-dura de Francisco, como seu enviado à Santa Sé. O papa pareceu responder com a nomeação do cardeal Robert McElroy, defensor ferrenho dos imigrantes, como arcebispo de Washington, D.C. O cenário estava armado para o confronto.
Isso não acontecerá agora, a não ser, é claro, que os cardeais encarregados de eleger o sucessor de Francisco escolham um homem nos mesmos moldes. Para alguém de fora, isso pode parecer inevitável: de todos 135 cardeais com menos de 80 anos que têm direito a voto no próximo conclave, apenas 27 não foram escolhidos por Francisco. Mas as eleições papais, que os católicos acreditam ser guiadas pelo Todo-Poderoso sob a forma do Espírito Santo, costumam ser surpreendentes. Francisco foi escolhido em 2013 por um eleitorado quase inteiramente composto por cardeais nomeados por seus dois antecessores conservadores, São João Paulo II e papa Bento XVI.
Há várias razões pelas quais um pontífice liberal não é uma certeza. Uma delas é circunstancial. Francisco foi arrancado “do fim do mundo”, nas suas próprias palavras, e tinha uma propensão a nomear cardeais de lugares muito mais isolados do que sua terra natal, a Argentina. Entre aqueles que escolherão seu sucessor está o prefeito apostólico de Ulaanbaatar, capital da Mongólia. O resultado é que muitos dos cardeais eleitores não se conhecem. Eles podem, portanto, ser mais suscetíveis à influência de um lobby bem organizado. E nos escalões mais altos da Igreja Católica não há lobby mais bem organizado do que os cardeais conservadores americanos.
Outro motivo é que nem todos os indicados por Francisco para o Colégio Cardinalício são progressistas. Na África, particularmente, são raros os bispos e arcebispos liberais. Em muitos casos, o falecido papa teve pouca escolha a não ser nomear o tradicionalista mais competente disponível. Isso talvez explique por que a África estará sub-representada no próximo conclave. A população católica do continente representa cerca de um quinto do total global. No entanto, os africanos representarão apenas um oitavo dos votos.
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Outra consideração é a maneira pela qual os papas são escolhidos. Antes do conclave, os cardeais passam por vários dias de debates informais. Uma das razões é dar-lhes tempo para se conhecerem e decidirem quantos deles são papáveis. Isso será particularmente importante desta vez.
Mas o outro motivo é tentar chegar a um acordo sobre a principal questão enfrentada pela Igreja no momento, para que ela possa ser usada como critério de seleção do próximo papa. Costuma-se dizer dentro e fora do Vaticano que, se os cardeais tivessem concordado em 2005 que o maior desafio do catolicismo era a disseminação do Islã, provavelmente teriam optado por Francis Arinze, um cardeal nigeriano. Em vez disso, decidiram que era a secularização da Europa, e então entregaram o cargo a um alemão, Joseph Ratzinger, que se tornou Bento XVI.
Francisco foi eleito para sacudir a administração do Vaticano e, em especial, para torná-la mais receptiva à igreja em geral. A intenção era reforçar a autoridade e a influência das assembleias de bispos que se reuniam no Vaticano para discutir questões específicas. O pontífice cumpriu a primeira dessas missões em 2022 com a publicação de uma nova constituição do Vaticano – resultado de nove anos de trabalho de um comitê de cardeais. Mas a segunda continua sendo mais uma aspiração do que uma conquista, em grande parte porque Francisco não se mostrava disposto a ceder quando as assembleias, ou sínodos, chegavam a conclusões das quais ele não compartilhava.
O reforço dos poderes dos sínodos pode ser visto como a questão mais urgente. Mas existem várias outras possibilidades. Uma delas é a preocupação com a secularização crescente não apenas da Europa Ocidental e da América do Norte, mas também da Europa Oriental católica e da América Latina. Isso se deve, pelo menos em parte, a outra questão ainda premente: o efeito contínuo e debilitante de repetidos escândalos de abuso sexual de jovens pelo clero. Outra é a ascensão da China, apesar de suas atuais dificuldades econômicas. Isso poderia justificar um prelado asiático. Qualquer que seja a questão escolhida, pode ser que um conservador seja mais adequado para enfrentá-la do que qualquer um dos progressistas – por mais papável que seja. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU



