Por que cresce o número de pessoas que moram sozinhas?
Nova edição da PNADContínua aponta que 18,4% dos domicílios no País são ocupados por um único morador. Crédito: Caio Possati | TV Estadão
O artista visual Antônio Soares, de 42 anos, mora em um apartamento alugado na Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo. Os 60 m² de espaço que preenche a sua casa são exclusivos para ele, que decidiu viver sozinho depois de anos morando com os pais e dividindo a casa com amigos. “Comecei a sentir falta de ter mais privacidade e independência em relação aos espaços”, diz “Tony” - como costuma ser chamado - ao Estadão.
Nascido em Fortaleza (CE), mas criado em São Paulo, o artista representa um perfil de brasileiro em crescimento: o de pessoas que vivem sozinhas e pagam aluguel.
Segundo a mais recente edição da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada nesta sexta-feira, 22, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os domicílios unipessoais representavam 18,6% do total em 2024 ante 12,2% em 2012 — um aumento de 6,4 pontos porcentuais em 12 anos.

No caso dos que vivem de aluguel, a alta foi de 4,6 pontos porcentuais em um período mais curto. Em 2016, 18,4% dos brasileiros estavam nessa condição, enquanto em 2024, o índice chegou a 23%. Já a fatia da população em moradias próprias caiu de 73% para 67,6% no mesmo intervalo.
Tony mora sozinho por escolha. Ele diz que preza por individualidade, privacidade e por ter o que ele chama de “um espaço de respiro”. “A solitude é uma coisa que nos faz bem, sabe? Quando você está bem consigo, você não apenas não se importa, como você gosta de estar na própria companhia”.
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Em meados 2015, ele saiu da casa dos pais para dividir o mesmo teto com amigos. Seu objetivo era estar mais próximo do centro da cidade, onde trabalhava e tinha os seus momentos de lazer. Depois de alguns anos e algumas mudanças de endereços, Tony decidiu em 2022 que estava na hora de ter o próprio espaço.
“(Minha saída) Não foi por uma questão de briga. Mas eu não queria abrir mão da minha privacidade", diz. “Quando você tem uma vida afetiva em movimento, não é com todo mundo que você se relaciona e quer apresentar para um amigo, ou que as pessoas saibam da sua rotina ou saibam que você passou o final de semana com uma pessoa diferente”.
O artista assegura que encontrou a privacidade que almejava, apesar de sentir no bolso o peso da decisão. “Eu queria ter dado esse passo antes, mas foi só nos últimos anos que eu tive uma condição financeira melhor que me dava a segurança de assumir esses gastos sozinhos”, diz Tony.
Na opinião do artista, ter o próprio espaço pode ser válido até para os relacionamentos afetivos. “Acho saudável que a relação tenha esses respiros, de o casal estar junto quando realmente os dois lados estão a fim de se ver”, afirma.
“O meu desejo é morar em espaços separados. Ter o convívio, a vida compartilhada, mas não necessariamente morando juntos. Pode ser que, daqui um tempo, sim (a gente venha a morar um com o outro), mas eu hoje eu prezo muito por essa individualidade”, ressalta.

Tony divide a sua rotina entre os trabalhos que desenvolve como diretor de arte na parte da manhã, e também o de tatuador, que exige a sua presença em um estúdio perto da sua residência, à tarde. Em casa, ele também pinta telas e projeta intervenções em espaços urbanos, que ele divulga nas suas redes sociais.
Com a veia artística em produção constante, o apartamento acaba se tornando um ateliê. Ainda há espaço em sua casa suficiente para acomodar toda a arte que faz, mas reconhece: “Vai chegar uma hora que vai ficar pequeno”.
“Vai ter o momento em que vou precisar alugar um espaço ainda maior ou alugar outro espaço só para servir de ateliê“, diz.
O artista tem, sim, o desejo de comprar a sua casa e não viver mais pagando aluguel, mas admite que está com dificuldades para encontrar um lugar que se encaixe com o seu orçamento, tenha espaço razoável que atenda as suas necessidades e seja localizado no centro, a sua região preferida para morar.
“O cenário de moradia hoje está em um valor que é difícil assumir um compromisso a longo prazo. Tem lugares no centro, onde eu quero morar, que estão com R$ 500 mil, e um tamanho de 50m², 60m². Existem sobrados, casas, com esse mesmo valor, mas mais longe. Então, hoje, pra mim, não faz sentido comprar uma casa”, afirmou.




