Leitura de mentes pode beneficiar a sociedade, diz estudo

Uso de sistema para captar informação no cérebro permitiria tomar melhores decisões coletivas

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A prerrogativa de pensar uma coisa e dizer outra talvez seja um direito inalienável, mas há casos em que a sociedade como um todo e até mesmo o mentiroso, em particular, poderiam se sair melhor se houvesse uma máquina leitora de mentes para denunciar e punir hipocrisias. Esta, ao menos, é a conclusão de uma série de simulações realizada por economistas e neurologistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e descritas na edição desta semana da revista científica Science.

 

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O artigo, assinado pelo pesquisador em neuroeconomia Antonio Rangel e colegas, começa enunciando um problema clássico da formulação de políticas públicas: como decidir qual investimento deve ser feito pela coletividade? E quais membros do grupo devem pagar por ele?

 

Uma solução óbvia seria dividir os custos do investimento de acordo com o benefício que cada indivíduo espera receber dele. Imaginando uma situação onde vários municípios tenham resolvido se unir para construir um hospital, a cidade que se sentir mais beneficiada paga mais, e a que tiver o menor interesse na obra, menos.

 

O problema com esse esquema é, simplesmente, que as pessoas mentem: o prefeito de uma cidade pode saber que sua população ganhará muito com o projeto concluído, mas na hora de discutir a partilha do custo, finge não estar interessado. Assim, pode conseguir pagar menos por benefícios maiores, e transferir seus custos para os demais. Esse comportamento é chamado tecnicamente de "free-riding", expressão que costuma ser traduzida como "aproveitador".

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A presença de aproveitadores "torna muito difícil, na prática, determinar com precisão quais bens públicos devem ser fornecidos, e como os custos devem ser divididos", diz o artigo na Science. "Inúmeros experimentos, em todo o mundo, mostraram que o incentivo financeiro de tornar-se um aproveitador está sempre presente e leva à alocação de recursos num nível socialmente ineficiente".

 

A solução proposta pelo grupo de Rangel: submeter os envolvidos na negociação a um leitor de mentes capaz de determinar qual o verdadeiro valor que cada um dá ao bem público em debate, e multar os aproveitadores. O equipamento usado é um aparelho de ressonância magnética funcional aplicado ao cérebro, e cujos dados são analisados por algoritmos de reconhecimento de padrões.

 

O método  foi testado por meio de um jogo, no qual os participantes recebem a proposta de produção de um "bem público" abstrato, cuja geração implicaria em custo mas daria a cada um deles uma recompensa, classificada como "alta" (maior que o custo para o indivíduo) ou "baixa" (menor que esse custo).

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A recompensa que caberia a cada jogador foi definida previamente em sorteio. No equipamento de ressonância, os voluntários tinham de declarar se tinham tirado a recompensa alta ou a baixa. E eram livres para mentir. No entanto, o custo de produção do bem envolvia ainda uma taxa, ou "imposto", que crescia se o valor declarado pelo voluntário fosse diferente do adivinhado pela máquina.

 

Os participantes haviam sido informados de que o equipamento seria capaz de prever o valor real da recompensa com precisão variando entre 58% e 62%. Entrevistas posteriores com os participantes mostraram que, durante o experimento, a taxa de acerto da máquina esteve, de fato, entre 52% e 60%.

O resultado, segundo os pesquisadores do Caltech, foi uma alocação de recursos que chegou a 93% da que seria esperada se todos os participantes do experimento tivessem sido perfeitamente honestos - bem melhor que os 23% previstos, em teoria, para uma negociação normal, envolvendo aproveitadores.

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Rangel reconhece que um blefe - ameaçar os voluntários com um detector de mentiras falso - poderia gerar o mesmo resultado. "Mas a aplicabilidade a longo prazo depende da capacidade da tecnologia de funcionar conforme anunciado", ressalva. "Senão, as pessoas aprenderão, talvez por experiência, que podem se dar melhor mentindo".

 

A eventual aplicação da técnica fora do laboratório, em negociações reais, "é algo que terá de ser trabalhado por juristas, especialistas em ética e políticos nos próximos anos", diz o pesquisador, reconhecendo o potencial de conflito entre o uso de máquinas leitoras da mente e direitos individuais.

 

Mas ele destaca que ninguém saiu do jogo pior do que entrou.  Rangel acredita ter demonstrado que essa é uma propriedade intrínseca de seu modelo. "Ninguém, mesmo, pode ficar pior depois da aplicação da tecnologia, em contraste com o caso básico, sem nenhuma provisão em defesa do bem comum. Isso significa que a nova tecnologia tem o potencial de realizar ganhos individuais muito palpáveis e potencialmente grandes. Isso poderá impulsionar o apoio político a seu favor", afirma.

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