Como a vacina para a covid-19 ajuda a combater tumores malignos

No caso de melanomas, a sobrevida aumenta tanto que ainda não foi possível medir

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Foto do autor Fernando Reinach

Quais as medidas mais importantes para evitar o câncer?

O oncologista Fernando Maluf, cofundador do Instituto Vencer o Câncer, fala sobre os hábitos mais decisivos na prevenção de tumores.

Esta semana foi publicada uma descoberta que pode revolucionar o tratamento de algumas formas de câncer: pessoas que foram vacinadas contra a covid-19 com vacinas de mRNA (Pfizer ou Moderna) respondem muito melhor aos modernos tratamentos imunoterápicos quando comparadas a pessoas que não foram vacinadas. No caso de um tipo de câncer de pulmão, a sobrevida praticamente dobra. No caso de melanomas, a sobrevida aumenta tanto que ainda não foi possível medir.

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Essa descoberta foi feita analisando centenas de pacientes que foram tratados com imunoterápicos entre 2015 e 2022. Ao separar os pacientes tratados em dois grupos (os vacinados e os não vacinados), os cientistas descobriram que os vacinados haviam tido um resultado muito melhor. O resultado era ainda melhor se eles tivessem sido vacinados 100 dias antes ou até 100 dias depois de iniciar a imunoterapia.

A razão foi descoberta ao se estudar o efeito em camundongos: a ativação do sistema imune causada pela vacina facilita o trabalho da imunoterapia. Como essa vacina é disponível e segura, vai bastar testes clínicos simples para aprovar seu uso em combinação com a imunoterapia. Outras vacinas ministradas rotineiramente não provocam o mesmo efeito.

Mas, para entender como isso funciona, é preciso entender a relação entre nosso sistema imune e os tumores. E como funciona a imunoterapia. Apesar de os tumores serem compostos por células do nosso corpo que passam a se dividir e se espalhar por outros órgãos (as temidas metástases), hoje sabemos que nosso sistema imune em muitos casos detecta essas células desvairadas e consegue eliminá-las.

Entretanto, nas últimas décadas foi descoberto que os tumores que de fato crescem no nosso corpo possuem um mecanismo que bloqueia o ataque do sistema imune (pense no campo de energia que protege as naves espaciais nos filmes da série Star Wars - Guerras nas Estrelas).

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Pessoas que foram imunizadas contra a covid-19 com vacinas de mRNA respondem muito melhor aos modernos tratamentos imunoterápicos. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Quando isso foi descoberto, os cientistas foram atrás de drogas que pudessem desativar essas proteções criadas pelos tumores, permitindo o ataque do sistema imune. Essas drogas que rompem o campo de energia dos tumores e permitem o ataque violento do nosso sistema imune são os chamados ICI (immune checkpoint inhibitors). Quando um paciente é tratado com essa classe de droga, a resistência do tumor ao nosso próprio sistema imune desaparece e ele é atacado violentamente. Em muitos casos a pessoa entra em remissão.

Para essas drogas funcionarem, o sistema imune do paciente precisa ter sido treinado para atacar o tumor. Ou seja, ele precisa ter armas para atirar assim que o campo de força é retirado. Se a pessoa não tiver um sistema imune preparado, os ICIs não têm efeito. E isso ocorre em uma fração dos pacientes.

Sabendo disso, os cientistas têm procurado meios de preparar (armar) o sistema imune para ele atacar o tumor assim que o ICI é ministrado. Muitas drogas, com potencial de causar essa ativação, estão em testes clínicos.

O que foi descoberto agora é que a vacina de mRNA contra a covid (causada pelo vírus SARS-CoV-2) tem exatamente esse efeito. Ao produzir uma resposta imune ao vírus da covid, essa vacina ativa de forma generalizada o sistema imune deixando o sistema preparado para atacar quando o ICI retira as defesas do tumor. E o tratamento é bem-sucedido.

Como essa vacina é segura e amplamente utilizada, é provável que ela venha a ser incorporada aos tratamentos rapidamente. Isso deve melhorar muito o prognóstico de muitos tipos de câncer. Mais uma razão para você continuar a se imunizar contra a covid.

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Mais informações: SARS-CoV-2 mRNA vaccines sensitize tumours to immune checkpoint blockade Nature

https://doi.org/10.1038/s41586-025-09655-y 2025

Opinião por Fernando Reinach

Biólogo, PHD em Biologia Celular e Molecular pela Cornell University e autor de "A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil"; "Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito"; e "A Longa Marcha dos Grilos Canibais"