O que é ‘adultização’? Entenda termo usado por Felca em denúncias
Youtuber fez um vídeo sério para alertar pais sobre a exploração de crianças na internet e como o algoritmo ajuda criminosos. Crédito: Larissa Burchard, Júlia Borja e Júlia Pereira
Uma pesquisa feita em todo o País demonstrou que o brasileiro apoia tanto a criação de regras para proteger crianças e adolescentes nas redes sociais como que empresas devem monitorar os conteúdos compartilhados em suas plataformas digitais e excluir conteúdos ilegais ou criminosos. Quase oito em cada dez entrevistados dizem que empresas devem ser responsabilizadas pelos conteúdos publicados em suas plataformas digitais.
A pesquisa, feita pelo Instituto Locomotiva, realizou entrevistas digitais com 1.500 pessoas maiores de 18 anos de 11 a 14 de agosto. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos.
Na primeira parte, os entrevistados discorreram sobre a exposição de crianças e adolescentes nas redes sociais e a necessidade de regras para proteger esse público:
- 85% concordam que é importante haver uma legislação que regule as redes sociais para proteger crianças e adolescentes;
- 7% discordam;
- 8% não concordam nem discordam.
O debate sobre a proteção de crianças e adolescentes nas plataformas digitais foi impulsionado pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, o Felca, de 27 anos, que tem mais de 14 milhões de seguidores nas redes sociais. Em 6 de agosto ele publicou um vídeo denunciando a “adultização” de crianças, que repercutiu tanto que fez o Congresso Nacional acelerar a votação de um projeto de lei que tenta proteger crianças e adolescentes de exposição na internet. O projeto foi aprovado no Senado na quarta-feira, 27, e agora deve ser sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Para 82% dos entrevistados, atualmente as redes sociais deixam crianças e adolescentes muito expostos; 15% acham que estão sendo um pouco expostos e 3% acham que não estão sendo expostos.
Para 81% dos pesquisados, crianças e adolescentes estão vulneráveis sem a regulação das redes sociais; 9% acham que não, e 10% não concordam nem discordam.
Para 70% do público entrevistado, é preciso criar regras específicas para proteger crianças e adolescentes. Entre eleitores de esquerda, essa proporção sobe para 78%. Outros 30% acham que cabe aos pais cuidar do que crianças e adolescentes acessam nas redes sociais, sem precisar de regras legais. Entre eleitores de direita, esse índice sobe para 43%.
Os pesquisadores perguntaram quais os efeitos mais frequentes da exposição de imagens e vídeos de crianças e adolescentes nas redes sociais, e 71% dos entrevistados acreditam que essa exposição produz falta de segurança. Outros 63% afirmam que aumenta o risco de crimes cibernéticos, e a mesma proporção avalia que aumenta o risco de transtornos mentais.
“Quando o assunto é proteção de crianças e adolescentes, o consenso é amplo. A população enxerga a exposição de jovens como um risco real e imediato, e defende que o Brasil estabeleça regras específicas para reduzir essa vulnerabilidade. Estamos falando de um pacto social: proteger quem ainda não tem condições de se proteger sozinho”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.
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Responsabilidade pela publicação de conteúdos
Na segunda parte da pesquisa, os entrevistados responderam cinco perguntas sobre a responsabilidade pela publicação de conteúdos nas redes sociais, independentemente do público atingido. Para 84% das pessoas, as empresas devem monitorar conteúdos compartilhados em suas redes sociais; 6% acham que não devem, e 10% não têm opinião.
Para 16% dos entrevistados, ao excluir conteúdos ilegais ou criminosos, as empresas estão impactando a liberdade de expressão dos usuários. Entre eleitores de direita, essa proporção sobe para 21%.
Para 78% dos entrevistados, as empresas devem ser responsabilizadas pelos conteúdos publicados em suas plataformas digitais. Esse índice sobe para 84% entre mulheres e 82% entre eleitores de esquerda.
Para 22% do público, as empresas não têm nenhuma responsabilidade sobre os conteúdos publicados em suas plataformas. Essa proporção é maior entre eleitores de direita (32%) e entre homens (29%).
“O debate sobre a regulação das redes sociais já saiu dos gabinetes e chegou às ruas. Oito em cada dez brasileiros apoiam a criação de regras para o ambiente digital, mostrando que a sociedade demanda um espaço onde a liberdade de expressão caminhe lado a lado com a responsabilidade”, afirma Meirelles.
Para o presidente do Instituto Locomotiva, é preciso mobilização para explicar à sociedade que regulação não é censura. “Essa quase unanimidade é combustível, mas ainda precisa virar motor. Se os defensores da regulação conseguirem mostrar com clareza que o algoritmo tira o volante das mãos do usuário, a conversa deixa de ser ‘censura’ e passa a ser liberdade — liberdade de escolha, de controle e de proteção da infância. Algoritmo que decide por você não é liberdade, é tutela. Sem regra, o feed vira roleta viciada em indignação", afirma.
“Regulação não é mordaça, é cinto de segurança no banco de trás da internet. Aí, a pressão deixa de ser difusa e vira pauta concreta no Congresso: pai, mãe, escola, médico e igreja pedindo o óbvio: dever de cuidado com crianças e transparência no funcionamento dos sistemas. Unanimidade desmobilizada é estatística; mobilizada é política pública”, diz Meirelles.
Para ele, mesmo a pressão das big techs e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a regulação pode ser superada pela mobilização: “As big techs têm lobby pesado e o barulho do Trump ajuda a travar o jogo, mas parlamento reage a custo político — e custo político nasce de mobilização. Quando a sociedade entende que há lucro em cima de coisa ilegal, o senso moral acorda. Quando uma plataforma lucra com conteúdo ilegal, ela se comporta como um ‘traficante digital’. Quem lucra com o crime vira sócio do crime."






